segunda-feira, 28 de março de 2011

A Tonga :: "A Tonga da Mironga do Kabuletê"...

Você sabe o que significa a "tonga da mironga do kabuletê"?

A atriz e cantora Marilia Barbosa enviou ao amigo, também ator, Tião D'Ávilla, o e-mail que transcrevo a seguir, com autorização de ambos. É o resumo da verdadeira história por traz da composição "A Tonga da Mironga do Kabuletê", canção escrita pelo poeta Vinícius de Moraes e pelo músico Toquinho.

Ano de 1970

Vinícius e Toquinho voltam da Itália onde haviam acabado de inaugurar a parceria com o disco "A Arca de Noé", fruto de um velho livro que o poetinha fizera para seu filho Pedro, quando este ainda era menino.

Encontram o Brasil em pleno "milagre econômico", que milagre... a censura estava em alta, DOPS, ato 5, torturas... a Bossa Nova em baixa. Opositores ao regime pagando com a liberdade e com a vida o preço de seus ideais.

O poeta Vinícius é visto como comunista pela cegueira militar e ultrapassado pela intelectualidade militante, que pejorativa e injustamente classifica sua música de easy music.

No teatro Castro Alves, em Salvador, é apresentada ao Brasil a nova parceria. Vinícius está casado com a atriz baiana Gesse Gessy, uma das maiores paixões de sua vida, que o aproximaria do Candomblé, apresentando-o à Mãe Menininha do Gantois.

Sentindo a angústia do companheiro, Gesse o diverte, ensinando-lhe xingamentos em Nagô, entre eles "tonga da mironga do kabuletê", que significa "o pêlo do cu da mãe".

O mote anal e seu sentimento em relação aos homens de verde oliva inspiram o poeta. Com Toquinho, Vinícius compõe a canção para apresentá-la no Teatro Castro Alves. Era a oportunidade de xingar os militares sem que eles compreendessem a ofensa.

E o poeta ainda se divertia com tudo isso:

"Te garanto que na Escola Superior de Guerra não tem um milico que saiba falar nagô".

Fonte: Vinicius de Moraes: o Poeta da Paixão; uma Biografia. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.

O e-mail da Marilia para o Tião

"Querido Tião,

No mesmo dia em que essa música foi gravada, saímos todos do programa da Rede Globo chamado "Som Livre Exportação", onde eu fui para cantar a música que o Vinícius fez para mim, chamada "Onde anda você", que conta a história da nossa linda amizade e me deu de presente de aniversário antecipado, no dia 18 de Abril de 1974 (meu aniversário é dia 21 de Abril), na casa de Toquinho, na Rua Peixoto Gomide, em São Paulo:

"E por falar em saudade,
onde anda você,
onde andam seus olhos
que a gente não vê,
onde anda esse corpo
que me deixou louco de tanto prazer"

Saímos da Globo e fomos para o estúdio do qual esqueci o nome, mas que ficava atrás da Central do Brasil, no começo da subida da favela. Quase todos os sucessos de minha carreira eu gravei lá. Voltando à "Tonga da Mironga", no coro que canta junto com Toquinho e Vinícius estão: Vinícius, Toquinho, Os Originais do Samba (com Mussum), Monsueto, João Araújo (o pai do Cazuza que só não cantou, mas estava presente, porque era muito pequenininho, tinha uns dez anos) e essa amiga que vos escreve agora, Marilia Barbosa.

Rimos muito das besteiras à respeito da Tonga e o Vinícius ria mais ainda pela imensidão de invencionices à respeito do que significava e entre nós, confessou às gargalhadas, que não significava "porra nenhuma", ele se referiu também à essa suposta tradição do nagô, mas disse que era pura sacanagem.

Agora eu pergunto:

Diante de Toquinho, Monsueto, Mussum e os Originais, João Araújo (amigo pessoal e presidente da Som Livre) e eu, que era uma amiga muito amada por ele, você acha que ele mentiria? Nós não estávamos trabalhando, estávamos por pura farra e amizade, aquele dia foi de celebrações!

Eu não acredito no livro, acredito no meu amigo!

Marilia"

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Confirmando o que diz a Marilia, encontrei a seguinte referência na wikipédia:

A expressão

Na composição, os autores informam, sem que seja comprovado, que a expressão seria uma espécie de xingamento em língua nagô. Na época, o Brasil era governado por uma ditadura e essa era a oportunidade de protestar sem que os militares compreendessem.

De acordo com o Novo Dicionário Banto do Brasil, de Nei Lopes, estas palavras significam o seguinte: (1) tonga (do Quicongo), "força, poder"; (2) mironga (do Quimbundo), "mistério, segredo" (Houaiss acrescenta: "feitiço"); (3) cabuletê (de origem incerta), "indivíduo desprezível, vagabundo" (também empregado para designar um pequeno tambor que vai preso em um cabo, usado na percussão brasileira).

- "Tonga", segundo o Dicionário Aurélio, pode ser uma palavra angolana para "terra a ser lavrada" ou "lavoura". É, ainda samtomensismo depreciativo, a designar descendentes de lusos, ou de serviçais, nascidos nas ilhas.

- "Mironga" é, em candomblé e na macumba, "feitiço, sortilégio, bruxedo".

- "Cabuleté", no mesmo léxico, é "indivíduo reles, desprezível, vagabundo".

A despeito do significado literal, a expressão foi escolhida pelo poeta Vinícius de Moraes pela sua sonoridade, sem valor semântico mas com alto valor sugestivo. É uma inovação linguística que se instalou na cultura popular brasileira.

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Então, acredito na Marilia, mas também já encomendei e vou ler o livro.

Um comentário:

Marilia Barbosa disse...

Ronald, obrigada pela consideração, mais ainda pela forma clara que emprega em suas informações.
Gostei de sue blog e pretetendo visitá-lo com frequência. Visite tb o meu, mariliabarbosacantriz.blogspot.com
Pretendo ser mais dedicada à ele, mas por enquanto meu tempo interno tem sido menor do que o externo.
Enfim, foi um prazer esse encontro. Beijo, Marilia