sexta-feira, 27 de abril de 2012


Em 25 de Janeiro de 2011, os egípcios foram as ruas, tomaram a Praça Tahrir, e o ditador teve que deixar o poder. Em 15 de Maio, os espanhóis decidiram permanecer na Puerta del Sol, em Madri, depois da enorme manifestação que ganhou as ruas naquele dia. Estes acampamentos expandiram-se em poucos dias a toda a Espanha e, pouco depois, a outras cidades de continentes diferentes.

No dia 27 de Setembro, o Occupy Wall Street se instalou no coração financeiro do mundo, abalou as estruturas políticas dos EUA e inspirou milhares a ocuparem as praças de outra dezenas de cidades ao redor do mundo.

No dia 15 de outubro, milhões de pessoas saíram às ruas em mais de 1000 cidades em todo o planeta, sob o lema "Unidos Por Uma Mudança Global". No Brasil, algumas cidades se mobilizaram e praças públicas foram ocupadas em: São Paulo, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Salvador, Porto Alegre, dentre outras. Em todas elas, os acampamentos permaneceram por muitas semanas e meses, como espaços políticos de aprendizado, criatividade pulsante, e local privilegiado para experiências únicas de convívio humano.

O 12 de Maio (#12M) será um Dia Internacional de Mobilização, pessoas de todo o mundo tomarão as ruas para gritar contra o sistema capitalista e sua estruturação política que serve única e exclusivamente à manutenção dos interesses dos poderosos. Mais do que isso, mostraremos também que, perante esse sistema que não nos representa, construíremos outro, que contemple nossos sonhos, nossas lutas e nossas aspirações de futuro.

Junte-se a nós! Somos mulheres e homens cansadxs da exploração, da desumanização e da opressão que retira um pedaço de nossa alma e de nossa carne, todos os dias. Já chega!

Isaac Asimov, em 1988, já previa o impacto da Internet

Isaac Asimov mostra toda sua genialidade prevendo, em 1988, a importância da Internet na educação e em nossas vidas. Entrevista gravada em 1988 por Bill Moyers no programa de TV World of Ideas. Asimov prevê entre outras coisas as redes sociais e aplicações como a Wikipedia, Yahoo Answers, etc.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

‘Tecendo Alianças pela Defesa da Mãe Terra’

Declaração da IV Cúpula de Líderes Indígenas das Américas:
‘Tecendo Alianças pela Defesa da Mãe Terra’

Varias organizaciones
Cartagena de Índias, Colômbia
Abril 11 e 12 de 2012
Tradução: ADITAL

Nós, os Governos dos Povos, Nações e Organizações Indígenas da América do Sul, da América Central, da América do Norte e do Caribe, no exercício de nosso direito à livre determinação e em defesa da Mãe Terra, proferimos juntos a palavra.

CONSIDERANDO

1. Que o modelo de desenvolvimento econômico implementado pelos Estados do continente americano desconhece nossa realidade e nosso próprio desenvolvimento; omite o reconhecimento de Bem Viver, o equilíbrio e a harmonia de nosso ser indígena com a Mãe Terra.
2. Que as políticas estatais de mitigação e redução dos impactos da mudança climática têm resultado ineficazes e têm evidenciado seu fracasso, promovendo a mercantilização do ambiente (REDD+, bônus de carbono e economia verde).
3. Que a adoção e a implementação da Declaração Americana dos Direitos dos Povos Indígenas deve ser um compromisso dos Estados para deter o etnocídio de nossos povos.
4. Que a folha de coca tem um caráter sagrado, milenar e cultural e é alimento material e espiritual para nossos povos.
5. Que se deve garantir o exercício da livre determinação de nossos povos e fortalecer nossa qualidade de Governos Próprios nas instâncias internacionais.
6. Que os Estados Americanos medem a iniquidade social e/ou a prosperidade dos Povos Indígenas através de indicadores e metas generalizadas e não através do exercício efetivo de nossos direitos reais sobre os territórios ancestrais, impedindo o dever de protegê-los, respeitá-los e salvaguardar a Mãe Terra como sujeito de direitos.
7. Que a integração regional deve consolidar-se como um espaço de reconhecimento e respeito a nossos povos ancestrais, bem como a superação da iniquidade social e de toda prática colonialista nas relações entre os Estados e entre esses e os povos.

DECLARAMOS aos chefes de Estado da região, reunidos nos dias 14 e 15 de abril de 2012, na VI Cúpula das Américas, realizada em Cartagena de Índias, Colômbia, o seguinte:

I. Frente ao modelo de desenvolvimento econômico

1. Este foi reduzido à intervenção e ao despojo ilegítimo de nossos territórios, bem como à superexploração dos bens naturais que conservamos milenarmente, submetendo-nos inevitavelmente ao genocídio e ao extermínio.
2. Afirmamos que a superação da iniquidade social de nossos povos deve ser alcançada através da adoção e da implementação de instrumentos jurídicos e de políticas públicas que nos protejam e garantam o exercício de nossos direitos, prevenindo potenciais vulnerações, a devastação de nosso território, bem como tudo o que ponha em risco nossa sobrevivência física e permanência cultural.
3. A integração regional deve superar a perpetuação da intervenção econômica, política e social em nossos territórios.

II. Frente à mudança climática

1. Dado o caráter de ser vivo que tem a Mãe Terra, existe a necessidade de implementar nossas contribuições e práticas milenares que mitigam e reduzem os impactos do fenômeno da mudança climática.

III. Frente à Declaração Americana dos Direitos dos Povos Indígenas

1. Requeremos um compromisso serio e respeitoso por parte dos Estados dirigido a fortalecer econômica e politicamente o processo de concertação com as autoridades e organizações representativas dos povos indígenas da região que permita adotar e implementar ao término de um ano esse instrumento jurídico e, consequentemente, que se cumpra com os deveres e obrigações que, por natureza, são inerentes aos Estados. Manifestamos nossa preocupação com a decisão de países como Estados unidos e Canadá de retirar-se do processo de negociação, colocando em risco o consenso e os acordos já celebrados em 13 anos de negociações.
2. Respeitar o princípio de progressividade dos direitos e abster-se de incorporar na Declaração Americana de Direitos dos Povos Indígenas disposições regressivas e ter como padrão mínimo para as negociações a Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas. Instamos a fomentar o diálogo e não fechar os canais de comunicação sobre os eixos fundamentais para a proteção dos povos indígenas.

IV. Frente ao Direito à livre determinação e ao reconhecimento de Governos Próprios dos Povos Indígenas

1. Implementar um espaço de diálogo e de articulação permanente e horizontal dentro da estrutura da OEA, com o fim de garantir a consolidação dos princípios democráticos dentro da organização. Essa instância deve avançar na implementação e seguimento das políticas governamentais que atinjam aos povos indígenas bem como avaliar a continuidade dos acordos celebrados entre os Estados e os indígenas do continente, como também as decisões tomadas no marco do Sistema Interamericano de Direitos Humanos.
2. Respaldamos todos os processos de consulta aos povos indígenas no marco do Convênio 169, da OIT.
3. Despenalizar o consumo da folha de coca em seu estado natural por ter caráter sagrado, milenar e cultural e é alimento material e espiritual para nossos povos.
4. Que os governos das Américas contribuam à democratização da palavra e de suas estratégias de comunicação próprias, mediante a abertura e a execução conjunta com organizações indígenas, verdadeiras políticas públicas diferenciais no tema da comunicação indígena. Legitimar o mandato da Primeira |Cúpula Continental de Comunicação Indígena de Abya Yala, realizado em Cauca, Colômbia, como guia para os planos estratégicos dos povos e Estados no tema da comunicação diferencial.

V. Frente ao Sistema Interamericano de Direitos Humanos

1. Instamos aos órgãos de proteção do Sistema Interamericano (Comissão e Corte Interamericana de Direitos Humanos) a proteger os direitos dos povos indígenas, em consonância com os instrumentos internacionais de proteção de direitos humanos, onde deverá primar a proteção dos povos indígenas acima da execução do modelo de desenvolvimento econômico extrativo e de desterritorialização adiantado pelos Estados da região.
2. Convocamos aos Estados a reconhecer e aplicar os mandatos do Sistema Interamericano.

VI. Frente aos Direitos Humanos 

1. Solicitamos aos Estados que, frente à existência de qualquer conflito, primem as soluções políticas; nesse sentido, instamos ao Estado colombiano a gerar todas as condições no que seja de sua competência, para buscar uma solução política ao conflito armado que nos atinge, do contrário, se perpetuará o extermínio ao qual atualmente estão submetidos nossos irmãos colombianos.
2. Exigimos respeito dos Estados para com nossos territórios e a nós mesmos, em razão da campanha de militarização e de criminalização a que somos submetidos na região.
3. Convidamos à adoção de uma Convenção Americana que proteja real e efetivamente o direito ao Consentimento Prévio, Livre e Informado. Esse instrumento jurídico deve ser respeitado pelos Estados em consonância com o caráter de direito humano do mesmo e seu conteúdo indivisível com a existência dos povos indígenas.
4. As políticas desenhadas para proteger e implementar os direitos dos povos indígenas devem ser construídas de maneira concertada e garantir seu enfoque diferencial.
5. Colocar todos os esforços para a proteção das crianças, das mulheres e dos jovens indígenas.
6. Consolidar a segurança jurídica dos territórios indígenas, ratificar nossa ocupação e posse ancestral, bem como garantir o gozo efetivo do direito à propriedade territorial.

RECOMENDAMOS

Apoiamos da demanda marítima da Bolívia e instamos aos Estados envolvidos a encontrar soluções definitivas o mais breve possível, no marco da integração regional para o Bem Viver e para a prosperidade de Abya Yala (Américas).

No marco de integração dos povos, especificamente dos indígenas e sendo 2012 o ano de reencontro, de reconciliação, de novos tempos, sugerimos que a República irmã de Cuba possa participar da próxima Cúpula das Américas.

Finalmente, mantemos nossa disposição de continuar fortalecendo os processos democráticos e de diálogo na região, considerando que, enquanto os Estados do hemisfério manifestem sua vontade política e avancem na construção de vias de discussão, nossos Governos Próprios caminharão rumo a construção de um Tratado de Direitos dos Povos Indígenas que ratifique nossos direitos milenares e fortaleça nossas alianças em defesa da Mãe Terra.

Com o propósito de fortalecer nossa integração e unidade, adicionalmente decidimos constituir o Conselho das Organizações Sociais dos Povos de Abya Yala (Américas).


quarta-feira, 18 de abril de 2012

Decisões coletivas: reunião Ocupa Rio 14.04.12 no MAM


1- Organizou-se um pequeno comitê para manter os canais de informação Ocupa Rio melhor atualizados com as agendas das diferentes iniciativas políticas apartidárias pelas cidades do Rio de janeiro e grande Rio. 

A intenção é enfatizar e promover o entendimento de que o Ocupa Rio não é um grupo, nem um coletivo, mas um espaço de ativismo político independente de partidos, e que se dá no encontro produtivo de movimentos, coletivos e ativistas independentes. 

Pedimos a todos ativistas e artivistas organizados em movimentos ou independentes que também que ajudem a divulgar suas iniciativas, encontros e reuniões, enviando a info sempre ao email ocupario@gmail.com e também como mensagem privada na página http://www.facebook.com/OcupaRio

2- Sobre o chamado Global 12M (12 de Maio) Local, debate, shows e publicação coletiva:

2.1- o local escolhido para as atividades do 12M foi o Largo da Carioca. 

2.2- os presentes se propuseram a organizar um debate Ocupa Rio e shows. 

O tema proposto é sobre o contexto da economia global e de iniciativas de autonomia local (cooperativas ecológicas, cooperativas de consumidores etc) e propostas de cooperação global independente de governos. Alguns nomes, instituições e movimentos foram sugeridos e serão contactados. 

Os interessados em ajudar com indicação e contato de nomes, por favor, enviar a info sempre ao email ocupario@gmail.com e também como mensagem privada na página http://www.facebook.com/OcupaRio

2.3- no 12 de Maio, será lançada publicação coletiva de formato e tamanho livres, de acordo com a colaboração recebida até o sábado dia 28 de abril pelo email ocupario@gmail.com. A publicação será aberta a todos os interessados. 

Favor enviar textos, poesias, quadrinhos e charges (tudo preferencialmente em Preto e Branco) com temas afins ao ativismo político apartidário de nível local ou global. 

Como ativismo político, entenda-se não apenas protestos e queixas sobre governos, mas também todo tipo de iniciativa colaborativa e de estímulo à autonomia das populações, por exemplo, na área de ecologia, educação, de identidade (movimento negro, LGBT, feministas, indígenas, quilombolas, etc), lutas urbanas e rurais por moradia, questões de direitos autorais, questões de patentes de sementes e remédios etc.

Lembre-se: enviar texto, poesia, charge, ou quadrinhos até dia 28 de abril para o email ocupario@gmail.com 

Para chegar ao público que não tem acesso ou costume de ler via computador, a intenção é lançar também em versão impressa no 12M, sem exagero de cópias para evitar o desperdício. Formas para financiamento colaborativo e cooperação com gráfica/impressoras estão sendo levantados. Os interessados em contribuir com impressão, materiais recicláveis e outras colaborações, favor se comunicar pelos canais indicados acima. 

2.4- Foi reforçado que o 12M é de livre participação, e que é desejável que todo tipo de coletivos, movimentos e associações de ativismo político produzam atividades independentes para o 12M e que será fortuito a convergência para o Largo da Carioca. 

Para viabilizar ou facilitar a iniciativa, os que quiserem colaboração e parceria com participantes do comitê de mobilização formado no encontro Ocupa Rio, por favor, contactar via email ocupario@gmail.com e por mensagem privada na página http://www.facebook.com/OcupaRio 

3- Segundo Ciclo de debates Ocupa Teoria: foi feito ata sobre este tema em separado e já está publicada no blog do GT Teoria: http://ocupateoria.wordpress.com/

Fonte: https://www.facebook.com/groups/274554705966670/permalink/281199471968860/ ~acessado em 18/04/2012 as 18h00.

Decisões coletivas: reunião Ocupa Rio 14.04.2012 no vão livre do MAM


Por favor divulguem em suas páginas, grupos e blogues !!!

sábado, 7 de abril de 2012

Tropicalismo, antropofagia, mito, ideograma

por Glauber Rocha - via Tropicalia (reprodução)
Extraído de Revolução do Cinema Novo. Rio de Janeiro: Alhambra, 1981


"Consideramos como início de uma revolução cultural no Brasil o 1922. Naquele ano existiu forte movimento cultural de reação à cultura acadêmica e oficial. Deste período o expoente principal foi Oswald de Andrade. Seu trabalho cultural, sua obra, que é verdadeiramente genial, ele definiu como antropofágica, referindo-se à tradição dos índios canibais. Como esses comiam os homens brancos, assim ele dizia de haver comido toda a cultura brasileira e aquela colonial. Morreu com pouquíssimos textos publicados.

José Celso Martinez, que dirige o grupo Teatro Oficina, o mais importante grupo de vanguarda teatral, descobriu o texto do Rei da Vela, e montou o espetáculo. Foi uma verdadeira revolução: a antropofagia (ou o Tropicalismo, também chamado assim) apresentada pela primeira vez ao público brasileiro provocou grande abertura cultural em todos setores.

O Tropicalismo, a antropofagia e seu desenvolvimento são a coisa mais importante hoje na cultura brasileira.

A história do Brasil é pequena, reduzida. Temos uma tradição nacional-fascista, que depois se transformou em nacional-democrática, mas quando o país descobriu o subdesenvolvimento, o nacionalismo utópico entrou em crise e caiu. Primeiro se descobriu, sem bem que em forma bastante esquemática, por que no Brasil as Ciências Sociais são primitivas, o subdesenvolvimento econômico; depois veio a descoberta de que o subdesenvolvimento era integral.

O cinema brasileiro partiu da constatação desta totalidade, de seu conhecimento e da consciência da necessidade de superá-la de maneira também total, em sentido estético, filosófico, econômico: superar o subdesenvolvimento com os meios do subdesenvolvimento. O Tropicalismo, a descoberta antropofágica, foi uma revelação: provocou consciência, uma atitude diante da cultura colonial que não é uma rejeição à cultura ocidental como era no início (e era loucura, porque não temos uma metodologia): aceitamos a ricezione integral, a ingestão dos métodos fundamentais de uma cultura completa e complexa, mas também a transformação mediante os nostros succhi e através da utilização e elaboração da política correta. É a partir deste momento que nasce uma procura estética nova, e é um fato recente.

Agora, “Tropicalismo” é um nome que não significa nada, como “Cinema Novo”. Aquilo que é significante é o apporto dos artistas nesta direção.

Tropicalismo é aceitação, ascensão do subdesenvolvimento; por isto existe um cinema antes e depois do Tropicalismo. Agora nós não temos mais medo de afrontar a realidade brasileira, a nossa realidade, em todos os sentidos e a todas as profundidades. Eis por que em Antônio das Mortes existe uma relação antropofágica entre os personagens: o professor come Antônio, Antônio come o cangaceiro, Laura como o comissário, o professor come Cláudia, os assassinos comem o povo, o professor come o cangaceiro.

Esta relação antropofágica é de liberdade.

Já antes eu devia ter feito assim, já em Deus e o Diabo, mas o relacionamento entre os personagens era um relacionamento fechado, com censuras entre eles; eram mais burgueses porque eu era mais burguês. Ao invés em Antônio das Mortes houve uma abertura total, assim para os filmes dos outros autores: esta liberdade, nova para nós, criou a possibilidade de uma relação nova com o público.

Ultimamente não temos feito nem filmes americanos, nem filmes populistas: eu acho que um cinema assim é menos conceitual (e por isto mesmo, esquemático) e penetra mais profundo em um público colonizado, como o nosso. Com o sistema imperialista não se pode fazer concorrência, mas se se faz um filme que chega diretamente ao inconsciente coletivo, à disposição mais verdadeiramente profunda de um povo, então se pode até vencer.

Por outro lado, não foi um fato programado este, chegar a vencer, foi um fato de crescimento. E ainda faremos filmes feios. Mas aquilo que conta é o público, e o público é diferenciado.

É uma procura estética política que se move debaixo do signo da individualização do inconsciente coletivo, e para isto existe o aproveitamento de elementos típicos da cultura popular utilizados criticamente.

Nos dias passados falei com Godard sobre a colocação do cinema político. Godard sustenta que nós no Brasil estamos na situação ideal para fazer um cinema revolucionário, e ao invés disso, fazemos ainda um cinema revisionista, isto é, dando importância ao drama, ao desenvolvimento do espetáculo, em suma.

Na sua concepção, existe hoje um cinema para quatro mil pessoas, de militante a militante. Eu entendo Godard. Um cineasta europeu, francês, é lógico que se ponha o problema de destruir o cinema. Mas nós não podemos destruir aquilo que não existe. E colocar nestes termos o problema sectário é, portanto, errado. Nós estamos em uma fase de liberação nacional que passa também pelo cinema, e o relacionamento com o público popular é fundamental. Nós não temos o que destruir, mas construir. Cinemas, Casas, Estradas, Escolas etc.

De resto, por fim Godard compreendeu também, e cheguei a filmar como ator, um plano para seu filme, no qual tenho muita fé. Uma inversão estrutural do gênero western pode ser muito interessante e útil para nós diretamente. É importante o western, não somente para mim. Nós somos um povo ligado historicamente à saga, à épica. Nós temos uma grande tradição filosófica; e é um mal. Mas seria um mal maior uma filosofia de importação que não corresponde à história. Por isto a antropofagia é mais importante.

Podemos criar as tradições de uma indústria na qual o produtor é o autor. Hoje, entre nós a figura do produtor é de um técnico que estuda o mercado para encontrar formas e soluções objetivamente econômicas, até chegar a tipos de planificação.

Existe o cinema brasileiro que antes não existia, e no seu interior existem muitas diferenças.

Tínhamos de construir as estruturas e descobrir os cineastas. Isto foi feito. Agora existe uma mudança de tática, com um trabalho enorme (mas planificado, organizado) para difundir as possibilidades do cinema.

Falar de mito e linguagem é fundamental. É o centro do nosso problema. Se tendemos para uma revolução global, total, a linguagem deve ser compreendida no sentido marxista, como expressão da consciência.

Para nós o problema é de mais imediata compreensão, porque o analfabetismo leva a um tipo de percepção complexa e nós queremos desenvolver nosso cinema em uma dialética histórica permanente com a situação em movimento.

Existiram várias fases. O momento da denúncia social, influenciado pelo neo-realismo e pelo cinema social americano. O momento da euforia revolucionária, que tinha já limitadas e esquemáticas características populares. O momento, finalmente, da reflexão, da meditação, da procura em profundidade.

Nestes três momentos se encontram grandes diferenças de linguagem, mesmo em um só autor. Eu por exemplo neste momento estou menos influenciado. Antônio das Mortes tem menos detritos. As influências são mais subjetivas, mais íntimas.

O cinema do futuro é ideogramático. É uma difícil pesquisa sobre os signos (símbolos). Para isto não basta uma ciência, mas é necessário um processo de conhecimento e de autoconhecimento que investe toda a existência e sua integração com a realidade.

O mito é o ideograma primário e nos serve, temos necessidade dele para conhecermo-nos e conhecer. A mitologia, qualquer mitologia, é ideogramática e as formas fundamentais de expressão cultural e artística a elas se referem continuamente. Depois poderemos desenvolver outras coisas, mas, este é um passo fundamental. O surrealismo para os povos latino-americanos é o Tropicalismo.

Existe um surrealismo francês e um outro que não o é. Entre Breton e Salvador Dali tem um abismo. E o surrealismo é coisa latina. Lautreaumont era uruguaio e o primeiro surrealista foi Cervantes. Neruda fala de surrealismo concreto. É o discurso das relações entre fome e misticismo. O nosso não é o surrealismo do sonho, mas a realidade. Buñuel é um surrealista e seus filmes mexicanos são os primeiros filmes do Tropicalismo e da antropofagia.

A função histórica do surrealismo no mundo hispano-americano oprimido foi aquela de ser instrumento para o pensamento em direção de uma liberação anárquica, a única possível. Hoje utilizada dialeticamente, em sentido profundamente político, em direção do esclarecimento e da agitação.

O Cinema Ideogramático quer dizer isto: forma desenvolvida e aprofundada da consciência, a própria consciência, em relação direta com a construção das condições revolucionárias. A inteligência da crítica francesa, se bem que esnobe e por vezes acadêmica, tem salvo o cinema de uma mediocridade maior. O que esculhambou o cinema italiano foi a crítica pseudomarxista. Bazin é muito mais inteligente do que Aristarco, embora Rosselini, Visconti, Fellini, Antonioni sejam italianos. A excelente crítica de Bazin formou apenas Godard – embora Truffaut pudesse ser um grande cineasta se fizesse psicoanálise. Dois cineastas franceses que acompanho com atenção: Resnais e Rivette. Mas enquanto o cinema francês permanecer no domínio da razão ele estará limitado. E o pior é que esta razão é antidialética. Godard é suíço – um subdesenvolvido esmagado pelo país vizinho. E é protestante – um moralista tímido que se auto-explode para não morrer de medo."

Texto gentilmente cedido pelo Tempo Glauber

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Project Glass, os óculos do Google

Novidades do Google à vista! Diz a nota que acompanha o vídeo postado no YouTube (veja abaixo):

"Acreditamos que a tecnologia deve trabalhar para você - para estar lá quando você precisa dela e sair de seu caminho quando você não quer. Uma equipe dentro do nosso grupo Google [x] começou o 'Projeto Óculos' para construir este tipo de tecnologia, que ajuda você a explorar e compartilhar seu mundo, colocando-o de volta no momento. 

 Acompanhe com a gente no http://g.co/projectglass como compartilhamos algumas de nossas idéias e histórias. Gostaríamos muito de ouvir a sua também. O que você gostaria de ver do 'Projeto Óculos'?"

 

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Do ilusório Gene egoísta ao caráter cooperativo do Genoma humano


Tempos de crise sistêmica como os nossos favorecem uma revisão de conceitos e a coragem para projetar outros mundos possíveis que realizem o que Paulo Freire chamava de o “inédito viável”. 

É notório que o sistema capitalista imperante no mundo é consumista, visceralmente egoísta e depredador da natureza. Está levando toda a humanidade a um impasse pois criou uma dupla injustiça: a ecológica por ter devastado a natureza e outra social por ter gerado imensa desigualdade social. Simplificando, mas nem tanto, poderíamos dizer que a humanidade se divide entre aquelas minorias que comem à tripa forra e aquelas maiorias que se alimentam insuficientemente. Se agora quiséssemos universalizar o tipo de consumo dos países ricos para toda a humanidade, necessitaríamos, pelo menos, de três Terras, iguais a atual. 

Este sistema pretendeu encontrar sua base científica na pesquisa do zoólogo britânico Richard Dawkins que há trinta e seis anos escreveu seu famoso O gene egoísta (1976). A nova biologia genética mostrou, entretanto, que esse gene egoísta é ilusório, pois os genes não existem isolados, mas constituem um sistema de interdependências, formando o genoma humano que obedece a três princípios básicos da biologia: a cooperação, a comunicação e a criatividade. Portanto, o contrário do gene egoísta. Isso o demonstraram nomes notáveis da nova biologia como a prêmio Nobel Barbara McClintock, J. Bauer, C. Woese e outros. Bauer denunciou que a teoria do gene egoísta de Dawkins “não se funda em nenhum dado empírico”. Pior, “serviu de correlato biopsicológico para legitimar a ordem econômica anglo-norteamericana” individualista e imperial (Das kooperative Gen, 2008, p.153). 

Disto se deriva que se quisermos atingir um modo de vida sustentável e justo para todos os povos, aqueles que consomem muito devem reduzir drasticamente seus níveis de consumo. Isso não se alcançará sem forte cooperação, solidariedade e uma clara autolimitação. 

Detenhamo-nos nesta última, a autolimitação, pois é uma das mais difíceis de ser alcançada devido à predominância do consumismo, difundido em todas classes sociais. A autolimitação implica numa renúncia necessária para poupar a Mãe Terra, para tutelar os interesses coletivos e para promover uma cultura da simplicidade voluntária. Não se trata de não consumir, mas de consumir de forma sóbria, solidária e responsável face aos nossos semelhantes, à toda a comunidade de vida e às gerações futuras que devem ter o direito de também consumir.

A limitação é, ademais, um princípio cosmológico e ecológico. O universo se desenvolve a partir de duas forças que sempre se auto-limitam: as forças de expansão e as forças de contração. Sem esse limite interno, a criatividade cessaria e seríamos esmagados pela contração. Na natureza funciona o mesmo princípio. As bactérias, por exemplo, se não se limitassem entre si e se uma delas perdesse os limites, em bem pouco tempo, ocuparia todo o planeta, desequilibrando a biosfera. Os ecossistemas garantem sua sustentabilidade pela limitação dos seres entre si, permitindo que todos possam coexistir. 

Ora, para sairmos da atual crise precisamos mais que tudo reforçar a cooperação de todos com todos, a comunicação entre todas as culturas e grande criatividade para delinearmos um novo paradigma de civilização. Há que darmos um adeus definitivo ao individualismo que inflacionou o “ego” em detrimento do “nós” que inclui não apenas os seres humanos mas toda a comunidade de vida, a Terra e o próprio universo.