domingo, 2 de março de 2014

Virtude e bondade por Michel de Montaigne

Parece-me que a virtude é coisa diferente e mais nobre do que as inclinações para a bondade que nascem em nós. As almas bem ajustadas por si mesmas e bem nascidas seguem o mesmo andamento e apresentam nas suas ações a mesma aparência que as virtuosas.

Porém a virtude significa não sei quê de maior e mais ativo do que, por uma índole favorecida, deixar-se conduzir docemente e tranquilamente na esteira da razão. Aquele que com uma doçura e complacência naturais menosprezasse as ofensas recebidas faria coisa mui bela e digna de louvor; mas aquele que, espicaçado e ultrajado até o âmago por uma ofensa, se armasse com as armas da razão contra o furio­so apetite de vingança e após um grande conflito finalmen­te o dominasse, sem a menor dúvida seria muito mais.

Aquele agiria bem, e este virtuosamente: uma ação poder-­se-ia dizer bondade; a outra, virtude, pois parece que o nome de virtude pressupõe dificuldade e oposição, e que ela não pode se exercer sem combate. Talvez seja por isso que chamamos Deus de bom, forte e liberal, e justo; mas não O chamamos de virtuoso: Os Seus atos são todos natu­rais e sem esforço.

Metelo, o único de todos os senadores romanos a se ter proposto, pela força da sua virtude, a resistir à violência de Saturni­no, tribuno do povo em Roma, que queria à viva força fazer passar uma lei injusta em favor da plebe, e tendo assim in­corrido nas penas capitais que Saturnino estabelecera contra os que a rejeitassem, mantinha com os que naquela situação extrema o conduziam à praça uma conversa assim: que agir mal era coisa fácil demais e muito covarde, e agir bem quan­do não houvesse risco era coisa vulgar; mas agir bem quando houvesse risco era o próprio ofício de um homem de virtude. Essas palavras de Metelo representam-nos mui­to claramente o que eu queria provar: que a virtude rejeita a comodidade como companhia; e que esse caminho fácil, ameno e em suave declive, por onde se conduzem os pas­sos bem ajustados de uma boa inclinação natural, não é o da verdadeira virtude.

Ela pede um caminho áspero e es­pinhoso; quer ter ou dificuldades externas para combater, como a de Metelo, por meio das quais o destino se com­praz em interromper o vigor da sua marcha, ou dificulda­des internas que lhe são provocadas pelos apetites desor­denados e pelas imperfeições de nossa condição. 

Michel de Montaigne, in 'Ensaios'

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