quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Cocaína causa dano cerebral após 2 anos de uso

Cocaína danifica o cérebro após 2 anos de uso :: Pesquisa da Unifesp, inédita no país, com dependentes e ex-dependentes indica alterações leves após 1 ano de uso


A cocaína provoca alterações irreversíveis no cérebro depois de dois anos de uso contínuo, em média. Em alguns casos, danos leves já aparecem depois de 11 ou 12 meses de consumo.

A memória, a atenção, a concentração, a capacidade de raciocínio abstrato e o sentido de espacialidade são as funções cerebrais mais afetadas pela cocaína aspirada ou cheirada em forma de crack.

A radiografia dos estragos causados pela droga consta de pesquisa realizada pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) com 30 dependentes e ex-dependentes. Os pesquisadores utilizaram um tomógrafo computadorizado do tipo Spect, que fotografa o cérebro em atividade. Os voluntários também se submeteram a uma avaliação neuropsicológica.

"As alterações nas funções foram constatadas nos dois tipos de exames", diz o psiquiatra Dartiu Xavier da Silveira, coordenador da pesquisa e diretor do Proad (Programa de Orientação e Assistência a Dependentes), do departamento de psiquiatria da Unifesp.

Segundo Silveira, trata-se do primeiro estudo do gênero no Brasil. Nos EUA, há pesquisas com metodologia semelhante, mas com número bem menor de dependentes.

A equipe de pesquisadores -que inclui Marcelo Fernandes, Antonio Barbieri, Eliseu Labigalini e Evelyn Doering- chegou a se surpreender com algumas das constatações. A primeira delas é que o tempo de uso tem mais importância que a quantidade de droga utilizada. Todos os que usaram cocaína por mais de 58 meses apresentaram alterações graves, independentemente da quantidade que usavam.

Outra surpresa: as alterações no cérebro dos dependentes de crack não eram maiores que aquelas encontradas em usuários de cocaína aspirada. Igualmente, os danos não diminuíam nos dependentes que tinham parado de usar 30 dias antes do exame.

Segundo Silveira, as alterações ocorrem por dois mecanismos que são simultâneos. Primeiro, a cocaína provoca uma constrição dos vasos sanguíneos, fazendo com que algumas regiões do cérebro recebam menor quantidade de sangue. Segundo, a vasoconstrição causa microderrames. Com isso, toda a rede de neurônio afetada deixa de funcionar. Por serem alterações relativamente pequenas, elas afetam especialmente as funções intelectuais e abstratas.

As constatações da pesquisa podem beneficiar os dependentes levando-os a se esforçar por interromper o uso da droga, acredita Silveira. Tanto esse estudo como outros realizados nos EUA mostraram que, ao deixar de usar a droga, as alterações se estabilizam, cessando a evolução. Assim, os danos poderiam ser contornados.

Por outro lado, os pesquisadores acham que os resultados devem levar a novas estratégias de tratamento. Por exemplo, um dependente com dificuldade de abstração deverá receber terapia específica, pois assimilará apenas uma parte do que está sendo dito.

Os voluntários do estudo eram todos homens e estavam sendo atendidos pelo Proad. Foram selecionados entre os que não faziam uso de múltiplas drogas nem eram dependentes de álcool.

A maioria deles usava cocaína duas vezes por semana, consumindo em média 4,5 gramas por vez. Um deles chegou a usar 19 gramas numa única ocasião.

Segundo Silveira, o Proad pretende agora repetir os mesmos exames com dependentes de álcool, maconha, Santo Daime e de outras drogas. "Os estudos com os dependentes de cocaína devem continuar", diz Silveira. "Há muitas alterações que ainda precisam ser explicadas."

Dependente tem problema para se localizar no espaço

Uma das funções cerebrais mais afetadas pelo uso da cocaína é a espacialidade, a capacidade de a pessoa se situar tridimensionalmente diante de um objeto ou no interior de algum local. Com a espacialidade alterada, um motorista pode ficar em dúvida se passará ou não por um túnel. Uma pessoa poderá cair da escada ao calcular mal a altura e a distância dos degraus.

"Nunca tinha notado essas alterações tão presentes em nenhum outro tipo de paciente", diz a psicóloga Evelyn Doering, que realizou os longos testes neuropsicológicos com os voluntários.

A espacialidade é uma função que está concentrada na região parietal, que fica na parte de trás e de cima do cérebro. A alteração apareceu quando os pacientes foram convidados a ordenar uma série de cubos seguindo um modelo que estava impresso num papel. "Sempre que apareciam figuras na diagonal, eles se atrapalhavam muito", diz.

Uma certa displicência na execução de algumas tarefas também foi observada em boa parte dos voluntários. Por exemplo, não observavam direito certas ações, depois não conseguiam repeti-las.


Fonte: UNIMED, por AURELIANO BIANCARELLI

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