quinta-feira, 6 de novembro de 2014

A Psicanálise como fofoca: o rompimento entre Freud e Jung

Freud e Jung no banho turco, 1907
Psicanálise, grosso modo, consiste em fofoca estilizada. A cura (ou adaptação) pela fala que se revela na catarse sublimadora das minudências inconfessáveis do analisado, que fofoca de si pra si aquilo que cora de vergonha de contar pra alguém. 

O grande inventor do método foi o fofoqueiro Freud, que revelou pra humanidade as elucubrações inconfessáveis do subconsciente, que todo mundo varria pra debaixo do tapete. 

E seu primeiro grande seguidor foi Carl Gustav Jung, que logo em seguida bateu o pezinho e se rebelou contra o mestre. Como duas comadres fofoqueiras estilosas, ambos romperam para nunca mais.


A razão da ruptura foi a insistência de Jung em buscar algum sentido de transcendência maior para a psique humana. Cientista radical, Freud negava qualquer hipótese de cheiro de metafísica em seus trabalhos. 

Já Jung sismava com a mania de Freud de reduzir toda a psicopatologia da vida cotidiana a apelos inconscientes sexuais. O confronto de ambos deu-se sobretudo na disputa simbólica do inconsciente. 

Enquanto Freud destrinchava a tragédia grega e outras mitologias procurando as razões da perversão, da histeria, do desejo reprimido do filho pela mãe e de outras pulsões ocultas, Jung negava a abrangência absoluta das pulsões sexuais e ampliava o leque antropológico das referências mitológicas e antropológicas no subconsciente, proclamando o tal inconsciente coletivo que se alimentaria até mesmo do que desconheceria culturalmente. 

Na verdade, talvez inconscientemente, um compensava sua inabilidade no outro. Freud, com seu cientificismo rigoroso, talvez invejasse a fome de transcendência de Jung, que, por sua vez, "freudianamente" cortou o cordão umbilical com seu tutor paterno afetivo. Freud por fim fez biquinho pra o que ele chamou de "xamanismo" de Jung e o desapossou do cargo simbólico de herdeiro. As virtuosas comadres da fofoca estilizada nunca mais confabulariam até o túmulo.

Fofocas virtuais à parte, a única vez que procurei uma analista, busquei uma que fosse Junguiana, justamente pelo lado menos cientificista e mais transcendental (miraculoso?) de Jung. 

Queria, na verdade, um guru com pendores intelectuais que me oferecesse uma mágica. Precisava de um milagre, não exatamente me adaptar aos meus problemas (pressuposto da psicanálise). 

A senhora em questão polidamente sugeriu a hipótese de jogar as cartas para mim: Tarô - um método arquetípico de análise Junguiana. Dei meia volta e abandonei minha primeira e última sessão de análise. 

Gosto de acreditar em milagres, mas não a este ponto. Prefiro me enganar de maneiras mais sutis. Decepcionei Freud e Jung ao mesmo tempo, duvidando de um e me desapontando com o outro.

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