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quarta-feira, 6 de junho de 2018

85 mais ricos tem mais que 50% da população mundial




As pessoas mais ricas do mundo não são conhecidas por viajar de ônibus, mas se pensando em uma mudança de cena, as 85 pessoas mais ricas  do globo – que controlam tanta riqueza quanto a metade mais pobre da população mundial juntos, ou seja 3,5 bilhões de seres humanos – poderia se espremer em um único double-decker (n.t. um ônibus de dois andares).

O hotel de luxo InterContinental Davos, numa estância de inverno em Davos. Relatório da Oxfam percebeu que muitas
pessoas pelo mundo acreditam que os ricos têm muita influência sobre a direção de seu país. Arnd Wiegmann / Reuters
Tradução livre de artigo publicado no jornal inglês "The Guardian":
Oxfam: 85 richest people as wealthy as poorest half of the world
por Graeme Wearden – Londres – Inglaterra

Com a realização do Fórum Econômico Mundial, (n.t. uma reunião da elite mundial) que foi realizado em Davos, na Suíça, reivindicações da OXFAM – (Oxford Committee for Famine Relief – Comitê de Oxford de Combate à Fome) pede maior cooperação para o desenvolvimento e o fim da desigualdade entre ricos e pobres.

A medida em que tanta riqueza global tornou-se entesourada por um punhado virtual da chamada ‘elite global’, o assunto está exposto em um novo relatório da Oxfam desde o dia 20 de janeiro. Ele adverte que aquelas 85 pessoas mais ricas  em todo o globo compartilham uma riqueza combinada de cerca de £$ 1 trilhão de libras (RS$ 3,898 trilhões de reais), tanto quanto as demais 3.5 bilhões de pessoas mais pobres da população do mundo.

A riqueza dos 1% mais ricos do mundo equivale a US$ 110 trilhões (£$ 60.880 trilhões – RS$ 237,310 trilhões), ou 65 vezes mais do que a metade mais pobre do mundo, acrescentou a instituição para o desenvolvimento da caridade, que teme que esta concentração de recursos econômicos está ameaçando a estabilidade política e dirigindo-se as tensões sociais em vários países.

Fonte: F. Alvaredo, AB Atkinson, T. Piketty e E. Saez, (2013) ‘The World Top Incomes Database’
BANCO DE DADOS: http://topincomes.g-mond.parisschoolofeconomics.eu/ *

É um lembrete que dá calafrios pelas profundezas da desigualdade de riqueza, na medida em que líderes políticos e empresários TOP da elite mundial rumam para os picos nevados de Davos  para participarem do Fórum Econômico Mundial. Poucos, se existir algum, vai chegar ocupando qualquer veículo tão comum como um ônibus, todos se utilizando com jatos particulares e helicópteros pressionado em serviço como muitas das pessoas mais poderosas do mundo se reúnem para discutir o estado da economia mundial ao longo de quatro dias agitados de reuniões, seminários e partidos na estância de esqui exclusiva .

Winnie Byanyima, o diretor-executivo da Oxfam, que vai participar das reuniões de Davos, disse: “É impressionante que, em pleno século 21, metade da população do mundo – que são três e meio bilhões de pessoas – não possuem mais do que uma pequena elite cujo número poderia caber confortavelmente em um ônibus de dois andares”.

A Oxfam também argumenta que isso não é acidente ou, dizendo que a crescente desigualdade de riqueza tem sido impulsionada por uma “tomada de poder” pelas elites ricas, que cooptaram o processo político para fraudar as regras do sistema econômico em seu favor.

No relatório, intitulado Working For The Few (resumo aqui), a Oxfam advertiu que a luta contra a pobreza não pode ser vencida até que a desigualdade da posse de  riqueza tenha sido abordada.

AS DEZ PESSOAS MAIS RICAS DO MUNDO:
(Valores de fortunas em bilhões "bn", de libras inglesas "£")

1.  Carlos Slim Helu  – (Telecom Mexico) £44.6bn
2.  Bill Gates – (Microsoft US) £41bn
3.  Amancio Ortega – (Zara Spain) £34.8bn
4.  Warren Buffet – (Berkshire Hathaway US) £32.7bn
5.  Larry Ellison – (Oracle US) £26.3bn
6.  Charles Koch  – (Diversified US) £20.8bn
7.  David Koch  – (Diversified US) £20.8bn
8.  Li Ka-shing  – (Diversified Hong Kong) £19bn
9.  Lilian Bettencourt & family – (l’oreal France) £18.3bn
10. Bernard Arnault & family – (LVMH France) £17.7bn

“Ampliando a desigualdade é a criação de um círculo vicioso, onde a riqueza e o poder estão cada vez mais concentrados nas mãos de muito poucos, deixando o resto de nós a lutar por migalhas que eventualmente caiam de cima da mesa dos mais ricos”, disse Byanyima.

A Oxfam pediu que os participantes no Fórum Econômico Mundial nesta semana para tomarem um compromisso pessoal para resolver o problema de distribuição da riqueza, abstendo-se de se esquivar de pagamento de impostos ou usando sua riqueza para buscar favores políticos.

Para além de ser moralmente duvidosa, a desigualdade econômica também pode agravar outros problemas sociais, como a desigualdade de gênero, a Oxfam advertiu. No próprio Fórum de Davos também está lutando nesta área, com o número de delegados femininos realmente caindo de 17% em 2013 para 15% este ano .

Como os ricos usam a sua riqueza para capturar mais oportunidades

Também se le no relatório da Oxfam, que muitas pessoas em países ao redor do mundo – incluindo dois terços dos inquiridos na Grã-Bretanha – acreditam que os ricos têm muita influência sobre a direção (n.t. e controle) do governo em seu país. Byanyima explicou:

“Nos países desenvolvidos e em desenvolvimento, estamos cada vez mais vivendo em um mundo onde as menores taxas de imposto, o melhor acesso a saúde e a melhor educação e as oportunidades de influência estão sendo dados não só para os ricos, mas também para os seus filhos e descendentes.

“Sem um esforço concentrado para combater a desigualdade, a cascata de privilégio e de desvantagens continuará ao longo das gerações. Em breve, viveremos em um mundo onde a igualdade de oportunidades é apenas um sonho. Em muitos países, o crescimento econômico já equivale a pouco mais do que o “vencedor leva tudo”, com lucros extraordinários para os muito mais ricos.“

Fonte: F. Alvaredo, A. B. Atkinson, T. Piketty and E. Saez, (2013) ‘The World Top Incomes Database’
http://topincomes.g-mond.parisschoolofeconomics.eu/
*Só incluí países com dados em 1980 e depois de 2008. Imagem: Oxfam 

O relatório da Oxfam revelou que ao longo dos últimas décadas, os ricos têm exercido com sucesso influência política para distorcer políticas em seu favor em questões que vão desde a desregulamentação financeira, os paraísos fiscais, práticas comerciais anti-competitivas para reduzir as taxas de imposto sobre os seus rendimentos elevados e cortes em serviços públicos em detrimento da maioria da população. Desde o final de 1970, as taxas de impostos para os mais ricos caíram em 29 dos 30 países para os quais existem dados disponíveis, segundo o relatório.

Esta “captura de oportunidades” pelos ricos à custa dos mais pobres e da classe média levou a uma situação em que 70% da população mundial vive em países onde a desigualdade aumentou desde a década de 1980 e 1% das famílias possuem 46% da  riqueza mundial – quase £$ 70 trilhões de libras.

As pesquisas de opinião pública na Espanha, Brasil, Índia, África do Sul, os EUA, no Reino Unido e Holanda descobriu que a maioria da população em cada país acredita que as pessoas ricas exercem muita influência. A preocupação foi mais forte na Espanha, seguido pelo Brasil e pela Índia e menos na Holanda.

No Reino Unido, cerca de 67% concordaram que “os ricos têm muita influência sobre o rumo para onde este país está caminhando” – 37% dizendo que eles concordam “fortemente” com essa afirmação – contra apenas 10% que discordaram, 2% deles fortemente. 

Os Próprios Riscos Globais do WEF (World Economic Fórum – Davos – Fórum Econômico Mundial) reportaram recentemente  identificando que o aumento das disparidades de renda como uma das maiores ameaças para a pz na comunidade mundial.

A Oxfam está convocando aqueles da elite reunidos no WEF com o compromisso: de apoiar a tributação progressiva e não iludir os seus próprios impostos; se abster de utilizar sua riqueza para buscar favores políticos que minam a vontade democrática dos seus concidadãos; tornar públicos todos os investimentos em empresas e fundos de quais são os beneficiários finais; desafio dos governos para usar a receita fiscal para prestar cuidados de saúde universal, educação e proteção social; exigir um salário digno em todas as empresas em que detém ou controla e desafiar outros membros da elite econômica mundial para se juntar a eles no cumprimento destas promessas.

• A Research Now entrevistou, para a Oxfam, 1.166 adultos no Reino Unido, entre 01 e 14 de outubro de 2013.
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Fonte: The Guardian (tradução livre para o português do Brasil) - Imagens: Reuters e Oxfam (Oxford Committee for Famine Relief - Comitê de Oxford para o Combate a Fome)

terça-feira, 29 de abril de 2014

Meritocracia, a grande mentira



Em uma sociedade que tem por regra a desigualdade, o acesso aos bens materiais e culturais reflete muito mais a falta de oportunidades do que a incapacidade.

Quando intelectuais, imprensa e classe média em geral discutem o acesso aos bens materiais e culturais falam, quase sempre, da necessidade imperiosa de se implantar uma meritocracia no país. Afirmam que falta um sistema que privilegie o mérito e as pessoas que efetivamente trabalham.

DAR O PEIXE OU ENSINAR A PESCAR?

Vulgarizado ditado popular “se deve ensinar a pescar e não dá o peixe” vem na ponta da língua.

Todavia, eles esquecem:

Em primeiro lugar, que “o peixe” nunca é dado. Não se trata de meramente mudar de mãos ou transportar uma riqueza (ainda que seja a riqueza cultural) de um lado para outro. 

Não se trata do governo, em mero voluntarismo, ter a vontade de retirar de quem tem mais para passar a quem tem menos. Não existe distribuição de renda (ou de riqueza cultural), pois tal parte do pressuposto que a renda/cultura está disponível, e tudo pode ser apropriado a “A”, “B” ou Grupo “C”, basta garantir acesso à riqueza cultural... 

Ledo engano! A renda e os bens culturais estão apropriados, daí que o correto é falar em redistribuição, que caracteriza a existência de um conflito social.

Em segundo lugar, que quando tomamos a iniciativa de redistribuir renda e riqueza cultural, o nosso ponto de partida já não é o “marco inicial”. Já temos uma história, já existe um caminho anteriormente percorrido. É aqui que entra a questão sobre igualdade de oportunidades e as políticas afirmativas (algumas vezes conhecida por uma de suas espécies, as cotas).

Em terceiro lugar, que se envolveram em um círculo vicioso, pois retomam o argumento que faz desaparecer as variáveis sociais como origem, posição social, econômica e poder político. Retornam a meritocracia. 

Sem dúvida que há acerto na meritocracia quando ela rejeita o conjunto de valores que formam privilégios hereditários e corporativos e, ao contrário, avalia e valoriza independentemente da trajetória familiar e biografia social. Todavia, a meritocracia refere-se a uma das mais importantes ideologias modernas, uma vez que é o principal critério de hierarquização social.


Explica-se:


Ao se defender a proeminência dos melhores, a meritocracia constitui um paradoxo, que muitas vezes a transforma do tradicional remédio contra os privilégios e discriminação em critério de discriminação social. É que nos dias atuais, de modo geral, ela está associada quase que exclusivamente a uma aristocracia de talento, de intelecto, composta de acadêmicos, produtores de conhecimento, elites gerenciais, profissionais liberais etc. Ou seja, meritocracia e aristocracia, de princípio, são elementos antagônicos.

E mais, estamos diante de uma repaginada do pensamento platônico, que como se sabe, não é lá muito democrático (para o próprio conceito de democracia da Grécia clássica).

Lógico que não se trata de uma mera colagem do pensamento platônico aos dias atuais. É pior! Se a meritocracia é uma conquista do indivíduo moderno desde a revolução francesa (para termos um marco inicial), a sua versão contemporânea é entubada com a visão de mundo thatcheriana e reaganiana de combate ao Estado providência e a atribuição de responsabilidade coletiva pelos destinos dos menos favorecidos, ao enfatizarem que “o mundo não deve nada a ninguém” e que cada um deve receber na devida proporção de seu próprio esforço e capacidade. Isto é, pura ideologia para reafirmar o desempenho como único critério legítimo de ordenação da sociedade.

O discurso pôs sobre os ombros dos indivíduos a responsabilidade exclusiva pelos resultados de suas vidas, ignorando quaisquer outras variáveis, independentemente do contexto.

Considere aqui que o pressuposto dessa ideologia é que as capacidades são distribuídas aleatoriamente entre os membros da sociedade. Não existe obra humana que, previamente, estabeleça, limite, condicione, amplie ou impeça tais distribuições. Assim, uma vez dada as capacidades e talentos, o indivíduo é responsável pelo seu ”sucesso” ou “fracasso”. Ocorre que as sociedade hierárquicas e tradicionais sempre reconheceram “a distribuição aleatória das capacidades”, sem que isso conduzisse a uma concepção igualitária de sociedade.


Isto faz lembrar Antônio Cândido “que, envolvendo o problema da desigualdade social e econô­mica, está o problema da intercomunicação dos níveis culturais.

Nas socieda­des que procuram estabelecer regimes igualitários, o pressuposto é que todos devem ter a possibilidade de passar dos níveis populares para os níveis eruditos como consequência normal da transformação de estrutura, prevendo-se a ele­vação sensível da capacidade de cada um graças à aquisição cada vez maior de conhecimentos e experiências.

Nas sociedades que mantêm a desigualdade co­mo norma, e é o caso da nossa, podem ocorrer movimentos e medidas, de cará­ter público ou privado, para diminuir o abismo entre os níveis e fazer chegar ao povo os produtos eruditos. Mas, repito, tanto num caso quanto no outro está implícita como questão maior a correlação dos níveis. E aí a experiência mos­tra que o principal obstáculo pode ser a falta de oportunidade, não a incapacidade”(1).


#DICA
LEITURA COMPLEMENTAR: O Faz de Contas da Meritocracia- Este livro em quadrinho ilustra de forma bem didática o conceito de Meritocracia. Clique aqui para acessar e/ou fazer o download.

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Texto: colaborador do blog um quê de Marx: Sociedade, Poder e Direito na Contramão 
Referência: (1) CANDIDO, Antônio. "Direitos humanos e literatura". In FESTER, Antônio Carlos R. (org.) Direitos humanos e... São Paulo, Brasiliense/Comissão Justiça e Paz de S. Paulo, 1989. p. 123-124.

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segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Como os ricos estão tomando nossa herança comum

via Carta Maior (Carta O BERRO) www.cartamaior.com.br

Hoje 95% do milho plantado nos EUA é de uma única variedade, com desaparecimento da diversidade genética. O livre acesso às composições de Heitor Villalobos será público a partir de 2034. Isto está ajudando a criatividade de quem? Patentes de 20 anos há meio século atrás podiam parecer razoáveis, mas com o ritmo de inovação atual, que sentido fazem? Já são 25 milhões de pessoas que morreram de Aids, e as empresas farmacêuticas proibem os países afetados de produzir o coquetel. Há um imenso enriquecimento no topo da pirâmide, baseado não no que estas pessoas aportaram, mas no fato de se apropriarem de um acúmulo historicamente construído durante sucessivas gerações. O artigo é de Ladislau Dowbor*.

Ladislau Dowbor - Data: 04/11/2010


A concentração de renda e a destruição ambiental constinuam sendo os nosso grandes desafios. São facetas diferentes da mesma dinâmica: na prática, estamos destruindo o planeta para a satisfação consumista de uma minoria, e deixando de atender os problemas realmente centrais. Como explicar que, com tantas tecnologias, produtividade e modernidade, estejamos reproduzindo o atraso? Em particular, como a sociedade do conhecimento pode se transformar em vetor de desigualdade?

O prêmio Nobel Kenneth Arrow considera que os autores de “Apropriação indébita: como os ricos etão tomando a nossa herança comum”, Gar Alperovitz e Lew Daly, “se baseiam em fontes impecáveis e as usam com maestria. Todo mundo irá aprender ao ler este livro”. Eu, que não sou nenhum prêmio Nobel, venho aqui contribuir com a minha modesta recomendação, transformando o meu prefácio em instrumento de divulgação. Mania de professor, querer comunicar o entusiasmo de boas leituras. E recomendação a não economistas: os autores deste livro têm suficiente inteligência para não precisar se esconder atrás de equações. A leitura flui.

A quem vai o fruto do nosso trabalho, e em que proporções? É a eterna questão do controle dos nossos processos produtivos. Na era da economia rural, os ricos se apropriavam do fruto do trabalho social, por serem donos da terra. Na era industrial, por serem donos da fábrica. E na era da economia do conhecimento, a propriedade intelectual se apresenta como a grande avenida de acesso a uma posição privilegiada na sociedade. Mas para isso, é preciso restringir o acesso generalizado ao conhecimento, pois se todos tiverem acesso, como se cobrará o pedágio, como se assegurará a vantagem de minorias?

Um argumento chave desta discussão, é naturalmente a legitimidade da posse. De quem é a terra, que permitia as fortunas e o lazer agradável dos senhores feudais? Apropriação na base da força, sem dúvida, legitimada em seguida por uma estrutura de heranças familiares. Uma vez aceito, o sistema funciona, pois na parte de cima da sociedade forma-se uma aliança natural ditada por interesses comuns.

Na fase industrial, um empresário pega um empréstimo no banco – e para isso ele já deve pertencer a um grupo social privilegiado – e monta uma empresa. Da venda dos produtos, e pagando baixos salários, tanto auferirá lucros pessoal como restituirá o empréstimo ao banco. De onde o banco tirou o dinheiro? Da poupança social, sob forma de depósitos, poupança esta que será transformada na fábrica do empresário. Aqui também, vale a solidariedade dos proprietários de meios de produção, e o resultado de um esforço que é social será em boa parte apropriado por uma minoria.

Mudam os sistemas, evoluem as tecnologias, mas não muda o esquema. Na fase atual, da economia do conhecimento, coloca-se o espinhoso problema da legitimidade da posse do conhecimento. A mudança é radical, relativamente aos sistemas anteriores: a terra pertence a um ou a outro, as máquinas têm proprietário, são bens “rivais”. No caso do conhecimento, trata-se de um bem cujo consumo não reduz o estoque. Se transmitimos o conhecimento a alguém, continuamos com ele, não perdemos nada, e como o conhecimento transmitido gera novos conhecimentos, todos ganham. A tendência para a livre circulação do conhecimento para o bem de todos torna-se portanto poderosa.

A apropriação privada de um produto social deve ser justificada. O aporte principal de Alperovitz e de Daly, neste pequeno estudo, é de deixar claro o mecanismo de uma apropriação injusta – Unjust Deserts – que poderíamos explicitar com a expressão mais corrente de apropriação indébita. Ao tornar transparentes estes mecanismos, os autores na realidade estão elaborando uma teoria do valor da economia do conhecimento. A força explicativa do que acontece na sociedade moderna, com isto, torna-se poderosa.

Para dar um exemplo trazido pelo autor, quando a Monsanto adquire controle exclusivo sobre determinada semente, como se a inovação tecnológica fosse um aporte apenas dela, esquece o processo que sustentou estes avanços. “O que eles nunca levam em consideração, é o imenso investimento coletivo que carregou a ciência genética dos seus primeiros passos até o momento em que a empresa toma a sua decisão. Todo o conhecimento biológico, estatístico e de outras áreas sem o qual nenhuma das sementes altamente produtivas e resistentes a denças poderia ter sido desenvolvida – todas as publicações, pesquisas, educação, treinamento e ferramentas técnicas relacionadas sem os quais a aprendizagem e o conhecimento não poderiam ter sido comunicados e fomentados em cada estágio particular de desenvolvimento, e então passados adiante e incorporados, também, por uma força de trabalho de técnicos e cientistas – tudo isto chega à empresa sem custo, um presente do passado(55). Ao apropriar-se do direito sobre o produto final, e ao travar desenvolvimentos paralelos, a empresa canaliza para si gigantescos lucros da totalidade do esforço social, que ela não teve de financiar. Trata-se de um pedágio sobre o esforço dos outros. Unjust Deserts.

Se não é legítimo, pelo menos funciona? A compreensão do caráter particular do conhecimento como fator de produção já é antiga. Uma jóia a este respeito é um texto 1813 de Thomas Jefferson:

Se há uma coisa que a natureza fez que é menos suscetível que todas as outras de propriedade exclusiva, esta coisa é a ação do poder de pensamento que chamamos de idéia... Que as idéias devam se expandir livremente de uma pessoa para outra, por todo o globo, para a instrução moral e mútua do homem, e o avanço de sua condição, parece ter sido particularmente e benevolmente desenhado pela natureza, quando ela as tornou, como o fogo, passíveis de expansão por todo o espaço, sem reduzir a sua densidade em nenhum ponto, e como o ar no qual respiramos, nos movemos e existimos fisicamente, incapazes de confinamento, ou de apropriação exclusiva. Invenções não podem, por natureza, ser objeto de propriedade. (1)

O conhecimento não constitui uma propriedade no mesmo sentido que a de um bem físico. A caneta é minha, faço dela o que quiser. O conhecimento, na medida em que resulta de um esforço social muito amplo, e constitui um bem não rival, obedece a outra lógica, e por isto não é assegurado em permanência, e sim por vinte anos, por exemplo, no caso das patentes, ou quase um século no caso dos copyrights, mas sempre por tempo limitado: a propriedade é assegurada por sua função social – estimular as pessoas a inventarem ou a escreverem – e não por ser um direito natural.

O merecimento é para todos nós um argumento central. Segundo as palavras dos autores, “nada é mais profundamente ancorado em pessoas comuns do que a idéia de que uma pessoa tem direito ao que criou ou ao que os seus esforços produziram”.(96) Mas na realidade, não são propriamente os criadores que são remunerados, e sim os intermediários jurídicos, financeiros e de comunicação comercial que se apropriam do resultado da criatividade, trancando-o em contratos de exclusividade, e fazem fortunas de merecimento duvidoso. Não é a criatividade que é remunerada, e sim a apropriação dos resultados: “Se muito do que temos nos chegou como um presente gratuito de muitas gerações de contribuiçoes históricas, há uma questão profunda relativamente a quanto uma pessoa possa dizer que “ganhou merecidamente” no processo, agora ou no futuro.(97)

As pessoas em geral não se dão conta das limitações. Hoje 95% do milho plantado nos EUA é de uma única variedade, com desaparecimento da diversidade genética, e as ameaças para o futuro são imensas. Teremos livre acesso às obras de Paulo Freire apenas a partir de 2050, 90 anos depois da morte do autor. O livre acesso às composições de Heitor Villalobos será a partir de 2034. Isto está ajudando a criatividade de quem? Patentes de 20 anos há meio século atrás podiam parecer razoáveis, mas com o ritmo de inovação atual, que sentido fazem? Já são 25 milhões de pessoas que morreram de Aids, e as empresas farmacêuticas (o Big Pharma) proibem os países afetados de produzir o coquetel, são donas de intermináveis patentes. Ou seja, há um imenso enriquecimento no topo da pirâmide, baseado não no que estas pessoas aportaram, mas no fato de se apropriarem de um acúmulo historicamente construído durante sucessivas gerações.

Nesta era em que a concentração planetária da riqueza social em poucas mãos está se tornando nsustentável, entender o mecanismo de geração e de apropriação desta riqueza é fundamental. Os autores não são nada extermistas, mas defendem que o acesso aos resultados dos esforços produtivos devam ser minimamente proporcionais aos aportes. “A fonte de longe a mais importante da prosperidade moderna é a riqueza social sob forma de conhecimento acumulado e de tecnologia herdada”, o que significa que uma porção substantiva da presente riqueza e renda deveria ser realocada para todos os membros da sociedade de forma igualitária, ou no mínimo, no sentido de promover maior igualdade.(153)

Um livro curto, muito bem escrito, e sobretudo uma preciosidade teórica, explicitando de maneira clara a deformação generalizada do mecanismo de remuneração, ou de recompensas, que o nosso sistema econômico gerou. Trata-se aqui de um dos melhores livros de economia que já passaram por minhas mãos. Bem documentado mas sempre claro na exposição, fortemente apoiado em termos teóricos, na realidade o livro abre a porta para o que podemos qualificar de teoria do valor, mas não da produção industrial, e sim da economia do conhecimento, o que Daniel Bell qualificou de “knowledge theory of value”. Vale a pena ler!

(1) Citado por Lawrence Lessig, The Future of Ideas: the Fate of the Commons in an Connected World – Random House, New York, 2001, p. 94
(*) Ladislau Dowbor, professor de economia e administração da PUC-SP, é autor de Democracia Econômica e de Da propriedade Intelectual à Sociedade do Conhecimento, disponíveis em http://dowbor.org