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terça-feira, 13 de dezembro de 2011

O roubo do século



Crédito da imagem: Samuel Casal
Editorial do Le Monde Diplomatique Brasil - por Silvio Caccia Bava

Os bancos ficaram grandes demais. Maiores e mais poderosos que os governos, eles hoje mandam no mundo e impõem as regras do jogo financeiro internacional. Na crise de 2007/2008 eles impuseram que os governos pagassem as suas contas com dinheiro público, quando suas especulações no mercado não deram certo. Agora, em uma situação muito mais delicada, com os governos já endividados pelo movimento anterior, novamente essas instituições cobram o socorro dos governos nacionais e mesmo da União Européia.

Desconhecendo as lições da crise anterior e até mesmo aumentando os riscos de praticar uma especulação ainda mais intensa, muitos desses grandes bancos estão hoje super expostos num duplo sentido: tanto pela operação especulativa com derivativos, alavancando seu capital na proporção de até 1:50, como é o caso do banco francês Societé Générale; como pela compra de títulos dos governos da Grécia, Espanha, Portugal, obrigados a aceitar taxas de juros escorchantes pelo risco embutido no empréstimo. Hoje, os títulos da Grécia, pelo default anunciado, isto é, pela ameaça real do calote, valem no mercado menos que metade do seu valor de face e, se os bancos que os detém tiverem que se desfazer deles, terão grandes prejuízos. O efeito conjugado dessas duas frentes de especulação leva a um estado de endividamento dos grandes bancos internacionais que ameaça sua solvência.

A sua fragilidade, neste momento, é consequência deles próprios terem criado esse cassino financeiro, em que, especulativamente, ganham fortunas em poucas horas. Sua ameaça, por serem grandes demais, é que, se forem à falência, todo o sistema financeiro entra em colapso e a economia real também. É uma chantagem na qual os governos nacionais ficam reféns. E se os governos aceitam essa chantagem, como vêm fazendo, ficam eles super endividados e, para saldar as novas dívidas, acabam por promover ajustes no orçamento público que implicam corte nas políticas de previdência e nas políticas sociais, desemprego e toda uma cesta de maldades para com a população que termina por colocá-los contra o interesse das maiorias. A Grécia hoje é o melhor exemplo, mas não o único.

Nesse cenário, chamam a atenção duas iniciativas: a estatização do sistema financeiro privado, que ocorreu, por exemplo, com bancos na Irlanda e nos EUA; e os esforços de uma regulação pública supranacional, como se aplica para pôr em prática a União Européia, através do Banco Central Europeu e do Fundo de Estabilização criado há pouco. Estarão, por meio dessas iniciativas, delineando-se novas tendências no plano da governança mundial?

Como os bancos privados vieram se constituindo como os atuais donos do poder? Como foram criadas as condições para que a ciranda do cassino financeiro ameaçasse toda a população do mundo com uma possível Segunda Grande Depressão? Será possível reunificar o que a doutrina neoliberal impôs, que é a separação entre a economia e a política? Haverá possibilidade de um controle democrático do mundo das finanças? Ou continuaremos com a socialização das perdas e a privatização dos ganhos?

Silvio Caccia Bava é editor de Le Monde Diplomatique Brasil e coordenador geral do Instituto Pólis.

Texto compartilhado em Creative Commons, transcrito na íntegra a partir do link do Le Monde Diplomatique Brasil, citado no início desta postagem.

[A edição eletrônica de Le Monde Diplomatique é regida pelos princípios do conhecimento compartilhado (copyleft), que visam estimular a ampla circulação de idéias e produtos culturais. A leitura e reprodução dos textos é livre, no caso de publicações não-comerciais. A única exceção são os artigos da edição mensal mais recente. A citação da fonte é bem-vinda.]

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Os tentáculos do populismo



O termo populismo é utilizado na política para designar um conjunto de movimentos políticos que se propõe a colocar no centro de toda ação política o povo, enquanto massa de manobra, em oposição aos mecanismos de representação legítimos da democracia representativa. A gênese do populismo no Brasil esta ligada a Revolução de 1930, que derrubou a República e colocou no poder Getulio Vargas, que viria a ser a figura central da política brasileira até seu suicídio em 1954.

A política populista caracteriza-se por uma combinação de plebeísmo, autoritarismo e dominação carismática. Afirma-se através do contato direto entre as massas urbanas e o líder carismático, geralmente sobrepondo-se a intermediação de partidos e corporações. Para ser eleito e governar, o líder populista procura estabelecer um vínculo emocional, não racional, com o povo. Isto implica num sistema de políticas ou métodos para o aliciamento das classes sociais de menor poder aquisitivo, além da classe média urbana, como forma de angariar votos e prestígio através da conquista da simpatia destas camadas sociais.

Desde suas origens, o populismo foi encarado com desconfiança pelas correntes políticas mais ideológicas, tanto da Esquerda quanto da Direita. Esta última sempre apontou para os aspectos plebeus, as práticas vulgares e as atitudes demagógicas, como concessão irresponsável de benefícios sociais e gastos públicos. A latência de governos populistas costuma deixar latente um caráter reacionário e desmobilizador das benesses populistas, que se contrapõe as lutas organizadas da classe operária e fazem tudo depender da vontade de um caudilho bonapartista.

Na América Latina, o populismo continua a ser um poderoso mecanismo de integração das massas populares à vida política, favorecendo o desenvolvimento econômico e social, mas dentro de uma moldura estritamente burguesa, pois esta integração é sempre subordinada a figura de um líder carismático e autoritário, fragmentando desta forma a identidade do país sujeitado a este tipo de governo.

O populismo encontra representantes tanto na Esquerda quanto na Direita e como exemplo podem ser citados governantes como Vargas, Perón, Hugo Chávez, Evo Morales e Lázaro Cárdenas, líderes que realizaram políticas nacionalistas de substituição de importações, estatização de certas atividades econômicas, imposição de restrições ao capital estrangeiro e concessão de direitos sociais. No entanto, os regimes populistas frequentemente dedicaram-se a repressão policial dos movimentos contrários a seu domínio, quando não realizaram sua ação reformista dentro de um quadro meramente capitalista.

Esta forma de governo acaba enfraquecendo a capacidade de ação política autônoma de grupos contrários ao governo, na medida em que toda ação política é referida à pessoa do líder populista, que se coloca idealmente acima de todas as classes. O populismo não é necessariamente de Esquerda, no sentido de que seu alvo não são apenas as massas destituídas; há políticos populistas de Direita, como, por exemplo Adhemar de Barros e Paulo Maluf, que têm como alvo de sua ação política a exploração das carências dos extratos mais baixos, ou menos organizados, da população urbana, com os quais estabelecem uma relação empática baseada na defesa de políticas autoritárias de "moral e bons costumes" e/ou "Lei e Ordem". O maior representante do populismo de direita no Brasil, até agora, talvez tenha sido o presidente Jânio Quadros.

Exemplo máximo do populismo no Brasil, Getúlio Vargas subiu ao poder através de golpe de Estado nos anos 30, a Era Vargas, ditadura que perdurou de 1930 até 1945, elegendo-se democraticamente presidente em 1951 e governando até suicidar-se em 1954. Apelidado de "pai dos pobres", sua popularidade entre as massas era atribuída a sua liderança carismática e a seu empenho na aprovação de reformas trabalhistas que favoreceram a classe operária. Entretanto, suas medidas apenas minaram o poder dos sindicatos e de seus líderes, tornando-os dependentes do Estado até hoje.

Trocando em miúdos o populismo não está com nada, é insustentável, utiliza-se de métodos retrógrados que ferem a liberdade e os princípios éticos. O populismo é um câncer que se aproveita da fraqueza mental das classes menos instruídas para formar uma estrutura de domínio e poder. O populismo fere a democracia plena, pois ao invés de dar solução a problemas sociais graves, apenas os mitiga, mantendo desta forma sua massa de manobra, o povo, dependente de suas políticas paternais e assistenciais. O populismo me parece mais uma ditadura velada que uma democracia legítima.