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quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Telejornalismo: A Greve de Fome que a TV não mostra



Na foto, de Rodrigo Ajooz, o ativista Pedro Rios participa de bate-papo,
transmitido pela internet em live streaming, na noite 31/01/12,
quando superava suas primeiras 48 horas em Greve de Fome
Se o cineasta Pedro Rios Leão - hoje ativista - em greve de fome de fronte a maior central de jornalismo da maior emissora de TV do Brasil, fosse cubano, chinês ou monge tibetano, estaria na capa dos jornais de maior circulação do país. Quem sabe se não fosse um brasileiro, em greve de fome por injustiça social e violação de direitos humanos, ele seria chamado de mártir pela ‘grande mídia’. Seria matéria de destaque nos principais telejornais e provocaria lágrimas de solidariedade nos leitores de teleprompter. Talvez seu ato virasse até poesia na boca de apresentador de reality show e tema de documentários jornalísticos.

Mas não, em se tratando da transparência na mídia brasileira é muito circo. Falam em futebol direto, no jornal local, depois no noticiário esportivo e ainda mais na edição nacional. Entre uma partida e outra é samba, carnaval, festa e denúncias vazias, pra cativo ver. O cidadão incauto e que não busca informação por conta própria fica lá, cativo, no sofá, olhando sombras na parede e achando que aquilo é o mundo real.

Pra contrabalançar a amostragem de polêmicas em outros países - eles adoram mostrar como a grama do vizinho é mais verde e ficar fuxicando sobre a vida dele – nos empurram notícias internacionais que pouco ou nada nos interessam. Por exemplo, você se interessa por Mitt Romney? Enquanto isso o abuso de poder, de autoridade e a corrupção crescem a galope em nosso país; tanto dentro das esferas do poder público - formado por funcionários pagos com o dinheiro do povo – quanto nas grandes corporações - que dependem da economia popular para prosperar.

A inversão de valores está fora de controle! Ou nós, do povo, fazemos alguma coisa e nos fazemos ser ouvidos, ou não haverá um futuro para o futuro da raça humana. A gente pode até não viver mais que 80 anos, vai embora, morre, mas nossos filhos, netos, bisnetos vão precisar de um planeta habitável pra viver.

Pedro Rios está em greve de fome por ficar indignado com o que foi feito em Pinheirinho, isto foi realmente, pra ele e muitos mais brasileiros e brasileiras indignados, a gota d'água. É como disse o próprio, a uma mulher que o inquiriu sobre o efeito que ele esperava, dizendo que o sacrifício que ele está fazendo é inócuo no macro-social: ‘você sabe uma represa, uma barragem ou um dique? Começa a pingar uma gota, vira um fio d'água, aparecem as rachaduras e sem ninguém esperar se rompe e ninguém segura a inundação’.

O ativista escolheu este local para sua manifestação não declarando guerra a uma emissora específica e sim em nome da transparência em toda produção jornalística de todas elas. O Pedro escolheu a central de jornalismo da maior emissora do país porque foi uma afiliada desta mesma emissora que deixou de mostrar fatos, através reportagens pífias, seja por interesse obscuro - como pensa o Pedro - ou mesmo, quem sabe, por falta de interesse ou incompetência.

Pedro Rios escolheu fazer seu protesto, pacífico, de fronte a emissora que representa a mídia de massa brasileira. O que esta gigante faz geralmente cai na graça dos telespectadores e acaba sempre sendo imitado, copiado pelas outras. A audiência é mantida cativa porque acredita que aquelas sombras, projetadas na parede de sua caverna, é espelhamento do mundo real. Parte dos cativos chega ao ponto, absurdo, de confundir personagens de ficção com a realidade. Dopados pelo ópio midiático perseguem personagens de novela nas ruas confundindo-os com os seres fictícios da teledramaturgia.

Outro fator que faz notícias vindas do estrangeiro serem mais isentas, com matérias mais bem contextualizadas e esclarecedoras, creio ser o fato de que a equipe do jornalismo internacional, das principais emissoras de TV aberta do país, é muito superior ao nacional. O problema começa nas regiões mais longínquas, nas cidades pequenas, nas afiliadas que retransmitem o sinal das grandes. Estas retransmissoras também são geradoras de conteúdo, que em sua quase totalidade, se trata de conteúdo jornalístico, e já começam errando quando faturam bem e pagam péssimos salários aos seus profissionais. Ou você acha que um jornalista de São José dos Campos ganha o mesmo que um do Rio de Janeiro ou de São Paulo? Não bastasse a questão logística e de recursos humanos, as afiliadas das grandes produtoras de conteúdo e geradoras de sinal, estão muitas vezes sob o comando de grupos com interesses políticos, quando não nas mãos dos próprios políticos.

Enquanto isso os responsáveis pelo jornalismo internacional tem profissionais do mais alto gabarito, bem preparados e remunerados, sob um comando muito mais isento e autônomo. Apresentando assim, ao grande público, um conteúdo jornalístico de qualidade infinitamente superior. Em termos comerciais, o jornalismo bem feito, se vende por si só, não tem a necessidade do constante e replicante apelo emocional, que acaba infantilizando o telespectador, em busca de maior produtividade e retorno financeiro. O jornalismo local parece subestimar o perfil do telespectador mais antenado, conectado.


Enquanto os telejornais locais competem entre si, o jornalismo internacional não encontra concorrência. Todas as emissoras mantém uma mesma linha de atuação no exterior, pois estando em solo estrangeiro encontram a competitividade de gigantes como: CNN, BBC, AFP, Telesur, Al Jazeera...

Há um desequilíbrio. Percebe-se, sem muito esforço, que o telejornalismo nacional, produzido e divulgado em nosso país, ainda faz muita confusão de interesses. Mostra o que eles (editores) acham que é de interesse do público, pensando demasiadamente na parte comercial e de relações com o poder público, pecando e deixando em segundo plano o que é de interesse público.

O conteúdo produzido com base no que se pensa ser de interesse do público é aquele conteúdo empurrado aos telespectadores, usando como referência o que os editores acham que o público gostaria de ver, como, por exemplo: esportes violentos, crimes banais, sexo, crenças tolas e modismos. Este tipo de jornalismo, se é que se pode chamar isso de jornalismo, parece ter como escopo apenas audiência e lucro, naquela velha, perversa e insustentável crença de que existe acumulação eterna. Já o conteúdo produzido com foco no interesse público é aquele que mostra a verdade nua e crua, doa a quem doer. O conteúdo de interesse público, por vezes, pode até abranger fatos que - ao contrário do ainda teimam em ensinar nos cursos superiores de comunicação, baseados em modelos de gestão ultrapassados - o público supostamente não teria interesse em saber, e que poderia prejudicar a veiculação comercial que faz a TV aberta ser um negócio rentável.

Não sou daqueles radicais que acha que por ser a TV aberta uma concessão pública, eles não tem direito a lucrar com o negócio. Sim, eles têm o direito de lucrar, mas para tudo há limite. Não vejo vantagem alguma em se deixar a audiência na obscuridade do ignorantismo. Parece-me crueldade a exploração comercial dos sentimentos do telespectador. Se venda é emoção e se usam a emoção para vender, isto deveria ser considerado crime de estelionato sentimental.

Vão dizer: ‘e o cara que está lá em greve de fome, não está apelando para os sentimentos da população?’. Sim, realmente está, mas ele não está vendendo nada, não espera retorno financeiro com seu ato e sim espera que seja feita justiça. E se disserem: ‘á, mais o cara é louco de fazer isso!’. Pode até ser, mas aí um louco está lá fazendo o que os que se dizem sãos não fazem, e por todos nós. Aí é minha vez de perguntar: por que uma pessoa que está em greve de fome há 3 dias, protestando e fazendo graves denúncias à violação de direitos humanos na desocupação de Pinheirinho, é solenemente ignorada pela ‘grande mídia’?

Será que o jornalismo brasileiro está virando uma boutique, será que morreu? Alguém viu ou ouviu falar? Cadê aquele jornalismo do tempo anterior a ditadura militar, cadê aquele jornalismo do tempo anterior a ditadura Vargas? Não seria hora de remodelar este jornalismo nascido na queda da bastilha e adaptá-lo à Era da Informação e do Conhecimento? Jornalismo é notícia pura, é a vida em movimento, é tudo que faltou na cobertura de Pinheirinho e falta na cobertura da greve de fome de Pedro Rios Leão, mas não falta nas coberturas internacionais. Em minha ótica, não há jornalismo de verdade que sobreviva, quando se perde a noção de equilíbrio, entre o que é INTERESSE DO PÚBLICO e o que é de INTERESSE PÚBLICO.

Cobertura participativa

Não tenho equipamento ou ilha de edição profissional - como as grandes emissoras-; mas usando uma simples câmera fotográfica digital e um programa de edição de vídeo amador, registrei a noite em que Pedro Rios iniciou sua greve de fome:

Greve de Fome em protesto à desocupação de #Pinheirinho


#Pinheirinho :: Greve de Fome :: 2ª Parte da entrevista com Pedro Rios


http://observatoriodaimprensa.com.br/news/view/_ed680_a_greve_de_fome_que_a_tv_nao_mostra
http://rogeliocasado.blogspot.com/2012/02/greve-de-fome-que-tv-nao-mostra-qtmd.html
http://blogdabellisboa.blogspot.com/2012/02/greve-de-fome-que-tv-nao-mostra.html
http://quemtemmedodademocracia.com/2012/02/07/a-greve-de-fome-que-a-tv-nao-mostra/
http://www.vermelho.org.br/noticia.php?id_noticia=175286&id_secao=6

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Somos Todos Pinheirinho :: A Greve de Fome do Jornalista Pedro Rios Leão




Pedro Rios, algumas horas após iniciar sua Greve de Fome,
foto tirada por volta das 23h de 29 de janeiro de 2012 (RSSJ - copyleft)
por Zé Max e Ricardo Gomes, em 30/01/12

Domingo que passou é tudo menos um dia comum. Há uma semana, na madrugada, quem pôde ver assistiu, em Pinheirinho, a saudação do governo paulista, e do Estado policial que nos governa, para um 2012 que mal começa e já vem cobrando da militância política muito mais do que indignação de facebook, marchas, comiseração e efêmera revolta.

Não faz um mês e cumpríamos a tola tradição de presentear uns aos outros, dopados de cegueira e morfina, lançando votos de um ano feliz e próspero, como se a felicidade ansiada, a plena felicidade, necessitasse da pobre representação do shopping de plástico e dos ocultos amigos reunidos em saraus de condomínio.

Quantos Pinheirinhos serão necessários para romper com o show de Truman e notar que a vida não é bonita nem bela, muito menos feliz?

Há muito a se fazer politicamente

A greve de fome teve início na noite de ontem. O local? Jardim Botânico, em frente da central de jornalismo da rede Globo. A razão é simples: cobertura que considera criminosa sobre a gravidade de Pinheirinho.

Até aí nenhuma novidade. Nós sabemos a quem nossa mídia representa e a quem ela serve. Mas o novo tempo pede algo novo de nós, uma nova mídia, novos direitos, e um novo jornalismo. Faça você mesmo, seja mídia.

O nome do nosso militante é Pedro Rios Leão — "Caboclo Menino" para os mais chegados do OcupaRio. Na última segunda, Pedro aprontou sua mochila e partiu para São José dos Campos. Viveu e narrou o massacre e a extensão da barbárie, que prossegue.

Se Pinheirinho somos todos nós, Pedro também é Pinheirinho. Algemou-se diante da Globo, numa atitude autônoma e radical — que alguns julgarão inconsequente —, trazendo a política, e a necessária resistência, para mais perto de si, para o seu próprio corpo.

"Para mim, não importa o que vai acontecer. Me importa, sim, o que está acontecendo."

Estivemos com ele

Pedro não precisa de pena, pré-ocupação ou tapinha nas costas. Muito menos de descrença ou o torcer do seu nariz. Tem com ele tudo de que precisa, na precariedade do que somos.

Água, livros, um colchão fino, tinta, cartazes, também a camisa do Flamengo, sua barba por fazer, indignação, muito ódio e a sua loucura. Porque os loucos capazes de achar que podem mudar o mundo são os que, de fato, mudam. (Clique aqui e veja uma entrevista com ele algumas horas após o início do protesto)

Não esqueça Pinheirinho

Se o século passado tem uma lição a nos ensinar, mais do que ser um palácio memorial moral de tudo que foi utopia e barbárie, é que as homenagens, os monumentos de pedra, os tributos, os museus, as efemérides, os cenotáfios e a louvação aos mortos, não são para que lembremos; mas para que esqueçamos.

Pedro, hoje, com seu corpo, roto e gasto, é uma pixação nos muros da rede Globo. Um canto dissonante, um rasgo numa janela de vidro, o açoite de uma tela de van Gogh para uma estética suja ou o deboche da prosa de Rimbaud para uma nova poética. Uma voz que diz a quem passa você não me vê, mas eu estou bem aqui.

Não esqueça. Não esqueça Pinheirinho.

Links para Pinheirinho:

— Canal de vídeos do Pedro http://www.youtube.com/user/pedroriosleao1


— Mil Pinheirinhos contra a comiseração desgraçada, Bruno Cava http://www.quadradodosloucos.com.br/2542/mil-pinheirinhos-contra-a-comiserac­ao-desgracada

— Dez mentiras que Cercam o Pinheirinho, Hugo Albuquerque http://descurvo.blogspot.com/2012/01/dez-mentiras-que-cercam-o-pinhei­rinho.html

— O massacre de Pinheirinho e o Futuro da luta, Idelber Avelar http://revistaforum.com.br/idelberavelar/2012/01/27/o-massacre-de-pinheirinho-e-o-futuro-da-luta/

— Encobrimento de Vídeos do Pinheirinho Leva Ativista a Greve de Fome, Global Voices http://pt.globalvoicesonline.org/2012/01/31/brasil-pinheirinho-greve-fome-videos/

O vídeo de Pedro Rios:
"Eu queria matar a presidenta: depoimentos da guerra civil brasileira em Pinheirinho"



sábado, 28 de janeiro de 2012

Denúncia: Após desocupação, o drama dos moradores do Pinheirinho

Este vídeo foi feito pelo ativista Pedro Rios Leão, carioca que esteve em São José dos Campos (SP), na desocupação da comunidade carente conhecida como Pinheirinho. O vídeo traz graves denúncias, com o depoimento de testemunhas da violência policial, desrespeito aos direitos humanos e até de suposta ocultação de cadáveres - de pessoas que teriam sido mortas naquela localidade - durante a reintegração de posse determinada pela justiça paulista. Segue abaixo reprodução na íntegra da postagem feita pelo QTMD?, em 27/01/12:

“Eu queria matar a presidenta: depoimentos da guerra civil brasileira”

“Não se deixem levar pelo título forte. É figura retórica, provocação desesperada de quem viu o horror de perto. E é importante que assistam até o final. Segue a descrição do trabalho, por Pedro Rios Leão, que o filmou:

O Governador do estado de São Paulo, o Prefeito de São José dos campos, O Tribunal de Justiça de São Paulo, Toda a força policial, tanto da PM paulistana presente, quanto da Guarda Municipal, a direção inteira do hospital municipal de são josé, a mídia, em particular a Rede Globo, que escancaradamente foi o veículo oficial do Governo Paulista, TODO O CORPO JURÍDICO ENVOLVIDO NA REINTEGRAÇÃO DE POSSE, incluindo o ministro César Peluso, o Ministro Gilberto Carvalho,o ministro Eduardo Cardozo, todos, TODOS agindo a mando de Naji Nahas.

A lista de assassinos de Pinheirinho não tem fim. Parem de procurar apenas UM culpado! REVOLTE-SE. Exija a justiça que nos é negada todo dia! Pelo fim do domínio dos banqueiros. Juntos nós podemos.”


Nota do QTMD?

“Este site publica este vídeo como forma de pressionar para que o que aconteceu em Pinheirinho, no domingo, 22 de Janeiro de 2012, e que a própria presidenta já definiu como “barbárie”, seja investigado e que, se houve mesmo mortes, os corpos apareçam e que as famílias não fiquem anos esperando como as da época da ditadura militar. 

A editora deste site quer acreditar que vive num país que não tem medo da democracia. Sendo verdade que o governo paulista quebrou o pacto federativo para promover uma chacina, que seja punido. E que episódios como esse nunca mais se repitam. Aos que acharem o vídeo duro, peço que se imaginem no lugar do Pedro, colocando a própria vida em risco.”