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quarta-feira, 17 de novembro de 2010

O potencial perigo de destruição de um ditador



"Hitler" - de Ian Kershaw
(Companhia das Letras)
"Hitler" narra a trajetória e analisa o comportamento de uma das figuras mais sinistras e, ao mesmo tempo, intrigantes do século 20. O texto é baseado em vasta documentação acadêmica e no diário - descoberto na década 1990 - de Joseph Goebbels (1897-1945), ministro da propaganda nazista.

A obra foi publicada originalmente em duas partes (1998-2000), mas posteriormente foi condensada em um volume único, como será a versão brasileira, editada pela Companhia das Letras.

Na obra, o responsável pela "biografia definitiva do Führer", Ian Kershaw, alerta para o perigo de subestimar grosseiramente as capacidades do ditador. Kershaw é uma das maiores autoridades no assunto, consultor de história da rede BBC e autor de "Dez Decisões que Mudaram o Mundo (1940-1941)" (Companhia das Letras, 2008). O livro foi traduzido para a língua portuguesa por Pedro Maia Soares.

Abaixo, trecho do livro que explica o risco de discorrer sobre a "grandeza histórica" de Hitler:

"A questão da "grandeza histórica" estava usualmente implícita na literatura biográfica convencional, em particular na tradição alemã. A figura de Hitler, cujos atributos pessoais - distintos de sua aura política e seu impacto - eram dificilmente nobres, elevados ou enriquecedores, colocava problemas evidentes para essa tradição. 

Uma maneira de evitá-los era sugerir que Hitler possuía uma forma de "grandeza negativa"; que, embora carecesse da nobreza de caráter e outros atributos que se supunha pertencerem à "grandeza" das figuras históricas, seu impacto sobre a história era inegavelmente imenso, ainda que catastrófico. No entanto, a "grandeza negativa" também pode ter conotações trágicas: empenho poderoso e espantosas realizações pervertidas; grandeza nacional transformada em catástrofe natural.


Parece melhor evitar totalmente a questão da "grandeza" (exceto tentar entender por que tantos contemporâneos viram "grandeza" em Hitler). É uma pista falsa: mal interpretada, sem sentido, irrelevante e potencialmente apologética. É uma interpretação errada porque não foge ao que as teorias dos "grandes homens" fazem: personalizam de modo extremo o processo histórico. Sem sentido, porque toda a noção de grandeza histórica é, em última análise, inútil. 

Baseado num conjunto subjetivo de juízos morais ou até mesmo estéticos, é um conceito ético-filosófico que não leva a nada. Irrelevante porque, independente da resposta à questão da suposta "grandeza" de Hitler ser positiva ou negativa, ela em si mesma não explicaria nada sobre o simples fato de propor a questão não consegue esconder uma certa admiração por Hitler, por mais relutante que seja; e porque, enfim, procurar grandeza em Hitler acarreta o corolário automático de reduzir ao papel de meros figurantes ao lado do "grande homem" aqueles que promovem diretamente seu regime, as instâncias diversas que o sustentam q o povo alemão que lhe deu tanto apoio.

Em vez de tratar da "grandeza histórica", precisamos voltar nossa atenção para outra pergunta, de muito maior importância. Como explicarmos que alguém com tão poucos dons intelectuais e atributos sociais, alguém que não era mais que um recipiente vazio fora de sua vida política, inacessível e impenetrável até mesmo para aqueles que conviviam com ele, incapaz aparentemente de uma amizade genuína, sem a formação que preparava para os altos cargos, sem nem mesmo qualquer experiência de governo antes de se tornar chanceler do Reich, pôde, não obstante, causar um impacto histórico tão imenso, pôde fazer o mundo inteiro segurar a respiração?

A pergunta talvez esteja, ao menos em parte, mal formulada. Antes de mais nada, Hitler não era burro e possuía uma mente afiada que podia recorrer a uma memória formidável. Com sua compreensão de questões, era capaz de impressionar, como era de se esperar, seu círculo de bajuladores, mas também estadistas e diplomatas frios, críticos e experimentados. Seu talento retórico foi evidentemente reconhecido até por seus inimigos políticos. E ele por certo não foi o único líder político do século XX a combinar o que poderíamos considerar deficiências de caráter e superficialidade de desenvolvimento intelectual com habilidade e eficácia política notáveis. É bom evitar a armadilha, em que a maioria de seus contemporâneos caiu, de subestimar grosseiramente suas capacidades.
"


Fonte: Matéria publicada no Jornal Folha de São Paulo, edição online, em 11/11/2010:

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