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terça-feira, 29 de setembro de 2026

Maricarmen, a Puerta del Sol e o fantasma de 2011: uma nova onda Occupy está para detonar?

Uma mulher de 87 anos foi despejada de sua casa em Madri. Milhares foram às ruas. Barracas voltaram a ocupar a Puerta del Sol. Quinze anos depois do 15-M, a Espanha parece estar ouvindo novamente um velho ruído de insatisfação

 
Uma mulher de 87 anos foi despejada de sua casa em Madri. Milhares foram às ruas. Barracas voltaram a ocupar a Puerta del Sol. Quinze anos depois do 15-M, a Espanha parece estar ouvindo novamente um velho ruído de insatisfação

Há imagens que ultrapassam a tela do celular. A imagem de uma mulher de 87 anos sendo retirada da própria casa, em uma maca, depois de mais de sete décadas vivendo naquele endereço, é uma delas. O nome dela é María del Carmen Abascal, conhecida como Maricarmen.

E talvez o mais importante nessa história não seja apenas o despejo. É o que aconteceu depois. Pessoas foram para as ruas. A Puerta del Sol voltou a receber barracas. Milhares começaram a protestar contra o preço da moradia.

E, de repente, uma história que poderia ter terminado como tantas outras — uma idosa perde a casa, muda-se para algum lugar improvisado e a vida continua — transformou-se em símbolo.

Um símbolo de uma pergunta muito maior:

quem ainda consegue morar nas cidades onde nasceu, trabalhou e envelheceu?

Uma casa que virou símbolo

Maricarmen vivia havia 71 anos no mesmo apartamento, em Madri. O imóvel foi adquirido por um fundo de investimento e o aluguel sofreu aumentos que acabaram tornando impossível para ela continuar pagando. Sua renda mensal girava em torno de € 1.350, enquanto o aluguel chegou a superar sua capacidade de pagamento.

No dia 23 de setembro, o despejo aconteceu. Ela saiu de casa em uma maca. A cena provocou indignação. E a indignação ganhou as ruas.

Milhares de pessoas começaram a protestar em Madri. No fim de semana, cerca de 25 mil manifestantes, segundo números oficiais, participaram de uma manifestação pela moradia.

Depois vieram as barracas. E elas foram montadas justamente na Puerta del Sol. Para quem acompanha a história recente da Espanha, isso é mais do que um detalhe geográfico.

É memória. É 2011. É o 15-M.

Quando a praça virou mundo

Em 15 de maio de 2011, milhares de espanhóis foram às ruas contra a crise econômica, o desemprego, a corrupção, as políticas de austeridade e a sensação de que a política tradicional não conseguia responder à realidade de milhões de pessoas.

Depois das manifestações, um grupo decidiu permanecer na Puerta del Sol. Vieram as barracas. As assembleias. Os debates. Os cartazes. As cozinhas coletivas. As redes sociais.

E veio uma palavra que atravessou fronteiras:

indignação.

Nascia o movimento dos Indignados, o 15-M. O movimento espanhol tornou-se uma das grandes referências dos protestos sociais do início da década passada e ajudou a inspirar outras mobilizações pelo mundo.

Poucos meses depois, o Occupy Wall Street ocuparia um parque em Nova York e daria origem a manifestações semelhantes em dezenas de cidades. Os movimentos não eram iguais. Mas compartilhavam uma sensação.

A de que alguma coisa estava profundamente errada na maneira como a sociedade estava distribuindo riqueza, oportunidades e poder.

Era a época do “nós somos os 99%”. História da qual fiz parte. (Clique aqui veja os vídeos no meu canal do YouTube). Era a época em que a desigualdade deixou de ser apenas assunto acadêmico e passou a ser uma palavra escrita em cartazes nas ruas.

Quinze anos depois, as barracas voltaram

Agora, em 2026, elas estão novamente na Puerta del Sol. E isso é simbólico. Mas também exige cautela. Não estamos, ao menos por enquanto, diante de uma repetição automática de 2011.

O mundo mudou. A economia mudou. As redes sociais mudaram. As formas de organização política mudaram. E as pautas também. Hoje mesmo a Inteligência Artificial foi rebatizada como Superinteligência pelo Governo dos EUA, inclusive a ferramenta usada para edição dessa postagem do Pulso.

Desta vez, a faísca é muito concreta, não são os cassinos globais, é moradia.

Aluguel. Condomínio. Prestação. Despejo. Gentrificação. Fundos de investimento. Criptomoedas. O direito de permanecer na própria casa, sem ser ameaçado porque está empobrecido pela falta de oportunidades, muitas vezes mesmo tendo qualificação mais que suficiente para pagar as próprias contas.

O direito de viver e envelhecer sem ser expulso da sua própria casa. O direito de ter a primeira habitação sem ter a preocupação de que pode ser despejado quando envelhecer. Talvez seja justamente por isso que a história de Maricarmen tenha tocado tanta gente. Porque é fácil compreender o drama. Uma mulher de 87 anos. Uma aposentadoria. Uma casa onde viveu por 71 anos. E um aluguel que se tornou maior do que sua renda. Não é necessário ser economista para entender, basta ser humano.

E então aconteceu algo ainda mais importante

A pressão das ruas produziu uma reviravolta. Nesta terça-feira, foi anunciado um acordo que permite que Maricarmen volte para casa, com um aluguel limitado a aproximadamente 30% de sua renda durante oito anos, após ela ter sido hospitalizada em razão do desgaste provocado pelo despejo.

Ainda há detalhes a serem formalizados. Mas existe algo que não pode ser ignorado:

uma senhora de 87 anos virou o centro de uma mobilização capaz de produzir uma mudança concreta.

E isso muda a natureza da história. Porque uma coisa é protestar. Outra é perceber que o protesto pode alterar a realidade.

O governo espanhol também anunciou novas medidas para enfrentar a crise habitacional, incluindo mecanismos de proteção contra despejos de pessoas vulneráveis e mudanças nas regras de aluguel. Pode ser pouco. Pode ser muito.

Ainda veremos... Mas a rua falou. E o poder público precisou ouvir. E, mesmo assim, o movimento continua ocupando a praça, com possibilidade de novamente ocupar o mundo.

A pergunta que incomoda

É aqui que começa a parte mais interessante. Será que, 14 anos depois, estamos diante de um novo 15-M? Ou será que estamos diante de algo ainda maior?

Uma nova onda Occupy está para detonar?

Não se sabe ao certo se ainda é cedo para responder à esta questão, pois movimentos sociais não obedecem calendários. Eles não nascem porque alguém decide que chegou a hora.

Eles aparecem quando milhões de pequenas frustrações encontram um símbolo capaz de traduzir aquilo que as pessoas estavam sentindo.

Em 2011, aquele símbolo foi a crise econômica e a sensação de abandono político. Em 2026, pode ser uma casa. A casa de Maricarmen. A crise habitacional, a falta de dinheiro para pagar o condomínio, o aluguel ou a prestação da casa.

Talvez a questão seja maior que a Espanha

Existe algo curioso na crise espanhola. O problema da moradia não é exclusivamente espanhol. Em várias partes do mundo, trabalhar deixou de ser garantia de conseguir morar perto do trabalho. Inclusive nos dias de hoje, principalmente após a pandemia, muitas pessoas trabalham em casa, no sistema de teletrabalho.

Os salários subiram menos que determinados custos essenciais. Os aluguéis dispararam em grandes centros urbanos. Os imóveis passaram a ser vistos cada vez mais como ativos financeiros, favorecendo a especulação imobiliária em detrimento do direito fundamental que todos precisam ter: um teto para morar.

E uma pergunta desconfortável começou a aparecer:

se uma pessoa trabalha, por que ela não consegue pagar uma casa?

Talvez essa seja uma das grandes questões sociais do nosso tempo.

E o Brasil?

É impossível observar o que acontece em Madri sem olhar para nós mesmos. No Brasil, a realidade é diferente, mas a pergunta sobre o valor do trabalho continua presente.

Nesta semana, a greve dos empregados da Caixa Econômica Federal chegou ao fim após decisão do Tribunal Superior do Trabalho. O Técnico Bancário Novo, cargo de entrada de nível médio da Caixa, tem salário inicial de R$ 3.762, com jornada de 30 horas semanais.

Enquanto isso, o salário mínimo nacional de 2026 está em R$ 1.621. Entre esses dois valores existe um país inteiro. Um técnico de enfermagem da carreira municipal de Saúde Pública de Curitiba aparece na faixa inicial de aproximadamente R$ 2 mil, para jornada de 30 horas.

Não faz sentido colocar trabalhador contra trabalhador e este não é o objetivo dessa postagem. Mas faz sentido fazer a pergunta.

Quanto vale o trabalho de quem cuida de doentes?

Quanto vale o trabalho de quem ensina?

Quanto vale o trabalho de quem protege?

Quanto vale o trabalho de quem atende a população?

Quanto vale o trabalho de quem movimenta um banco público?

E, principalmente:

quanto uma pessoa precisa receber para conseguir viver?

Não é sobre ganhar mais. É sobre conseguir viver sem preocupação constante com conseguir garantir a própria moradia. Com tranquilidade. Sem a ameaça de despejo por contas atrasadas.

Essa talvez seja a diferença entre uma discussão meramente salarial e uma discussão social. Não precisamos transformar o bancário em inimigo do técnico de enfermagem. Nem o policial em inimigo do professor. Nem o servidor público em inimigo do trabalhador da iniciativa privada. Na verdade todos têm seu trabalho explorado servindo a hierarquias maiores de poder, seja ele privado ou público, a exceção de profissionais liberais.

A verdadeira questão está acima dessas disputas. Importante é saber se o trabalho continua sendo suficiente para garantir uma existência minimamente digna. Porque de nada adianta uma pessoa ter emprego se o salário não paga o aluguel, a prestação, as taxas de condomínio e serviços básicos.

De nada adianta trabalhar oito horas por dia se o dinheiro ganho não permite a vida além das contas, pois depois de todas as contas pagas, as pessoas ainda precisam comer. Isso que parece ser uma inversão de valores. Pois todo mundo deveria poder comer e beber sabendo que ainda vai restar dinheiro para pagar as contas.

De nada adianta chegar à aposentadoria se a renda não permite permanecer na própria casa. Ainda mais com as regras para se aposentar, no caso aqui do Brasil, terem sido mudadas de maneira drástica. Até o ano 2000 as podiam se aposentar com 50 anos de idade. Hoje elas nem sabem se um dia vão conseguir chegar à aposentadoria. E, isso causa instabilidade social.

Foi exatamente isso que aconteceu com Maricarmen. Ela tinha uma história. Tinha uma casa. Tinha uma renda. Mas chegou um momento em que a matemática deixou de fechar.

E quando a matemática da vida deixa de fechar, pouco importa se a pessoa trabalhou durante 20, 40 ou 70 anos.

O mercado não conhece memória. O aluguel, a prestação da casa própria, os impostos territoriais urbanos e taxas condominiais não conhecem biografia. Os boleto não conhecem a dignidade humana.

Talvez o Occupy nunca tenha acabado

Talvez seja essa a pergunta mais interessante de todas. Estamos esperando uma nova onda Occupy? Ou ela nunca terminou? Talvez os movimentos de 2011 tenham apenas mudado de forma.

A indignação continua existindo. Só mudaram seus motivos imediatos. Hoje pode ser a moradia. Amanhã pode ser a inteligência artificial e o emprego. Depois, a aposentadoria.A precarização.A desigualdade. O custo da saúde. A crise climática.

A sensação de que a vida ficou cara demais para quem trabalha e barata demais para quem precisa trabalhar.

Movimentos sociais são assim. Eles não necessariamente desaparecem. Às vezes, entram em silêncio, em estado de espera até que alguma coisa aconteça.

Uma crise. Uma injustiça. Uma imagem. Uma pessoa. Uma história que faça milhares pensarem:

“Isso poderia acontecer comigo.”

Maricarmen talvez seja apenas o começo

Talvez a mobilização na Espanha desapareça daqui a algumas semanas. Talvez as barracas sejam desmontadas. Talvez a Puerta del Sol volte à rotina. Talvez nada parecido com o 15-M aconteça novamente. Também pode acontecer o contrário. Pode surgir uma mobilização maior. Pode nascer uma nova pauta. Pode aparecer uma nova geração de Indignados. Pode surgir um movimento internacional pela moradia.

Ainda não sabemos. E talvez seja justamente esse o ponto. Não estamos diante de uma história encerrada. Estamos diante de um fenômeno acontecendo agora.

Uma multidão foi para a rua. A praça voltou a ser ocupada. O governo reagiu. E uma mulher poderá voltar para casa. Mas a cada dia cresce o movimento na mesma praça onde surgiu o 15-M e o movimento internacional dos indignados.

Quinze anos depois do 15-M, a Puerta del Sol voltou a ter barracas.

Não é coincidência, isso já aconteceu antes. Para quem não tem memória hoje tem internet, tem superinteligência. Talvez esteja mais do que na hora dos indignados no mundo inteiro se reunirem outra vez e protestar, novamente ocupar a capa da Time, do Jornal O Globo, das revistas, das grandes agências internacionais de notícias, de todos os veículos de comunicação do nosso pequeno ponto azul que flutua num raio de sol. 

Talvez seja aquele pequeno tremor que antecede um tsunami. Um efeito borboleta. Por isso mesmo observamos e perguntamos?

Será que uma nova onda de movimentos Ocupa está para surgir?

O futuro parece estar justamente começando em algum lugar onde alguém decidiu não aceitar mais o que parecia inevitável. E ao nosso ver sim, as pessoas vão voltar provavelmente a ocupar as praça, ocupar as ruas, o mundo. Isso deixa as pessoas indignadas. Eu, ao menos, estou indignado. E você não está? Hoje somos todos e todas Maricarmen! Indignados e indignadas, em busca de dignidade. Pois não se pode ameaçar e muito menos se retirar o teto de alguém assim.


Pulso Eletromagnético — o pulso ainda pulsa...

terça-feira, 25 de agosto de 2026

Quando os Andes e a Mesoamérica eram mundos: a memória de uma América que ainda pode se reencontrar

Muito antes das fronteiras modernas, povos originários construíram sociedades capazes de dominar a agricultura, a astronomia, a arquitetura, a matemática, a administração e os ciclos da natureza. Recuperar essa memória não é voltar ao passado — é lembrar que a América Latina sempre foi capaz de construir grandeza com suas próprias mãos

Muito antes das fronteiras modernas, povos originários construíram sociedades capazes de dominar a agricultura, a astronomia, a arquitetura, a matemática, a administração e os ciclos da natureza. Recuperar essa memória não é voltar ao passado — é lembrar que a América Latina sempre foi capaz de construir grandeza com suas próprias mãos

Antes de existirem Peru, Bolívia, Equador, Chile, México, Guatemala ou qualquer uma das fronteiras que hoje conhecemos, havia outros mapas. Eram mapas desenhados pelas montanhas, pelos rios, pelas florestas, pelos desertos e pelo movimento dos astros. Havia cidades monumentais, estradas que atravessavam cordilheiras, sistemas agrícolas sofisticados, calendários capazes de acompanhar os movimentos celestes e governos que administravam territórios extensos.

Muito antes da chegada dos europeus, a América já tinha civilizações complexas. Algumas delas alcançaram uma dimensão que ainda hoje impressiona. Seus povos desenvolveram conhecimentos próprios, organizaram estruturas políticas e religiosas sofisticadas e encontraram maneiras de produzir alimentos e estabelecer comunidades em ambientes que pareciam desafiar a ocupação humana.

Pachacuti e o mundo dos quatro horizontes

Nos Andes, o pequeno reino de Cusco transformou-se em um dos maiores Estados da América pré-colombiana. Pachacuti, ou Pachacútec, é lembrado como o grande arquiteto político do Tawantinsuyu, o império dos quatro quadrantes. Sob sua liderança, os incas ampliaram seus domínios, reorganizaram a administração, fortaleceram o sistema militar e desenvolveram uma extraordinária estrutura agrícola. A tradição atribui a Pachacuti também o início da construção de Machu Picchu.

Depois dele, seu filho Túpac Yupanqui ampliou ainda mais as fronteiras, levando a influência inca em direção ao atual Equador e aos territórios que hoje correspondem a partes do Chile e da Argentina. Os incas não possuíam uma escrita alfabética como a que conhecemos, mas desenvolveram formas próprias de administração e registro, incluindo os quipus, além de uma impressionante rede de estradas, pontes, depósitos e centros administrativos.

Era uma civilização organizada para sobreviver — e prosperar — em uma das geografias mais difíceis do planeta.

Tenochtitlán: uma cidade sobre as águas

Do outro lado do continente, na Mesoamérica, os mexicas — conhecidos como astecas — construíram uma potência cujo centro era Tenochtitlán, erguida em meio ao lago Texcoco. Ali, o poder era exercido pelo Huey Tlatoani, líder político e militar.

Ahuitzotl conduziu o Estado asteca durante um dos períodos de maior expansão territorial e militar. Sob seu governo, Tenochtitlán consolidou seu poder sobre numerosas cidades tributárias e ampliou sua influência econômica e política. Depois veio Moctezuma II. Foi durante seu governo que Hernán Cortés chegou à Mesoamérica, em 1519. O império encontrava-se em seu auge, mas também enfrentava tensões internas e conflitos com povos submetidos ou rivais — circunstâncias que seriam exploradas pelos conquistadores espanhóis.

A história asteca também precisa ser lembrada sem filtros românticos. A guerra e os sacrifícios humanos faziam parte de determinados rituais e estruturas de poder. A mesma civilização que construiu uma metrópole impressionante também praticou formas de violência que hoje nos causam horror.

Conhecer uma civilização não significa santificá-la. Significa compreendê-la.

Os maias: quando o céu virou calendário

E há ainda os maias. Aqui, a palavra “império” precisa ser utilizada com cuidado. Os maias nunca constituíram um Estado único centralizado. Eram formados por cidades-estado, cada uma com seus próprios governantes, os ajaw. Tikal, Palenque e Copán foram alguns dos grandes centros desse universo.

Em Palenque, K'inich Janaab' Pakal, conhecido como Pakal, o Grande, governou durante o século VII e tornou-se um dos nomes mais extraordinários da história maia. Seu reinado foi marcado por obras arquitetônicas, produção artística e fortalecimento político.

Em Tikal, Jasaw Chan K'awiil I conduziu sua cidade em um período de grande poder, incluindo a vitória sobre Calakmul, uma das principais rivais do mundo maia.

Mas talvez uma das maiores heranças maias esteja acima de nossas cabeças. Os maias observaram o céu, estudaram os movimentos dos astros, desenvolveram complexos calendários e produziram conhecimentos matemáticos e astronômicos extraordinários para seu tempo. Enquanto sociedades de outras partes do mundo ainda desenvolviam suas próprias formas de compreender o tempo e os ciclos naturais, cidades americanas já organizavam sua vida política, agrícola e religiosa segundo uma sofisticada observação do universo.

Deuses, agricultura e o ritmo da natureza

Há outro elemento que aproxima essas civilizações: a compreensão de que a existência humana estava profundamente ligada à natureza. Entre os astecas, Huitzilopochtli estava associado ao Sol e à guerra; Quetzalcóatl, à sabedoria, ao vento e à vida; Tláloc, à chuva e à água.

Entre os maias, Itzamná estava associado à criação e aos céus; Chaac, às chuvas; Ixchel, à Lua, à fertilidade e ao parto. Nos Andes, Inti, o Sol, ocupava posição central. Viracocha era associado à criação; Pachamama, à terra e à fertilidade; Mama Quilla, à Lua; Illapu, ao trovão e à chuva.

Não eram apenas religiões. Eram sistemas de interpretação do mundo. Os sacerdotes possuíam enorme influência. Entre os astecas, os tlamacazqui administravam templos, calendários e rituais. Entre os maias, os Ah Kin preservavam conhecimentos astronômicos, matemáticos e religiosos. Nos Andes, o Willaq Uma, sumo sacerdote inca, ocupava uma das posições mais importantes do Estado.

A agricultura dependia do céu, o céu dependia do calendário, o calendário organizava a sociedade e a sociedade precisava compreender a natureza para sobreviver. Era uma visão de mundo na qual homem, terra, água, milho, Sol, Lua e montanhas faziam parte de uma mesma narrativa.

Uma América anterior às fronteiras

É justamente aqui que a memória pode nos ensinar algo. Astecas e maias pertenciam principalmente à Mesoamérica. Incas e outros grandes povos andinos estavam na América do Sul. Não eram uma única civilização e não formavam uma unidade política. Mas havia algo que os aproximava: todos construíram sociedades complexas antes da formação dos Estados nacionais modernos e antes da colonização europeia.

Isso deveria ser lembrado. Não para alimentar uma nostalgia impossível, muito menos para transformar o passado em propaganda, mas para romper uma ideia antiga e persistente: a de que a história da América teria começado quando europeus chegaram às suas praias.

Não começou.

Quando os navios europeus apareceram no horizonte, já existiam cidades, governos, redes comerciais, conhecimentos agrícolas, sistemas religiosos, obras de engenharia e culturas milenares. A América não era um vazio esperando para ser descoberta. Era um mundo.

O futuro também pode ser continental

Talvez essa seja a parte mais importante dessa história. Durante séculos, os povos americanos foram separados por fronteiras desenhadas depois. Mexicanos, guatemaltecos, colombianos, equatorianos, peruanos, bolivianos, chilenos, argentinos, brasileiros e tantos outros passaram a enxergar uns aos outros através dos limites dos Estados nacionais.

Mas as montanhas não conhecem fronteiras. Os rios não conhecem fronteiras. A Amazônia não conhece fronteiras. Os Andes não conhecem fronteiras. E a história tampouco.

Relembrar Pachacuti, Túpac Yupanqui, Ahuitzotl, Moctezuma, Pakal e os grandes governantes das cidades maias não significa desejar o retorno de impérios. Significa reconhecer que nossos antepassados foram capazes de imaginar sociedades complexas em uma escala continental.

E talvez exista aí uma inspiração para o presente. Uma América Latina mais integrada não precisaria apagar suas diferenças. Ao contrário: poderia transformar a diversidade em força.

O México não precisa deixar de ser México. O Peru não precisa deixar de ser Peru. A Bolívia não precisa deixar de ser Bolívia. O Brasil não precisa deixar de ser Brasil.

A unidade não exige uniformidade. Ela exige reconhecimento.

Reconhecimento de uma história compartilhada, de problemas que atravessam fronteiras e de um futuro que pode ser construído conjuntamente.

A memória como pulso

Talvez seja essa a verdadeira lição deixada pelas antigas civilizações americanas. Elas olharam para o céu para entender o tempo, olharam para a terra para produzir alimento, construíram cidades onde parecia impossível, abriram caminhos através das montanhas e organizaram sociedades inteiras em torno de conhecimentos acumulados por gerações.

E deixaram uma mensagem silenciosa nas pedras, nos templos, nos terraços agrícolas, nos calendários e nas estradas: somos capazes de construir.

O futuro da América Latina não precisa ser uma cópia do passado. Mas pode ser inspirado por ele. Porque existe uma diferença enorme entre viver preso à memória e aprender com ela.

A memória olha para trás. A civilização olha para frente. E talvez seja justamente agora, em um continente ainda dividido por desigualdades, disputas e fronteiras, que precisemos recuperar aquele antigo sentimento de que os grandes desafios nunca foram pequenos demais para nossos antepassados.

Se eles conseguiram construir mundos nas montanhas, nos vales, nos desertos e sobre as águas, nós também podemos construir um futuro comum.

Não um novo império. Uma nova consciência continental.

Pulso Eletromagnético
História, ciência, cultura e os movimentos profundos que ajudam a explicar o nosso mundo.

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Astrônomos russos identificam um “iceberg” em mancha solar que pode explicar sequência de erupções

O Sol voltou a chamar a atenção dos astrônomos. Em apenas 24 horas, 19 erupções solares foram registradas, em um aumento repentino da atividade que intrigou pesquisadores russos. O responsável pelo comportamento incomum parece ser um novo grupo de manchas solares, identificado como 4513, que surgiu na borda esquerda do disco solar observado da Terra.

À primeira vista, a região 4513 não impressiona. Ela aparece relativamente pequena nas imagens da superfície do Sol. Mas os pesquisadores do Laboratório de Astronomia Solar do Instituto de Pesquisas Espaciais da Academia Russa de Ciências levantam uma possibilidade interessante: a estrutura que vemos pode representar apenas a parte superior de uma configuração magnética muito maior escondida sob a superfície, numa situação que lembra a lógica de um iceberg — aquilo que aparece é apenas uma fração do que realmente existe.

A comparação não significa que exista literalmente uma estrutura semelhante a um iceberg dentro do Sol. Trata-se de uma metáfora para descrever uma característica importante das manchas solares: seus campos magnéticos se estendem profundamente para o interior da estrela. Segundo a análise divulgada pelos pesquisadores russos, a origem dessas estruturas pode estar a aproximadamente 200 mil quilômetros de profundidade.

O que torna a mancha solar tão importante?

As manchas solares são regiões mais escuras e relativamente mais frias da fotosfera. Elas aparecem justamente onde os campos magnéticos do Sol são extremamente intensos. Esses campos podem ficar distorcidos, torcidos e comprimidos à medida que o plasma solar se movimenta.

Quando a configuração magnética se torna instável, ocorre a chamada reconexão magnética: linhas do campo magnético se reorganizam e liberam rapidamente uma enorme quantidade de energia. O resultado pode ser uma erupção solar, ou solar flare.

É justamente por isso que uma mancha aparentemente discreta pode esconder um potencial de atividade muito maior do que sua aparência sugere.

No caso da região 4513, os dados do laboratório russo mostram que ela vem sendo acompanhada como uma área ativa. Na atualização mais recente, a região apresentava área de cerca de 180 unidades de área solar e classificação magnética beta.

De onde vieram as 19 erupções?

A sequência chamou atenção porque ocorreu em um período relativamente curto. A reportagem baseada nos dados do Instituto de Pesquisas Espaciais da Academia Russa de Ciências informou que 19 eventos foram observados em 24 horas, incluindo uma erupção de classe M — a primeira desse nível registrada em várias semanas, segundo a fonte russa.

É importante entender que nem todas as erupções solares possuem a mesma intensidade. Os eventos são classificados principalmente pela intensidade dos raios X observados por satélites de monitoramento do clima espacial. A escala começa nas classes A e B, passa por C e M e chega à classe X, a mais intensa.

Assim, 19 erupções não significam necessariamente 19 grandes explosões capazes de provocar impactos na Terra. O número elevado indica uma região magneticamente ativa, mas a intensidade individual de cada evento é fundamental para determinar seus possíveis efeitos.

Um Sol que ainda está sendo observado

Outro detalhe importante é a posição da região 4513. Como ela está surgindo pela borda do disco solar, os astrônomos ainda não conseguem observar toda a estrutura diretamente. À medida que a rotação do Sol levar a região para uma posição mais favorável à observação, será possível obter uma visão mais completa de sua configuração.

Essa é justamente a razão para a metáfora do “iceberg” ser tão interessante. O que os telescópios enxergam agora pode não revelar toda a complexidade magnética existente por baixo.

Os pesquisadores russos avaliam, porém, que a região pode estar chegando ao seu pico de intensidade, e não necessariamente entrando em uma fase de crescimento indefinido. A previsão permanece cautelosa: será necessário acompanhar a evolução da mancha enquanto ela emerge completamente no lado visível do Sol.

Devemos nos preocupar com a Terra?

A resposta, por enquanto, é: não há motivo para transformar o episódio em motivo de pânico.

Erupções solares podem produzir radiação capaz de provocar perturbações nas comunicações de rádio, enquanto algumas explosões também podem estar associadas a ejeções de massa coronal (CMEs). Quando uma CME é direcionada à Terra, partículas e campos magnéticos podem interagir com a magnetosfera e produzir tempestades geomagnéticas, além de auroras em latitudes mais elevadas.

A situação precisa ser avaliada evento por evento. Uma erupção ocorrida perto da borda do Sol, por exemplo, não necessariamente representa uma ameaça direta ao nosso planeta. Além disso, uma erupção solar e uma ejeção de massa coronal são fenômenos relacionados, mas não são sinônimos.

O verdadeiro mistério está sob a superfície

O episódio da região 4513 é mais uma demonstração de como o Sol pode enganar nossos olhos. Uma pequena mancha escura na superfície pode ser a manifestação visível de uma gigantesca estrutura magnética que se estende para o interior da estrela.

E é justamente essa característica que torna o fenômeno tão fascinante.

O “iceberg” solar não é feito de gelo, mas de magnetismo. A parte que conseguimos enxergar é apenas a assinatura superficial de processos que acontecem em uma estrela com cerca de 1,4 milhão de quilômetros de diâmetro e que libera continuamente enormes quantidades de energia.

Por isso, os próximos dias serão importantes. Conforme a região 4513 avance pelo disco solar, os telescópios poderão revelar se a discreta mancha realmente esconde uma estrutura magnética muito mais complexa — e se a sequência excepcional de erupções observada agora foi apenas um episódio passageiro ou o começo de uma fase mais ativa.

O Sol, mais uma vez, mostra que aparência e realidade podem ser coisas muito diferentes quando observamos uma estrela de perto.

Fontes: Laboratório de Astronomia Solar do IKI RAS, NASA e NOAA.

domingo, 9 de agosto de 2026

Quando a política vira torcida, quem perde é o cidadão

Em tempos de polarização permanente, talvez seja hora de olhar para além dos partidos, dos candidatos e das disputas eleitorais e perguntar por que continuamos entregando nossa consciência a quem promete tanto e entrega tão pouco

Em tempos de polarização permanente, talvez seja hora de olhar para além dos partidos, dos candidatos e das disputas eleitorais e perguntar por que continuamos entregando nossa consciência a quem promete tanto e entrega tão pouco

Existe alguma coisa estranha acontecendo com a política mundial e aqui no Brasil não é diferente. A cada eleição, somos convidados a acreditar novamente. A acreditar que agora vai. Que desta vez será diferente. Que finalmente apareceu alguém capaz de colocar o país nos trilhos, consertar a economia, acabar com a corrupção, melhorar a saúde, resolver a segurança, criar empregos, promover mais programas sociais e liberdades individuais, gente que promete mudar tudo - mas não muda nada.

Mudam os rostos. Mudam as cores. Mudam os slogans. Mas, depois de algum tempo, a vida real volta a bater à porta. E permanece aquela pergunta que quase nunca cabe na propaganda eleitoral: o que realmente mudou na vida das pessoas?

Não é uma pergunta apenas brasileira. Basta observar o mundo para perceber que a crise de confiança na política atravessa fronteiras, ideologias e sistemas de governo. Presidentes entram e saem. Parlamentos mudam. Partidos trocam de discurso. Novos movimentos surgem prometendo romper com tudo o que existia antes.

Mas nós do povo continuamos, assim como servidores públicos que entra governo e sai governo continua trabalhando. E, ainda assim, milhões continuam vivendo sob a mesma velha sensação de abandono. E cada vez mais sentimos que não se trata apenas de sensação, o abandono é real. Esquerda, direita e centro, dois lados e um contrapeso de uma mesma moeda.

Quando a política passou a se parecer com futebol

Talvez uma das coisas mais perigosas da política contemporânea seja justamente a sua transformação em espetáculo. O jogo político está sendo mudado para a sociedade do espetáculo. Eleição passou a parecer competição entre times de futebol. Os grandes players jogam ganhando milhões enquanto nós estamos na posição do gramado, cortado baixo e parede para que está gente jogue sobre as nossas cabeças.

Meu candidato contra o seu. Minha esquerda contra sua direita. Meu grupo contra o seu grupo. Minha verdade contra a sua verdade. Com essa forma tosca e pequena de pensar, o adversário deixa de ser alguém que pensa diferente e passa a ser tratado como inimigo.

É nesse momento que a política perde uma de suas características mais importantes: a capacidade de produzir reflexão e de contribuir para uma democracia realmente saudável.

Uma democracia saudável deveria permitir que alguém dissesse: “Votei em você, mas não concordo com isso”. Hoje, muitas vezes, acontece o contrário. O eleitor passa a defender o político como quem defende um clube de futebol, como o machismo tóxico que encarcera a companheira, agredindo e tolhendo até o direito de ir e vir da mulher.

E o político agradece. Porque um cidadão que pensa pode mudar de opinião. Um torcedor, não. Enquanto os jogadores de futebol mudam de times ganhando milhões, políticos mudam de partido buscando uma prancha para chegar às urnas e se perpetuar no poder, nós do povo vemos os preços, os juros, os impostos subindo de maneira astronômica.

A polarização também virou produto

Existe uma verdadeira indústria da polarização. Ela movimenta campanhas, publicidade, redes sociais, consultorias, canais de comunicação e, principalmente, atenção. Se olharmos um pouco para o passado não muito distante e estudarmos o caso da Cambridge Analytica, do Steve Bannon, podemos perceber muito do que está sendo feito.

Quanto mais indignado o cidadão fica, mais tempo permanece conectado. Quanto mais medo sente, mais compartilha dos seus temores e receios. Quanto mais odeia o adversário, menos disposição encontra para ouvi-lo. Assim acaba a diferença, o contraditório, a opinião própria. É a população se transformando em gado. E quanto menos se escuta o contraditório, mais fácil se torna para políticos hábeis e inescrupulosos conduzir as massas.

Não é preciso imaginar uma conspiração universal para entender o mecanismo, a máquina de moer gente. A política aprendeu algumas das melhores técnicas da publicidade.

Identifica públicos. Mede comportamentos. Descobre inseguranças. Escolhe palavras. Cria personagens. Fabrica inimigos. Produz slogans. E vende esperança. Quando necessário, também vende medo, usando a pior e mais nojenta forma de política que existe hoje no mundo: a necropolítica.

O poder que nunca parece ter fim

Há outra questão que deveria nos incomodar, entretanto assusta ver tão pouca gente ligada nessa questão. Por que a política parece ter desenvolvido uma espécie de carreira permanente? O sujeito entra na política. Depois se reelege. Ocupa outro cargo. Retorna. Apoia alguém. Volta novamente. Muda de posição. Troca de partido. Reaparece. Coloca filhos e parentes como candidatos e candidatas.

As fotografias mudam, mas os personagens continuam circulando dentro da mesma estrutura de poder. E, a cada eleição, somos apresentados à mesma sensação de urgência: precisamos escolher determinado candidato porque o outro é pior.

Somos colocados em cheque por essa gente que na verdade não nos representa, nos obriga a escolher eles como representantes usando toda a espécie de chantagem política e emocional.

É aí que aparece outra pegadinha, o chamado voto útil. O voto útil pode ser uma decisão perfeitamente legítima quando nasce da consciência do eleitor. O problema começa quando o cidadão deixa de perguntar em quem realmente acredita e passa a votar apenas em quem lhe dizem que pode vencer. Quando isso acontece, a eleição deixa de ser escolha e passa a ser cálculo. Se torna eu contra ele e não todos juntos contra o problema.

O cidadão não pergunta mais: “Quem representa melhor aquilo que penso?” Passa a perguntar: “Quem tem chance de ganhar?” E talvez essa diferença seja muito maior do que aparenta. A maior parte do jogo política é feita nos bastidores e nós, reles mortais, não ficamos sabendo do que acontece por trás do que nos é mostrado pela grande mídia.

O perigo de pensar em bloco

Existe uma ideia filosófica antiga, presente em diferentes tradições do pensamento, que continua extremamente atual: o indivíduo pode perder sua própria capacidade de pensar quando se dissolve completamente dentro da multidão. Não se trata de condenar a sociedade, os movimentos coletivos ou a ação política organizada. As grandes transformações humanas quase sempre dependeram de pessoas trabalhando juntas.

O problema começa quando o indivíduo deixa de pensar e passa apenas a repetir. Quando a pessoa não questiona mais o próprio grupo. Quando aceita qualquer coisa porque “o meu lado” fez. Quando passa a enxergar virtudes em tudo que vem dos seus e defeitos em tudo que vem dos outros.

Isso pode acontecer à esquerda. Pode acontecer à direita. Pode acontecer entre liberais, conservadores, progressistas, religiosos, ateus, nacionalistas, revolucionários ou qualquer outro agrupamento humano. O problema não está necessariamente na bandeira. Está na incapacidade de questioná-la.

A pobreza que não aparece nas estatísticas

Existe uma pobreza que não aparece nos indicadores econômicos. É a pobreza de quem perdeu a capacidade de imaginar. De questionar. De criar. De discordar. De inventar. De produzir conhecimento. De enxergar possibilidades onde todo mundo só consegue enxergar obstáculos.

A humanidade avançou porque algumas pessoas tiveram coragem de pensar diferente. Foram artistas. Cientistas. Filósofos. Escritores. Inventores. Trabalhadores. Professores. Pesquisadores. Gente que muitas vezes estava muito distante dos centros tradicionais de poder.

Algumas das maiores transformações culturais, científicas e tecnológicas nasceram justamente nas margens. Foram revoluções culturais, artísticas, científicas e tecnológicas.

Por isso, talvez uma das maiores tragédias do nosso tempo seja confundir conhecimento com informação. Temos informação demais. E, paradoxalmente, podemos estar pensando, filosofando e praticando a ética cada vez menos. Recebemos milhares de opiniões por dia. Poucas delas nos convidam verdadeiramente a pensar.

A velha promessa que volta a cada eleição

O político promete. Promete muito. Promete emprego, segurança, saúde, educação, desenvolvimento, justiça, prosperidade. Promete mudança. Promete continuidade. Promete reconstrução. Promete futuro.

Depois da eleição chega o 'novo governo'. Chega um 'novo parlamento'. E chega também a realidade, assim como as contas e boletos não param de chegar todo final de mês. Assim como o mês após mês os alimentos estão mais caros, o custo de vida mais alto e a qualidade de vida descendo ladeira abaixo.

Algumas promessas são cumpridas. Outras são parcialmente realizadas. Muitas desaparecem no caminho. Elas e eles simplesmente esquecem. Não ligam para a gente.

Quatro anos depois, porém, a máquina começa novamente. Novas imagens ou as mesmas de sempre com um ar de algo diferente. Novos vídeos com antigos projetos que já fazem parte do nosso dia a dia mas pela vaidade, novamente o político precisa atribuir a ele ou a ela a obrigação do trabalho que fez, contratado através do voto direto que depositamos nas urnas.

Tudo é novo velho ao mesmo tempo. Novas pesquisas, mas com cenários muito parecidos aos de corridas eleitorais anteriores. Novos slogans, ou apenas os velhos slogans repaginados. Novas promessas, que às vezes de novas não tem nada porque apenas estão reafirmando promessas antigas que nunca saíram do campo das ideias.

E nós somos novamente hábilmente levados a acreditar em toda essa pantomima. Talvez por isso uma democracia madura precise de algo muito mais importante do que entusiasmo eleitoral: memória.

Memória do que foi prometido. Memória do que foi realizado. Memória de quem estava no poder. Memória de quem votou em quê. Memória de quem apareceu apenas durante a campanha. Memória para não confundir propaganda com realidade. Memória daquele político que arrebanhou cabos eleitorais e fez com que todos trabalhassem de graça para ele.

E se a eleição começasse dentro de nós?

Existe uma velha tentação humana de procurar salvadores. O salvador da pátria aquele que vem para resolver todos os problemas como que não passa de mágica. Esperamos alguém que venha resolver o país. Resolver a economia. Resolver a violência e a segurança pública. Resolver a desigualdade. Resolver a própria política.

Mas nenhuma democracia deveria depender de um salvador. Política inclusive não é religião. Talvez o primeiro exercício democrático seja muito mais simples — e justamente por isso muito mais difícil: pensar por conta própria.

Não votar em fulano, beltrana ou sicrana, porque todo mundo está votando. Não odiar porque mandaram odiar. Não amar porque vídeos produzidos por profissionais mestres da teoria da telegramaturgia fazem você pensar que ama. Ame primeiro a você mesmo, a você mesma e a sua família, ame seu círculo mais íntimo de amigos e amigas, e jamais com quem te ama de verdade por causa dessa gente que só aparece de dois em dois anos.

Não transforme político em ídolo. Não torne seu adversário um inimigo. Seja maduro. Seja madura. Não confunda pesquisa eleitoral com verdade. As pesquisas refletem apenas aquele momento no cenário político e são feitas por amostragem.

Não confunda popularidade com competência, nem discurso com realização. E, principalmente, não entregue jamais sua própria consciência a uma campanha publicitária.

Uma pergunta que vale mais do que qualquer slogan

Antes de qualquer eleição, talvez devêssemos fazer uma pergunta que raramente aparece nos santinhos, nos debates ou nas redes sociais: que tipo de sociedade queremos construir quando as eleições já tiverem passado?

Porque a democracia não termina quando o voto é depositado. Ela continua no dia seguinte. Na fiscalização. Na cobrança. Na imprensa. Nas universidades. Nos sindicatos. Nas empresas. Nas comunidades. Nas famílias. Nas ruas. Na ciência. Na cultura. Na arte.

E, sobretudo, na capacidade de discordar sem transformar o outro em inimigo. A política deveria ser instrumento da sociedade. Quando a sociedade passa a existir em função da política, alguma coisa se inverteu. É como disse o líder da Igreja católica outro dia, o Papa Leão: o mundo está de ponta cabeça.

Talvez seja justamente essa inversão que precisamos começar a questionar. Democracia é muito mais do que apertar um botão a cada dois ou quatro anos. É saber que se esses políticos foram eleitos através do nosso voto direto, ele só podem recuperar ou ganhar a nossa confiança de novo se realmente cumpriram o que prometeram. Porque o voto ou não voto também tem a capacidade e o poder de demitir políticos.

É importante fiscalizar, lembrar, questionar. Se informar e ter opinião própria para poder mudar quando os fatos exigirem. Trata-se de não permitir que ninguém pense por nós.

O povo precisa manter além da consciência coletiva, a consciência individual desperta. E nas vésperas dos pleitos eleitorais desconfiar inclusive daqueles em quem confiamos. Nenhum político merece devoção, nenhum ser humano deve ser objeto de devoção. Ou a gente confia ou não confia. E fazer o quê quando tem a confiança traída?

Nenhum cidadão, nenhuma cidadã, deveria precisar pertencer a uma claque para exercer plenamente sua cidadania. Porque no final das contas, talvez a grande revolução não seja simplesmente trocar um político por outro.

Talvez o que falta seja mudarmos a relação que estabelecemos com o próprio poder. Como acontece no caso desse texto. Porque enquanto continuarmos procurando salvadores da pátria, sempre haverá alguém para se apresentar como tal.

E enquanto aceitarmos ser apenas torcida, sempre haverá alguém disposto a transformar nossa paixão, nossas anseios mais íntimos e hábitos, medidos por algoritmos infalíveis, em voto. A liberdade começa naquele instante silencioso em que o indivíduo decide pensar por si mesmo e consigo mesmo, informado mas com opinião própria como garante o livre pensar.

terça-feira, 4 de agosto de 2026

Psicologia, espiritualidade e ciência da religião: Phillipe Bandeira de Mello compartilha cinco décadas de pesquisa

Discípulo de Nise da Silveira, psicólogo carioca integra Psicologia Junguiana, terapias integrativas, estudos da religião e pesquisas sobre estados ampliados de consciência

Há mais de meio século se dedicando ao estudo da mente humana, da ciência da religião e dos estados ampliados de consciência, o psicólogo carioca Phillipe Bandeira de Mello consolidou trajetória singular ao integrar a Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung às terapias integrativas, às pesquisas sobre espiritualidade e ao estudo de substâncias psicodélicas. Discípulo da psiquiatra Nise da Silveira, referência mundial na humanização do tratamento em saúde mental, ele continua desenvolvendo pesquisas, cursos e atividades voltadas à compreensão da psiquê e da consciência humana.

Em entrevista exclusiva ao blog, Phillipe apresentou alguns dos projetos que mobilizam sua atuação profissional no momento. Entre eles estão pesquisas envolvendo terapias assistidas por psicodélicos, terapia regressiva e estudos sobre experiências de vida passada, além do trabalho desenvolvido em uma comunidade espiritual de caráter multirreligioso, integrando práticas espirituais de diversas religiões.

Pesquisa e novas abordagens terapêuticas

Segundo o psicólogo, uma das áreas que mais têm despertado interesse atualmente é o avanço das terapias assistidas por psicodélicos, tema que vem sendo objeto de pesquisas científicas em diversos países.

"Faço parte dos quatro grupos. Hoje tem a terapia assistida por psicodélicos, que é uma das coisas. Eu trabalho com terapia regressiva, terapia de vida passada. A gente tem uma casa de ayahuasca bem revolucionária, multirreligiosa, com uma parte de Umbanda, mas muitas outras dimensões de estudos."

De acordo com Phillipe Bandeira de Mello, sua proposta reúne conhecimentos da psicologia, da espiritualidade e da ciência da religião em um ambiente aberto ao diálogo entre diferentes tradições religiosas e terapêuticas.

Novo livro em preparação

Durante a entrevista, o pesquisador revelou ainda que participa de um novo livro organizado pela Associação de Psicodélicos do Brasil, reunindo terapeutas e pesquisadores brasileiros da área.

"Isso - o trabalho - vai se transformar em livro, que vai ser publicado pela Associação de Psicodélicos do Brasil. Tem um artigo de vários terapeutas e pesquisadores, e tem um artigo meu nesse livro novo."

A publicação deverá apresentar diferentes perspectivas sobre o uso terapêutico de substâncias psicodélicas, tema que vem ganhando espaço no debate científico internacional. Phillipe já possui vários trabalhos de sucesso publicados em livros disponíveis tanto em formato físico quanto digital.

Integração entre ciência e espiritualidade

Ao longo de sua carreira, Phillipe Bandeira de Mello desenvolveu uma abordagem interdisciplinar que aproxima Psicologia Junguiana, psicologia transpessoal, terapias integrativas e ciência da religião. Além da atuação clínica, ministra cursos, palestras e formações voltadas a profissionais da saúde, terapeutas e pesquisadores interessados nos processos simbólicos da consciência.

Seu trabalho procura estabelecer pontes entre conhecimento científico, experiências subjetivas e tradições espirituais, mantendo o foco na ampliação da compreensão sobre a mente humana e seus potenciais de transformação.

Psicodélicos, os enteógenos

Phillipe explica sobre os psicodélicos, ou enteógenos, substâncias psicoativas de origem vegetal que quando usadas em microdoses podem servir como antidepressivo, além de outras finalidades para o tratamento da psiquê humana.

"E os psicodélicos estão entrando também no SUS, a terapia psicodélica, só que estão estudando como é que faz, porque a pessoa tem que ter uma boa qualificação para fazer esse tipo de trabalho, a terapia assistida por psicodélicos, tem isso também. Eu acho muito interessante as minidoses, como tem para esse projeto, está no meu livro lá desde mais de 20 anos atrás, a ideia de, porque as drogas psiquiátricas têm muitos efeitos colaterais, então uma investigação do uso dos enteógenos, que são essas plantas de origem milenar, usadas por seres humanos há muitos milênios, e que são assim, muito superiores e bem mais inócuos, em relação ao ser humano, aí você tem, disso aí você tem as minidoses dos cogumelos, tem o canabidiol, e tem um gel de ayahuasca também, que tem o nosso irmão que faz o nosso daime. O nosso ayahuasca, que ele prepara, é uma medicina muito interessante, um pouquinho, uma colherinha e já funciona como antidepressivo, como estabilizador do humor, várias coisas, ansiolítico, é isso, graças a Deus, então o Brasil está primeiro mundo aí nessa, na aplicação, no uso desses enteógenos - como a gente chama, eu tenho livro publicado, e isso eu proponho, tinha proposto isso há quase 30 anos atrás."

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sábado, 1 de agosto de 2026

Pesquisa sobre abuso de direitos humanos feita pela inteligência artificial da OpenIA

Quando o Chat GPT é usado para pesquisa de possíveis cenários que violam direitos humanos me parece muito acertado, pois segundo me consta foi inserido na base de dados dele toda a legislação brasileira, sempre atualizada. Não sou advogado, sou leigo, mas tenho uma curiosidade investigativa. Sou um jornalista cidadão.

A pergunta que fiz foi: "Segundo a lei brasileira, quem manipula ou tenta obrigar a manipular uma pessoa com alguma espécie de transtorno mental a fazer coisas que não deseja, pode pegar pena de prisão, multa. O que diz a lei?"

Muitas pessoas sofrem isso às vezes apenas por hábitos como beber e fumar, um casal que quando namora incomoda os vizinhos, usuários de cannabis e qualquer outro tipo de substância lícita ou ilícita que altera os sentidos. Tipo criminosos que abordam idosos e idosas em caixas eletrônicos, fazendo entregar dinheiro aos golpistas sem perceber.

Bullying praticado de forma reiterada contra a pessoa vulnerável, família atípica, que também podem envolver cenários de ódio político, não é brincadeira. Como sou portador de deficiência e também segundo perícia refiro uma "certa labilidade emocional e preciso de atualização." Inclusive por isso uso muito a inteligência artificial para trabalhar e editar textos, resolvi publicar aqui no blog. 

Mas não julgue, para não ser julgado. Cabe aos agentes públicos investigar e à corte designada julgar. Reproduzo abaixo apenas o resultado da pesquisa a título de curiosidade jornalística:

"Quando alguém se aproveita da vulnerabilidade de uma pessoa com transtorno mental — seja TEA, deficiência intelectual, esquizofrenia, transtorno bipolar, depressão grave ou outro quadro que reduza sua capacidade de resistência ou discernimento em determinada situação — o ordenamento jurídico brasileiro oferece diversos instrumentos de proteção.

Os principais cenários são:

Pressão psicológica para fazer algo contra a vontade

Se alguém insiste, manipula, ameaça, humilha ou isola a vítima até que ela faça algo que não desejava, podem estar configurados:

Constrangimento ilegal (art. 146 do Código Penal).

Ameaça (art. 147).

Perseguição (stalking) (art. 147-A), se a pressão for reiterada.

Se houver violência física ou grave ameaça, a situação se torna ainda mais grave.

2. Manipulação para obter dinheiro ou patrimônio

Quando o autor convence ou pressiona a vítima vulnerável a:

  • fazer PIX;
  • assinar contratos;
  • vender bens;
  • contrair empréstimos;
  • entregar senhas;
  • doar patrimônio,
  • podem surgir crimes como:
  • estelionato;
  • extorsão;
  • apropriação indébita;
  • falsidade documental, dependendo da forma empregada.

Além da responsabilização criminal, normalmente cabe indenização pelos danos causados.

3. Manipulação para praticar crimes

Se alguém utiliza a vulnerabilidade psicológica da vítima para induzi-la a cometer delitos, a situação é especialmente grave.

O manipulador pode responder como:

  • autor intelectual;
  • coautor;
  • partícipe, conforme os arts. 29 e seguintes do Código Penal.

Ou seja, quem usa outra pessoa vulnerável como instrumento não fica isento de responsabilidade.

4. Abuso de pessoa com deficiência

Quando a vítima é considerada pessoa com deficiência na forma da Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência, existem proteções penais específicas.

O Estatuto prevê crimes relacionados à exploração, discriminação, abandono e outras formas de abuso contra pessoas com deficiência, podendo haver agravamento da situação quando a vulnerabilidade é explorada deliberadamente.

5. Violência psicológica

A violência não precisa ser física.

Ela pode ocorrer por meio de:

  • chantagem emocional;
  • isolamento social;
  • manipulação constante;
  • gaslighting (fazer a vítima duvidar da própria percepção da realidade);
  • intimidação;
  • controle da rotina;
  • controle financeiro;
  • humilhação sistemática.

Dependendo do contexto, essas condutas podem caracterizar crimes, gerar medidas protetivas e fundamentar ações indenizatórias.

6. Induzir ao suicídio ou à automutilação

Se a manipulação leva a vítima à automutilação ou ao suicídio, pode incidir o art. 122 do Código Penal, que pune quem:

  • induz;
  • instiga;
  • auxilia
  • a prática desses atos, com penas que aumentam quando a vítima é considerada vulnerável.

7. Responsabilidade civil

Mesmo quando a conduta não se enquadra perfeitamente em um tipo penal, ela pode gerar responsabilidade civil.

Quem causa dano psicológico, moral, patrimonial ou existencial pode ser condenado a:

  • indenizar danos morais;
  • reparar prejuízos materiais;
  • restituir valores obtidos indevidamente;
  • cessar imediatamente a conduta lesiva.

Quando a vulnerabilidade agrava a responsabilidade

Os tribunais costumam analisar fatores como:

  • conhecimento do transtorno pela outra pessoa;
  • relação de confiança (amizade, parentesco, líder religioso, cuidador, superior hierárquico etc.);
  • dependência emocional;
  • isolamento da vítima;
  • repetição da manipulação;
  • obtenção de vantagem pelo manipulador.

Quanto mais evidente for que o autor sabia da condição da vítima e explorou essa vulnerabilidade para obter obediência ou vantagem, maior tende a ser a gravidade jurídica da conduta.

Se você estiver pensando em um caso envolvendo assédio psicológico contínuo contra uma pessoa neurodivergente (como uma pessoa com TEA) para levá-la a agir contra sua própria vontade, é possível analisar quais crimes e medidas judiciais podem ser aplicáveis com base nos fatos específicos, pois a combinação de condutas (coação, perseguição, fraude, violência psicológica, entre outras) faz diferença no enquadramento legal."

Obs.: Segundo o ChatGPT a pesquisa foi realizada com base na Constituição Federal de 1988, código civil e código penal brasileiro. Só você que não sabe jurisdiquez, teve dificuldade de aprendizado, não é tão culto e inteligente quanto esses que se acham sabe como é importante o uso dessa ferramenta. 

Penso o que a inteligência artificial é simplesmente incrível. Inclusive acho que no Brasil deveria ser permitido o uso dela pelo cidadãos para se representar em ações judiciais como já acontece nos Estados Unidos com o e-lawyer (advogado eletrônico).

Só quem já precisou da justiça gratuita e de enfrentar fila para conseguir advogado, que represente gratuitamente, sabe como é difícil. Os ricos e poderosos tem dinheiro e são mais rápidos nisso. Importante frisar que a Inteligência Artificial não substitui consultar um profissional com registro na Ordem dos advogados do Brasil.

sábado, 25 de julho de 2026

Marco Rubio, Marx, Bakunin e Russell: um debate que atravessa dois séculos

Quando a crítica ao marxismo une um anarquista, um filósofo liberal e um secretário de Estado norte-americano, percebe-se que esse debate é muito mais antigo do que a Guerra Fria e continua influenciando fortemente a política mundial

 
Quando a crítica ao marxismo une um anarquista, um filósofo liberal e um secretário de Estado norte-americano, percebe-se que esse debate é muito mais antigo do que a Guerra Fria e continua influenciando fortemente a política mundial

Há um curioso equívoco que se repete no debate público contemporâneo: imaginar que toda crítica ao marxismo nasceu na direita política. Não nasceu.

Muito antes de o secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, voltar a colocar o marxismo no centro do debate internacional, as críticas mais profundas à teoria de Karl Marx já eram formuladas por pensadores que compartilhavam da indignação contra as injustiças do capitalismo, mas divergiam profundamente dos caminhos propostos para superá-las.

Entre eles estava Mikhail Bakunin, revolucionário russo e um dos fundadores do anarquismo moderno. Contemporâneo de Marx, Bakunin rompeu com ele por acreditar que a chamada "ditadura do proletariado" jamais conduziria à liberdade. Ao contrário, produziria uma nova elite política encarregada de governar em nome do povo.

Seu alerta atravessou gerações:

"Todo Estado, mesmo quando nasce em nome do povo, tende a transformar-se em instrumento de dominação."

Para Bakunin, substituir a burguesia por uma burocracia revolucionária não significava emancipação. Apenas mudava quem ocupava o topo da pirâmide do poder.

Russell: uma crítica sem dogmas

Décadas mais tarde, Bertrand Russell chegou a conclusões semelhantes por uma estrada completamente diferente.

Filósofo, matemático e Prêmio Nobel de Literatura, Russell nunca foi um defensor do capitalismo irrestrito. Reconhecia a genialidade intelectual de Karl Marx ao denunciar a exploração do trabalhador durante a Revolução Industrial. Entretanto, considerava que o marxismo havia adquirido características de uma religião política, onde o partido substituía a consciência individual e a crítica passava a ser tratada como heresia.

Após visitar a União Soviética em 1920, Russell voltou profundamente decepcionado. Via naquele modelo um sistema incapaz de preservar a liberdade intelectual, elemento que considerava indispensável para qualquer sociedade verdadeiramente democrática.

Marco Rubio e uma crítica contemporânea

Mais de um século depois da ruptura entre Marx e Bakunin, Marco Rubio resgata parte dessa tradição crítica.

Em seus pronunciamentos, o secretário de Estado norte-americano sustenta que ideologias inspiradas no marxismo tendem a sufocar a liberdade individual, o mérito, a criatividade, a excelência e a iniciativa pessoal, substituindo-as por estruturas burocráticas e pelo controle político da sociedade.

Concorde-se ou não com Rubio, sua argumentação não surgiu do nada. Ela encontra ecos históricos nas advertências formuladas por Bakunin e, sob outra perspectiva filosófica, por Bertrand Russell.

Isso demonstra que o debate sobre o marxismo nunca pertenceu exclusivamente à direita contra a esquerda. Durante mais de 150 anos, ele foi travado também dentro da própria tradição socialista.

E a China?

Talvez seja justamente a China contemporânea quem mais desafie todas essas teorias.

Governada por um Partido Comunista, a segunda maior economia do planeta tornou-se também uma das maiores potências industriais, tecnológicas e financeiras do século XXI.

Empresas privadas chinesas disputam a liderança mundial em inteligência artificial, veículos elétricos, telecomunicações, comércio eletrônico e tecnologia de ponta. Todos os anos, centenas de empresários chineses figuram entre as maiores fortunas do planeta na lista da revista Forbes.

A pergunta torna-se inevitável:

Se um país comunista produz bilionários, gigantes privados e um mercado altamente competitivo, continua sendo comunista ou criou uma nova forma de capitalismo administrado pelo Estado?

Não existe consenso entre economistas, filósofos ou cientistas políticos.

As perguntas continuam vivas

Karl Marx acreditava que as contradições do capitalismo levariam inevitavelmente à sua superação.

Bakunin temia que a revolução produzisse uma nova classe dominante.

Bertrand Russell advertia que qualquer doutrina transformada em verdade absoluta acabaria sufocando a liberdade.

Marco Rubio afirma que o marxismo continua representando uma ameaça às sociedades abertas e à valorização do mérito individual.

Quatro personagens. Quatro épocas diferentes. Quatro visões que, embora distintas, se cruzam em um ponto essencial: a permanente disputa entre liberdade, igualdade, poder e natureza humana.

Passados quase dois séculos da publicação do Manifesto Comunista, talvez a pergunta mais importante já não seja quem venceu o debate.

Talvez seja outra.

As ideias sobreviveram ao tempo porque continuam tentando responder à mesma questão: como construir uma sociedade mais justa sem sacrificar a liberdade?

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