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domingo, 9 de agosto de 2026

Quando a política vira torcida, quem perde é o cidadão

Em tempos de polarização permanente, talvez seja hora de olhar para além dos partidos, dos candidatos e das disputas eleitorais e perguntar por que continuamos entregando nossa consciência a quem promete tanto e entrega tão pouco

Em tempos de polarização permanente, talvez seja hora de olhar para além dos partidos, dos candidatos e das disputas eleitorais e perguntar por que continuamos entregando nossa consciência a quem promete tanto e entrega tão pouco

Existe alguma coisa estranha acontecendo com a política mundial e aqui no Brasil não é diferente. A cada eleição, somos convidados a acreditar novamente. A acreditar que agora vai. Que desta vez será diferente. Que finalmente apareceu alguém capaz de colocar o país nos trilhos, consertar a economia, acabar com a corrupção, melhorar a saúde, resolver a segurança, criar empregos, promover mais programas sociais e liberdades individuais, gente que promete mudar tudo - mas não muda nada.

Mudam os rostos. Mudam as cores. Mudam os slogans. Mas, depois de algum tempo, a vida real volta a bater à porta. E permanece aquela pergunta que quase nunca cabe na propaganda eleitoral: o que realmente mudou na vida das pessoas?

Não é uma pergunta apenas brasileira. Basta observar o mundo para perceber que a crise de confiança na política atravessa fronteiras, ideologias e sistemas de governo. Presidentes entram e saem. Parlamentos mudam. Partidos trocam de discurso. Novos movimentos surgem prometendo romper com tudo o que existia antes.

Mas nós do povo continuamos, assim como servidores públicos que entra governo e sai governo continua trabalhando. E, ainda assim, milhões continuam vivendo sob a mesma velha sensação de abandono. E cada vez mais sentimos que não se trata apenas de sensação, o abandono é real. Esquerda, direita e centro, dois lados e um contrapeso de uma mesma moeda.

Quando a política passou a se parecer com futebol

Talvez uma das coisas mais perigosas da política contemporânea seja justamente a sua transformação em espetáculo. O jogo político está sendo mudado para a sociedade do espetáculo. Eleição passou a parecer competição entre times de futebol. Os grandes players jogam ganhando milhões enquanto nós estamos na posição do gramado, cortado baixo e parede para que está gente jogue sobre as nossas cabeças.

Meu candidato contra o seu. Minha esquerda contra sua direita. Meu grupo contra o seu grupo. Minha verdade contra a sua verdade. Com essa forma tosca e pequena de pensar, o adversário deixa de ser alguém que pensa diferente e passa a ser tratado como inimigo.

É nesse momento que a política perde uma de suas características mais importantes: a capacidade de produzir reflexão e de contribuir para uma democracia realmente saudável.

Uma democracia saudável deveria permitir que alguém dissesse: “Votei em você, mas não concordo com isso”. Hoje, muitas vezes, acontece o contrário. O eleitor passa a defender o político como quem defende um clube de futebol, como o machismo tóxico que encarcera a companheira, agredindo e tolhendo até o direito de ir e vir da mulher.

E o político agradece. Porque um cidadão que pensa pode mudar de opinião. Um torcedor, não. Enquanto os jogadores de futebol mudam de times ganhando milhões, políticos mudam de partido buscando uma prancha para chegar às urnas e se perpetuar no poder, nós do povo vemos os preços, os juros, os impostos subindo de maneira astronômica.

A polarização também virou produto

Existe uma verdadeira indústria da polarização. Ela movimenta campanhas, publicidade, redes sociais, consultorias, canais de comunicação e, principalmente, atenção. Se olharmos um pouco para o passado não muito distante e estudarmos o caso da Cambridge Analytica, do Steve Bannon, podemos perceber muito do que está sendo feito.

Quanto mais indignado o cidadão fica, mais tempo permanece conectado. Quanto mais medo sente, mais compartilha dos seus temores e receios. Quanto mais odeia o adversário, menos disposição encontra para ouvi-lo. Assim acaba a diferença, o contraditório, a opinião própria. É a população se transformando em gado. E quanto menos se escuta o contraditório, mais fácil se torna para políticos hábeis e inescrupulosos conduzir as massas.

Não é preciso imaginar uma conspiração universal para entender o mecanismo, a máquina de moer gente. A política aprendeu algumas das melhores técnicas da publicidade.

Identifica públicos. Mede comportamentos. Descobre inseguranças. Escolhe palavras. Cria personagens. Fabrica inimigos. Produz slogans. E vende esperança. Quando necessário, também vende medo, usando a pior e mais nojenta forma de política que existe hoje no mundo: a necropolítica.

O poder que nunca parece ter fim

Há outra questão que deveria nos incomodar, entretanto assusta ver tão pouca gente ligada nessa questão. Por que a política parece ter desenvolvido uma espécie de carreira permanente? O sujeito entra na política. Depois se reelege. Ocupa outro cargo. Retorna. Apoia alguém. Volta novamente. Muda de posição. Troca de partido. Reaparece. Coloca filhos e parentes como candidatos e candidatas.

As fotografias mudam, mas os personagens continuam circulando dentro da mesma estrutura de poder. E, a cada eleição, somos apresentados à mesma sensação de urgência: precisamos escolher determinado candidato porque o outro é pior.

Somos colocados em cheque por essa gente que na verdade não nos representa, nos obriga a escolher eles como representantes usando toda a espécie de chantagem política e emocional.

É aí que aparece outra pegadinha, o chamado voto útil. O voto útil pode ser uma decisão perfeitamente legítima quando nasce da consciência do eleitor. O problema começa quando o cidadão deixa de perguntar em quem realmente acredita e passa a votar apenas em quem lhe dizem que pode vencer. Quando isso acontece, a eleição deixa de ser escolha e passa a ser cálculo. Se torna eu contra ele e não todos juntos contra o problema.

O cidadão não pergunta mais: “Quem representa melhor aquilo que penso?” Passa a perguntar: “Quem tem chance de ganhar?” E talvez essa diferença seja muito maior do que aparenta. A maior parte do jogo política é feita nos bastidores e nós, reles mortais, não ficamos sabendo do que acontece por trás do que nos é mostrado pela grande mídia.

O perigo de pensar em bloco

Existe uma ideia filosófica antiga, presente em diferentes tradições do pensamento, que continua extremamente atual: o indivíduo pode perder sua própria capacidade de pensar quando se dissolve completamente dentro da multidão. Não se trata de condenar a sociedade, os movimentos coletivos ou a ação política organizada. As grandes transformações humanas quase sempre dependeram de pessoas trabalhando juntas.

O problema começa quando o indivíduo deixa de pensar e passa apenas a repetir. Quando a pessoa não questiona mais o próprio grupo. Quando aceita qualquer coisa porque “o meu lado” fez. Quando passa a enxergar virtudes em tudo que vem dos seus e defeitos em tudo que vem dos outros.

Isso pode acontecer à esquerda. Pode acontecer à direita. Pode acontecer entre liberais, conservadores, progressistas, religiosos, ateus, nacionalistas, revolucionários ou qualquer outro agrupamento humano. O problema não está necessariamente na bandeira. Está na incapacidade de questioná-la.

A pobreza que não aparece nas estatísticas

Existe uma pobreza que não aparece nos indicadores econômicos. É a pobreza de quem perdeu a capacidade de imaginar. De questionar. De criar. De discordar. De inventar. De produzir conhecimento. De enxergar possibilidades onde todo mundo só consegue enxergar obstáculos.

A humanidade avançou porque algumas pessoas tiveram coragem de pensar diferente. Foram artistas. Cientistas. Filósofos. Escritores. Inventores. Trabalhadores. Professores. Pesquisadores. Gente que muitas vezes estava muito distante dos centros tradicionais de poder.

Algumas das maiores transformações culturais, científicas e tecnológicas nasceram justamente nas margens. Foram revoluções culturais, artísticas, científicas e tecnológicas.

Por isso, talvez uma das maiores tragédias do nosso tempo seja confundir conhecimento com informação. Temos informação demais. E, paradoxalmente, podemos estar pensando, filosofando e praticando a ética cada vez menos. Recebemos milhares de opiniões por dia. Poucas delas nos convidam verdadeiramente a pensar.

A velha promessa que volta a cada eleição

O político promete. Promete muito. Promete emprego, segurança, saúde, educação, desenvolvimento, justiça, prosperidade. Promete mudança. Promete continuidade. Promete reconstrução. Promete futuro.

Depois da eleição chega o 'novo governo'. Chega um 'novo parlamento'. E chega também a realidade, assim como as contas e boletos não param de chegar todo final de mês. Assim como o mês após mês os alimentos estão mais caros, o custo de vida mais alto e a qualidade de vida descendo ladeira abaixo.

Algumas promessas são cumpridas. Outras são parcialmente realizadas. Muitas desaparecem no caminho. Elas e eles simplesmente esquecem. Não ligam para a gente.

Quatro anos depois, porém, a máquina começa novamente. Novas imagens ou as mesmas de sempre com um ar de algo diferente. Novos vídeos com antigos projetos que já fazem parte do nosso dia a dia mas pela vaidade, novamente o político precisa atribuir a ele ou a ela a obrigação do trabalho que fez, contratado através do voto direto que depositamos nas urnas.

Tudo é novo velho ao mesmo tempo. Novas pesquisas, mas com cenários muito parecidos aos de corridas eleitorais anteriores. Novos slogans, ou apenas os velhos slogans repaginados. Novas promessas, que às vezes de novas não tem nada porque apenas estão reafirmando promessas antigas que nunca saíram do campo das ideias.

E nós somos novamente hábilmente levados a acreditar em toda essa pantomima. Talvez por isso uma democracia madura precise de algo muito mais importante do que entusiasmo eleitoral: memória.

Memória do que foi prometido. Memória do que foi realizado. Memória de quem estava no poder. Memória de quem votou em quê. Memória de quem apareceu apenas durante a campanha. Memória para não confundir propaganda com realidade. Memória daquele político que arrebanhou cabos eleitorais e fez com que todos trabalhassem de graça para ele.

E se a eleição começasse dentro de nós?

Existe uma velha tentação humana de procurar salvadores. O salvador da pátria aquele que vem para resolver todos os problemas como que não passa de mágica. Esperamos alguém que venha resolver o país. Resolver a economia. Resolver a violência e a segurança pública. Resolver a desigualdade. Resolver a própria política.

Mas nenhuma democracia deveria depender de um salvador. Política inclusive não é religião. Talvez o primeiro exercício democrático seja muito mais simples — e justamente por isso muito mais difícil: pensar por conta própria.

Não votar em fulano, beltrana ou sicrana, porque todo mundo está votando. Não odiar porque mandaram odiar. Não amar porque vídeos produzidos por profissionais mestres da teoria da telegramaturgia fazem você pensar que ama. Ame primeiro a você mesmo, a você mesma e a sua família, ame seu círculo mais íntimo de amigos e amigas, e jamais com quem te ama de verdade por causa dessa gente que só aparece de dois em dois anos.

Não transforme político em ídolo. Não torne seu adversário um inimigo. Seja maduro. Seja madura. Não confunda pesquisa eleitoral com verdade. As pesquisas refletem apenas aquele momento no cenário político e são feitas por amostragem.

Não confunda popularidade com competência, nem discurso com realização. E, principalmente, não entregue jamais sua própria consciência a uma campanha publicitária.

Uma pergunta que vale mais do que qualquer slogan

Antes de qualquer eleição, talvez devêssemos fazer uma pergunta que raramente aparece nos santinhos, nos debates ou nas redes sociais: que tipo de sociedade queremos construir quando as eleições já tiverem passado?

Porque a democracia não termina quando o voto é depositado. Ela continua no dia seguinte. Na fiscalização. Na cobrança. Na imprensa. Nas universidades. Nos sindicatos. Nas empresas. Nas comunidades. Nas famílias. Nas ruas. Na ciência. Na cultura. Na arte.

E, sobretudo, na capacidade de discordar sem transformar o outro em inimigo. A política deveria ser instrumento da sociedade. Quando a sociedade passa a existir em função da política, alguma coisa se inverteu. É como disse o líder da Igreja católica outro dia, o Papa Leão: o mundo está de ponta cabeça.

Talvez seja justamente essa inversão que precisamos começar a questionar. Democracia é muito mais do que apertar um botão a cada dois ou quatro anos. É saber que se esses políticos foram eleitos através do nosso voto direto, ele só podem recuperar ou ganhar a nossa confiança de novo se realmente cumpriram o que prometeram. Porque o voto ou não voto também tem a capacidade e o poder de demitir políticos.

É importante fiscalizar, lembrar, questionar. Se informar e ter opinião própria para poder mudar quando os fatos exigirem. Trata-se de não permitir que ninguém pense por nós.

O povo precisa manter além da consciência coletiva, a consciência individual desperta. E nas vésperas dos pleitos eleitorais desconfiar inclusive daqueles em quem confiamos. Nenhum político merece devoção, nenhum ser humano deve ser objeto de devoção. Ou a gente confia ou não confia. E fazer o quê quando tem a confiança traída?

Nenhum cidadão, nenhuma cidadã, deveria precisar pertencer a uma claque para exercer plenamente sua cidadania. Porque no final das contas, talvez a grande revolução não seja simplesmente trocar um político por outro.

Talvez o que falta seja mudarmos a relação que estabelecemos com o próprio poder. Como acontece no caso desse texto. Porque enquanto continuarmos procurando salvadores da pátria, sempre haverá alguém para se apresentar como tal.

E enquanto aceitarmos ser apenas torcida, sempre haverá alguém disposto a transformar nossa paixão, nossas anseios mais íntimos e hábitos, medidos por algoritmos infalíveis, em voto. A liberdade começa naquele instante silencioso em que o indivíduo decide pensar por si mesmo e consigo mesmo, informado mas com opinião própria como garante o livre pensar.

terça-feira, 4 de agosto de 2026

Psicologia, espiritualidade e ciência da religião: Phillipe Bandeira de Mello compartilha cinco décadas de pesquisa

Discípulo de Nise da Silveira, psicólogo carioca integra Psicologia Junguiana, terapias integrativas, estudos da religião e pesquisas sobre estados ampliados de consciência

Há mais de meio século se dedicando ao estudo da mente humana, da ciência da religião e dos estados ampliados de consciência, o psicólogo carioca Phillipe Bandeira de Mello consolidou trajetória singular ao integrar a Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung às terapias integrativas, às pesquisas sobre espiritualidade e ao estudo de substâncias psicodélicas. Discípulo da psiquiatra Nise da Silveira, referência mundial na humanização do tratamento em saúde mental, ele continua desenvolvendo pesquisas, cursos e atividades voltadas à compreensão da psiquê e da consciência humana.

Em entrevista exclusiva ao blog, Phillipe apresentou alguns dos projetos que mobilizam sua atuação profissional no momento. Entre eles estão pesquisas envolvendo terapias assistidas por psicodélicos, terapia regressiva e estudos sobre experiências de vida passada, além do trabalho desenvolvido em uma comunidade espiritual de caráter multirreligioso, integrando práticas espirituais de diversas religiões.

Pesquisa e novas abordagens terapêuticas

Segundo o psicólogo, uma das áreas que mais têm despertado interesse atualmente é o avanço das terapias assistidas por psicodélicos, tema que vem sendo objeto de pesquisas científicas em diversos países.

"Faço parte dos quatro grupos. Hoje tem a terapia assistida por psicodélicos, que é uma das coisas. Eu trabalho com terapia regressiva, terapia de vida passada. A gente tem uma casa de ayahuasca bem revolucionária, multirreligiosa, com uma parte de Umbanda, mas muitas outras dimensões de estudos."

De acordo com Phillipe Bandeira de Mello, sua proposta reúne conhecimentos da psicologia, da espiritualidade e da ciência da religião em um ambiente aberto ao diálogo entre diferentes tradições religiosas e terapêuticas.

Novo livro em preparação

Durante a entrevista, o pesquisador revelou ainda que participa de um novo livro organizado pela Associação de Psicodélicos do Brasil, reunindo terapeutas e pesquisadores brasileiros da área.

"Isso - o trabalho - vai se transformar em livro, que vai ser publicado pela Associação de Psicodélicos do Brasil. Tem um artigo de vários terapeutas e pesquisadores, e tem um artigo meu nesse livro novo."

A publicação deverá apresentar diferentes perspectivas sobre o uso terapêutico de substâncias psicodélicas, tema que vem ganhando espaço no debate científico internacional. Phillipe já possui vários trabalhos de sucesso publicados em livros disponíveis tanto em formato físico quanto digital.

Integração entre ciência e espiritualidade

Ao longo de sua carreira, Phillipe Bandeira de Mello desenvolveu uma abordagem interdisciplinar que aproxima Psicologia Junguiana, psicologia transpessoal, terapias integrativas e ciência da religião. Além da atuação clínica, ministra cursos, palestras e formações voltadas a profissionais da saúde, terapeutas e pesquisadores interessados nos processos simbólicos da consciência.

Seu trabalho procura estabelecer pontes entre conhecimento científico, experiências subjetivas e tradições espirituais, mantendo o foco na ampliação da compreensão sobre a mente humana e seus potenciais de transformação.

Psicodélicos, os enteógenos

Phillipe explica sobre os psicodélicos, ou enteógenos, substâncias psicoativas de origem vegetal que quando usadas em microdoses podem servir como antidepressivo, além de outras finalidades para o tratamento da psiquê humana.

"E os psicodélicos estão entrando também no SUS, a terapia psicodélica, só que estão estudando como é que faz, porque a pessoa tem que ter uma boa qualificação para fazer esse tipo de trabalho, a terapia assistida por psicodélicos, tem isso também. Eu acho muito interessante as minidoses, como tem para esse projeto, está no meu livro lá desde mais de 20 anos atrás, a ideia de, porque as drogas psiquiátricas têm muitos efeitos colaterais, então uma investigação do uso dos enteógenos, que são essas plantas de origem milenar, usadas por seres humanos há muitos milênios, e que são assim, muito superiores e bem mais inócuos, em relação ao ser humano, aí você tem, disso aí você tem as minidoses dos cogumelos, tem o canabidiol, e tem um gel de ayahuasca também, que tem o nosso irmão que faz o nosso daime. O nosso ayahuasca, que ele prepara, é uma medicina muito interessante, um pouquinho, uma colherinha e já funciona como antidepressivo, como estabilizador do humor, várias coisas, ansiolítico, é isso, graças a Deus, então o Brasil está primeiro mundo aí nessa, na aplicação, no uso desses enteógenos - como a gente chama, eu tenho livro publicado, e isso eu proponho, tinha proposto isso há quase 30 anos atrás."

Apoie o autor — contribua via PIX: 

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sábado, 1 de agosto de 2026

Pesquisa sobre abuso de direitos humanos feita pela inteligência artificial da OpenIA

Quando o Chat GPT é usado para pesquisa de possíveis cenários que violam direitos humanos me parece muito acertado, pois segundo me consta foi inserido na base de dados dele toda a legislação brasileira, sempre atualizada. Não sou advogado, sou leigo, mas tenho uma curiosidade investigativa. Sou um jornalista cidadão.

A pergunta que fiz foi: "Segundo a lei brasileira, quem manipula ou tenta obrigar a manipular uma pessoa com alguma espécie de transtorno mental a fazer coisas que não deseja, pode pegar pena de prisão, multa. O que diz a lei?"

Muitas pessoas sofrem isso às vezes apenas por hábitos como beber e fumar, um casal que quando namora incomoda os vizinhos, usuários de cannabis e qualquer outro tipo de substância lícita ou ilícita que altera os sentidos. Tipo criminosos que abordam idosos e idosas em caixas eletrônicos, fazendo entregar dinheiro aos golpistas sem perceber.

Bullying praticado de forma reiterada contra a pessoa vulnerável, família atípica, que também podem envolver cenários de ódio político, não é brincadeira. Como sou portador de deficiência e também segundo perícia refiro uma "certa labilidade emocional e preciso de atualização." Inclusive por isso uso muito a inteligência artificial para trabalhar e editar textos, resolvi publicar aqui no blog. 

Mas não julgue, para não ser julgado. Cabe aos agentes públicos investigar e à corte designada julgar. Reproduzo abaixo apenas o resultado da pesquisa a título de curiosidade jornalística:

"Quando alguém se aproveita da vulnerabilidade de uma pessoa com transtorno mental — seja TEA, deficiência intelectual, esquizofrenia, transtorno bipolar, depressão grave ou outro quadro que reduza sua capacidade de resistência ou discernimento em determinada situação — o ordenamento jurídico brasileiro oferece diversos instrumentos de proteção.

Os principais cenários são:

Pressão psicológica para fazer algo contra a vontade

Se alguém insiste, manipula, ameaça, humilha ou isola a vítima até que ela faça algo que não desejava, podem estar configurados:

Constrangimento ilegal (art. 146 do Código Penal).

Ameaça (art. 147).

Perseguição (stalking) (art. 147-A), se a pressão for reiterada.

Se houver violência física ou grave ameaça, a situação se torna ainda mais grave.

2. Manipulação para obter dinheiro ou patrimônio

Quando o autor convence ou pressiona a vítima vulnerável a:

  • fazer PIX;
  • assinar contratos;
  • vender bens;
  • contrair empréstimos;
  • entregar senhas;
  • doar patrimônio,
  • podem surgir crimes como:
  • estelionato;
  • extorsão;
  • apropriação indébita;
  • falsidade documental, dependendo da forma empregada.

Além da responsabilização criminal, normalmente cabe indenização pelos danos causados.

3. Manipulação para praticar crimes

Se alguém utiliza a vulnerabilidade psicológica da vítima para induzi-la a cometer delitos, a situação é especialmente grave.

O manipulador pode responder como:

  • autor intelectual;
  • coautor;
  • partícipe, conforme os arts. 29 e seguintes do Código Penal.

Ou seja, quem usa outra pessoa vulnerável como instrumento não fica isento de responsabilidade.

4. Abuso de pessoa com deficiência

Quando a vítima é considerada pessoa com deficiência na forma da Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência, existem proteções penais específicas.

O Estatuto prevê crimes relacionados à exploração, discriminação, abandono e outras formas de abuso contra pessoas com deficiência, podendo haver agravamento da situação quando a vulnerabilidade é explorada deliberadamente.

5. Violência psicológica

A violência não precisa ser física.

Ela pode ocorrer por meio de:

  • chantagem emocional;
  • isolamento social;
  • manipulação constante;
  • gaslighting (fazer a vítima duvidar da própria percepção da realidade);
  • intimidação;
  • controle da rotina;
  • controle financeiro;
  • humilhação sistemática.

Dependendo do contexto, essas condutas podem caracterizar crimes, gerar medidas protetivas e fundamentar ações indenizatórias.

6. Induzir ao suicídio ou à automutilação

Se a manipulação leva a vítima à automutilação ou ao suicídio, pode incidir o art. 122 do Código Penal, que pune quem:

  • induz;
  • instiga;
  • auxilia
  • a prática desses atos, com penas que aumentam quando a vítima é considerada vulnerável.

7. Responsabilidade civil

Mesmo quando a conduta não se enquadra perfeitamente em um tipo penal, ela pode gerar responsabilidade civil.

Quem causa dano psicológico, moral, patrimonial ou existencial pode ser condenado a:

  • indenizar danos morais;
  • reparar prejuízos materiais;
  • restituir valores obtidos indevidamente;
  • cessar imediatamente a conduta lesiva.

Quando a vulnerabilidade agrava a responsabilidade

Os tribunais costumam analisar fatores como:

  • conhecimento do transtorno pela outra pessoa;
  • relação de confiança (amizade, parentesco, líder religioso, cuidador, superior hierárquico etc.);
  • dependência emocional;
  • isolamento da vítima;
  • repetição da manipulação;
  • obtenção de vantagem pelo manipulador.

Quanto mais evidente for que o autor sabia da condição da vítima e explorou essa vulnerabilidade para obter obediência ou vantagem, maior tende a ser a gravidade jurídica da conduta.

Se você estiver pensando em um caso envolvendo assédio psicológico contínuo contra uma pessoa neurodivergente (como uma pessoa com TEA) para levá-la a agir contra sua própria vontade, é possível analisar quais crimes e medidas judiciais podem ser aplicáveis com base nos fatos específicos, pois a combinação de condutas (coação, perseguição, fraude, violência psicológica, entre outras) faz diferença no enquadramento legal."

Obs.: Segundo o ChatGPT a pesquisa foi realizada com base na Constituição Federal de 1988, código civil e código penal brasileiro. Só você que não sabe jurisdiquez, teve dificuldade de aprendizado, não é tão culto e inteligente quanto esses que se acham sabe como é importante o uso dessa ferramenta. 

Penso o que a inteligência artificial é simplesmente incrível. Inclusive acho que no Brasil deveria ser permitido o uso dela pelo cidadãos para se representar em ações judiciais como já acontece nos Estados Unidos com o e-lawyer (advogado eletrônico).

Só quem já precisou da justiça gratuita e de enfrentar fila para conseguir advogado, que represente gratuitamente, sabe como é difícil. Os ricos e poderosos tem dinheiro e são mais rápidos nisso. Importante frisar que a Inteligência Artificial não substitui consultar um profissional com registro na Ordem dos advogados do Brasil.

sábado, 25 de julho de 2026

Marco Rubio, Marx, Bakunin e Russell: um debate que atravessa dois séculos

Quando a crítica ao marxismo une um anarquista, um filósofo liberal e um secretário de Estado norte-americano, percebe-se que esse debate é muito mais antigo do que a Guerra Fria e continua influenciando fortemente a política mundial

 
Quando a crítica ao marxismo une um anarquista, um filósofo liberal e um secretário de Estado norte-americano, percebe-se que esse debate é muito mais antigo do que a Guerra Fria e continua influenciando fortemente a política mundial

Há um curioso equívoco que se repete no debate público contemporâneo: imaginar que toda crítica ao marxismo nasceu na direita política. Não nasceu.

Muito antes de o secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, voltar a colocar o marxismo no centro do debate internacional, as críticas mais profundas à teoria de Karl Marx já eram formuladas por pensadores que compartilhavam da indignação contra as injustiças do capitalismo, mas divergiam profundamente dos caminhos propostos para superá-las.

Entre eles estava Mikhail Bakunin, revolucionário russo e um dos fundadores do anarquismo moderno. Contemporâneo de Marx, Bakunin rompeu com ele por acreditar que a chamada "ditadura do proletariado" jamais conduziria à liberdade. Ao contrário, produziria uma nova elite política encarregada de governar em nome do povo.

Seu alerta atravessou gerações:

"Todo Estado, mesmo quando nasce em nome do povo, tende a transformar-se em instrumento de dominação."

Para Bakunin, substituir a burguesia por uma burocracia revolucionária não significava emancipação. Apenas mudava quem ocupava o topo da pirâmide do poder.

Russell: uma crítica sem dogmas

Décadas mais tarde, Bertrand Russell chegou a conclusões semelhantes por uma estrada completamente diferente.

Filósofo, matemático e Prêmio Nobel de Literatura, Russell nunca foi um defensor do capitalismo irrestrito. Reconhecia a genialidade intelectual de Karl Marx ao denunciar a exploração do trabalhador durante a Revolução Industrial. Entretanto, considerava que o marxismo havia adquirido características de uma religião política, onde o partido substituía a consciência individual e a crítica passava a ser tratada como heresia.

Após visitar a União Soviética em 1920, Russell voltou profundamente decepcionado. Via naquele modelo um sistema incapaz de preservar a liberdade intelectual, elemento que considerava indispensável para qualquer sociedade verdadeiramente democrática.

Marco Rubio e uma crítica contemporânea

Mais de um século depois da ruptura entre Marx e Bakunin, Marco Rubio resgata parte dessa tradição crítica.

Em seus pronunciamentos, o secretário de Estado norte-americano sustenta que ideologias inspiradas no marxismo tendem a sufocar a liberdade individual, o mérito, a criatividade, a excelência e a iniciativa pessoal, substituindo-as por estruturas burocráticas e pelo controle político da sociedade.

Concorde-se ou não com Rubio, sua argumentação não surgiu do nada. Ela encontra ecos históricos nas advertências formuladas por Bakunin e, sob outra perspectiva filosófica, por Bertrand Russell.

Isso demonstra que o debate sobre o marxismo nunca pertenceu exclusivamente à direita contra a esquerda. Durante mais de 150 anos, ele foi travado também dentro da própria tradição socialista.

E a China?

Talvez seja justamente a China contemporânea quem mais desafie todas essas teorias.

Governada por um Partido Comunista, a segunda maior economia do planeta tornou-se também uma das maiores potências industriais, tecnológicas e financeiras do século XXI.

Empresas privadas chinesas disputam a liderança mundial em inteligência artificial, veículos elétricos, telecomunicações, comércio eletrônico e tecnologia de ponta. Todos os anos, centenas de empresários chineses figuram entre as maiores fortunas do planeta na lista da revista Forbes.

A pergunta torna-se inevitável:

Se um país comunista produz bilionários, gigantes privados e um mercado altamente competitivo, continua sendo comunista ou criou uma nova forma de capitalismo administrado pelo Estado?

Não existe consenso entre economistas, filósofos ou cientistas políticos.

As perguntas continuam vivas

Karl Marx acreditava que as contradições do capitalismo levariam inevitavelmente à sua superação.

Bakunin temia que a revolução produzisse uma nova classe dominante.

Bertrand Russell advertia que qualquer doutrina transformada em verdade absoluta acabaria sufocando a liberdade.

Marco Rubio afirma que o marxismo continua representando uma ameaça às sociedades abertas e à valorização do mérito individual.

Quatro personagens. Quatro épocas diferentes. Quatro visões que, embora distintas, se cruzam em um ponto essencial: a permanente disputa entre liberdade, igualdade, poder e natureza humana.

Passados quase dois séculos da publicação do Manifesto Comunista, talvez a pergunta mais importante já não seja quem venceu o debate.

Talvez seja outra.

As ideias sobreviveram ao tempo porque continuam tentando responder à mesma questão: como construir uma sociedade mais justa sem sacrificar a liberdade?

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sexta-feira, 24 de julho de 2026

Discord, inteligência artificial e o dever de proteger quem mais precisa

Não é a tecnologia que comete crimes. São pessoas. Mas nenhuma plataforma pode fechar os olhos quando sua estrutura é utilizada para aliciar crianças, manipular vulneráveis e destruir famílias

Não é a tecnologia que comete crimes. São pessoas. Mas nenhuma plataforma pode fechar os olhos quando sua estrutura é utilizada para aliciar crianças, manipular vulneráveis e destruir famílias

Durante muito tempo acreditamos que o perigo estivesse do lado de fora de casa. Trancamos os portões, reforçamos as portas, instalamos câmeras de segurança. Fizemos tudo para proteger quem amamos.

Enquanto isso, uma nova porta foi aberta silenciosamente.

Ela cabe na palma da mão. Está no celular que nossos filhos levam para o quarto, no computador da sala, no videogame conectado à internet e nas plataformas digitais que passaram a fazer parte da rotina de milhões de brasileiros.

É justamente por essa porta que organizações criminosas vêm tentando alcançar o bem mais precioso de qualquer família: a confiança de crianças, adolescentes e pessoas em situação de vulnerabilidade emocional.

É importante fazer uma distinção logo no início.

Não é a tecnologia que comete crimes. São pessoas.

Assim como uma estrada não provoca acidentes sozinha e um telefone não aplica golpes por conta própria, plataformas digitais também não possuem vontade própria. Elas são ferramentas.

Mas isso não encerra o debate.

Quando uma plataforma passa a ser utilizada de forma recorrente para aliciamento de menores, incentivo à automutilação, maus-tratos contra animais, extorsão, pornografia infantil ou outras práticas criminosas, surge uma pergunta que interessa a toda a sociedade:

Qual é a responsabilidade de quem administra essa infraestrutura?

Quando o crime invade a sala de casa

Nos últimos anos, operações da Polícia Federal, das polícias civis e investigações conduzidas por autoridades brasileiras e estrangeiras revelaram comunidades virtuais utilizadas para manipular psicologicamente adolescentes, compartilhar material criminoso, incentivar violência extrema e recrutar novos participantes.

O tema deixou de ser um assunto restrito às delegacias especializadas.

Entrou definitivamente na pauta nacional por meio de reportagens jornalísticas, investigações do Ministério Público e decisões do Poder Judiciário.

Em muitos desses casos, a violência não começa com uma ameaça.

Começa com uma conversa aparentemente inocente.

Alguém oferece amizade. Dá atenção. Escuta. Conquista confiança. Aos poucos surgem desafios, chantagens emocionais e exigências cada vez mais graves.

É um processo de manipulação cuidadosamente construído.

E as vítimas preferenciais costumam ser justamente quem mais precisa de proteção: crianças, adolescentes, pessoas neurodivergentes, jovens que enfrentam depressão, ansiedade, isolamento social ou qualquer outra forma de fragilidade emocional.

Quando a inteligência artificial é usada para o mal

Especialistas em segurança digital alertam que criminosos também passaram a utilizar ferramentas de inteligência artificial para tornar seus golpes ainda mais convincentes.

Hoje já é possível criar vozes sintéticas semelhantes às de crianças, produzir vídeos manipulados por meio de deepfakes, fabricar identidades falsas e desenvolver estratégias sofisticadas para enganar vítimas.

Mais uma vez, o problema não está na tecnologia.

Está nas mãos de quem a utiliza para praticar crimes.

A inteligência artificial, assim como qualquer outra ferramenta criada pelo ser humano, pode servir para construir ou para destruir.

Da idade da pedra ao algoritmo

A história da humanidade também é a história da evolução da escrita.

Antes das palavras vieram as pinturas rupestres.

Depois surgiram os hieróglifos gravados na pedra, os tabletes de argila, o papiro, o pergaminho, a pena mergulhada em tinta nanquim, a caneta-tinteiro, a esferográfica, a máquina de escrever, o computador, os editores de texto e a internet.

Agora chegamos à inteligência artificial.

Ela não substitui o jornalista.

Ela é apenas mais uma ferramenta criada para ampliar a capacidade humana de pesquisar, organizar informações e acelerar processos de trabalho.

Este artigo, por exemplo, utilizou o ChatGPT como ferramenta de pesquisa, organização de informações e apoio editorial.

A apuração, a seleção das fontes, a checagem dos fatos, a análise crítica e a responsabilidade jurídica pelo conteúdo continuam sendo integralmente deste jornalista.

Voltar a escrever em pedras seria tão improdutivo quanto imaginar que o jornalismo deva abrir mão dos computadores.

A inteligência artificial representa mais um capítulo dessa longa evolução tecnológica.

O desafio não é rejeitá-la.

É aprender a utilizá-la com ética.

O jornalismo diante de uma transformação irreversível

Quem ainda acredita que a inteligência artificial desaparecerá provavelmente está olhando para o futuro com os olhos voltados para o passado.

As redações mudaram inúmeras vezes ao longo da história.

Mudaram com a prensa de Gutenberg.

Mudaram com a máquina de escrever.

Mudaram com o computador.

Mudaram com a internet.

Agora voltam a mudar com a inteligência artificial.

Isso não reduz a importância do jornalista.

Pelo contrário.

Num ambiente inundado por desinformação, o profissional que sabe verificar fatos, ouvir diferentes versões, contextualizar informações e assumir responsabilidade pelo que publica torna-se ainda mais indispensável.

A responsabilidade das plataformas

Nenhuma empresa consegue impedir todos os crimes praticados por seus usuários.

Mas a sociedade tem o direito de exigir que plataformas digitais cooperem efetivamente com as autoridades, aperfeiçoem seus mecanismos de prevenção, preservem provas quando determinado pela Justiça e atuem com rapidez diante de denúncias fundamentadas.

Isso não significa censura.

Também não significa criminalizar milhões de usuários honestos que utilizam essas ferramentas para estudar, trabalhar, jogar ou conversar com amigos.

Significa reconhecer que liberdade e responsabilidade caminham juntas.

Especialmente quando estão em jogo crianças e adolescentes.

É hora de agir

O Brasil não pode tratar cada operação policial como um caso isolado.

Quando diferentes investigações apontam padrões semelhantes, cabe ao Estado aprofundar as apurações, identificar organizações criminosas, responsabilizar seus integrantes e exigir cooperação das plataformas digitais.

Se houver indícios concretos de utilização desses ambientes para campanhas coordenadas de ódio, desinformação ou qualquer outra prática ilícita, inclusive em períodos eleitorais, essas situações também devem ser investigadas com rigor, sempre respeitando a Constituição Federal e o devido processo legal.

O combate ao crime não pode ser seletivo.

Nem tardio.

Uma escolha da nossa geração

A tecnologia continuará evoluindo.

As plataformas digitais também.

A inteligência artificial fará parte, cada vez mais, da rotina de jornalistas, professores, médicos, pesquisadores, advogados e trabalhadores das mais diversas áreas.

O verdadeiro desafio não será impedir o avanço tecnológico.

Será garantir que ele permaneça a serviço da sociedade.

Porque não é a tecnologia que destrói famílias.

São pessoas.

E justamente por isso nenhuma plataforma pode fechar os olhos quando sua estrutura é utilizada por organizações criminosas para espalhar violência, manipular vulneráveis e transformar a internet em instrumento de sofrimento.

Defender crianças, adolescentes e famílias brasileiras nunca será censura.

Será sempre um dever coletivo.

quarta-feira, 15 de julho de 2026

Cannabis, liberdade e redução de danos: o que acontece quando a ciência vence o preconceito?

Durante décadas, a maconha foi estigmatizada. Hoje, enquanto o mundo amplia o debate baseado em evidências, o Brasil ainda enfrenta o desafio de separar tabu social de ciência e entender que os usuários de drogas não são todos iguais, tampouco criminosos

 
Cannabis, liberdade e redução de danos: o que acontece quando a ciência vence o preconceito?

Há temas que parecem proibidos antes mesmo de serem discutidos. A cannabis, ou maconha, como é popularmente conhecida no Brasil, é um deles. Basta pronunciar a palavra "maconha" para que muitos abandonem o terreno da razão e caminhem diretamente para o julgamento moral. É como se uma planta carregasse, por si só, toda a culpa pelas contradições da sociedade moderna. Mas a realidade costuma ser muito mais complexa do que os slogans propagados pela parte reacionária da sociedade 

Nos últimos anos, pesquisadores de diversos países passaram a investigar algo que parecia impensável poucas décadas atrás: a cannabis poderia contribuir para reduzir danos causados por drogas muito mais perigosas, como cocaína, crack, metanfetamina, heroína e outros opioides?

A resposta da ciência não é simplista. Ela também não é ideológica. O que as pesquisas vêm mostrando é que, em determinados pacientes e sob acompanhamento profissional, a cannabis pode diminuir a fissura, melhorar o sono, reduzir a ansiedade, abrir o apetite, diminuir a insônia e facilitar processos de tratamento da dependência química.

Nem todo usuário é dependente

Talvez o maior erro cometido ao longo das últimas décadas tenha sido tratar todas as pessoas que fazem uso de drogas como se fossem iguais.

Não são.

Existe o uso ocasional. Existe o uso frequente. Existe o abuso. Existe a dependência química, reconhecida internacionalmente como uma condição clínica complexa.

Confundir essas realidades significa abandonar a ciência em favor do preconceito.

Da mesma forma, também não faz sentido colocar todas as substâncias no mesmo patamar. A medicina reconhece que diferentes drogas apresentam riscos muito diferentes. Cannabis, álcool, nicotina, cocaína, crack, metanfetamina ou fentanil produzem efeitos distintos, potenciais diferentes de dependência e impactos variados sobre a saúde.

Redução de danos não significa incentivo ao consumo

Um dos conceitos mais mal compreendidos é justamente o de redução de danos.

Seu objetivo não é incentivar o consumo de drogas.

O objetivo é reduzir mortes, overdoses, violência, infecções, sofrimento e exclusão social.

Quando um paciente consegue substituir uma substância extremamente nociva por outra comprovadamente menos perigosa, quando diminui o consumo ou consegue permanecer em tratamento por mais tempo, a saúde pública considera isso um avanço.

É exatamente essa lógica que levou diversos países a pesquisarem o papel terapêutico dos canabinoides.

O mundo mudou. O debate brasileiro ainda caminha.

Enquanto o Brasil ainda trata o tema quase sempre sob uma ótica moral, boa parte do mundo passou a enfrentá-lo como questão de saúde pública.

O Uruguai regulamentou toda a cadeia da cannabis há mais de uma década. Canadá fez o mesmo. Diversos estados norte-americanos, governados tanto por democratas quanto por republicanos, adotaram modelos de cannabis medicinal e recreativa.

Isso não significa que esses países tenham encontrado uma solução mágica para o problema das drogas. Não encontraram.

Mas significa que compreenderam algo fundamental: políticas públicas precisam ser avaliadas por resultados, não por preconceitos.

A experiência internacional demonstra que regulamentar a cannabis permitiu reduzir parte do mercado ilegal da própria substância, ampliar o controle sanitário, favorecer pesquisas científicas e fortalecer estratégias de redução de danos. Os efeitos sobre outras drogas continuam sendo estudados e variam conforme o contexto de cada país, mas o debate passou a ser guiado por dados — e não apenas por medo.

A guerra às drogas venceu?

Talvez esta seja a pergunta que poucas pessoas desejam responder.

Após décadas de combate internacional às drogas, o mercado ilegal continua movimentando centenas de bilhões de dólares por ano. Cocaína, metanfetamina, opioides sintéticos e inúmeras outras substâncias seguem circulando em praticamente todos os continentes.

Isso não significa que toda forma de controle deva ser abandonada.

Mas talvez seja um convite para reconhecer que respostas exclusivamente repressivas não resolveram um fenômeno profundamente humano, social, econômico e psicológico.

Uma questão de humanidade

Existe uma diferença enorme entre combater organizações criminosas e transformar usuários em inimigos da sociedade.

Cada história de dependência carrega uma biografia. Há sofrimento, traumas, vulnerabilidades, escolhas, contextos sociais e, muitas vezes, transtornos mentais associados.

É justamente por isso que ciência e filosofia podem caminhar juntas.

A primeira busca compreender os mecanismos biológicos do comportamento humano. A segunda nos obriga a perguntar quem somos quando preferimos condenar antes de compreender.

Talvez uma sociedade verdadeiramente madura não seja aquela que divide pessoas entre "boas" e "más", "caretas" e "usuárias". Talvez seja aquela capaz de reconhecer que liberdade também exige responsabilidade, informação de qualidade e políticas públicas baseadas em evidências.

No fim das contas, discutir cannabis nunca foi apenas discutir uma planta. É discutir a nossa capacidade de abandonar dogmas quando a realidade insiste em apresentar fatos novos.

O Pulso Eletromagnético é um espaço dedicado à reflexão crítica sobre ciência, sociedade, tecnologia, cultura e filosofia. Aqui, opiniões não substituem evidências, e evidências não dispensam o pensamento crítico.

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quinta-feira, 25 de junho de 2026

É verdade que Elon Musk deixou de ser trilionário?

Após uma disparada histórica impulsionada pela abertura de capital da SpaceX, a fortuna do empresário voltou a ficar abaixo da marca simbólica de US$ 1 trilhão. Mas a história pode ser mais complexa do que as manchetes sugerem

Após uma disparada histórica impulsionada pela abertura de capital da SpaceX, a fortuna do empresário voltou a ficar abaixo da marca simbólica de US$ 1 trilhão. Mas a história pode ser mais complexa do que as manchetes sugerem

Nos últimos dias, uma enxurrada de manchetes chamou a atenção de investidores e curiosos em todo o mundo: Elon Musk teria deixado de ser trilionário.

A afirmação é tecnicamente verdadeira. Pelo menos por enquanto.

Depois da estreia histórica da SpaceX na bolsa de valores norte-americana, em 12 de junho, as ações da empresa dispararam. O entusiasmo dos investidores levou a companhia a atingir uma avaliação de mercado superior a US$ 2,6 trilhões e colocou a fortuna pessoal de Musk acima da marca simbólica de US$ 1 trilhão pela primeira vez na história.

Mas Wall Street raramente segue em linha reta.

Após o pico inicial, veio a realização de lucros. Em apenas alguns pregões, as ações devolveram parte dos ganhos acumulados. A SpaceX perdeu mais de US$ 600 bilhões em valor de mercado, recuando para pouco mais de US$ 2 trilhões.

O impacto foi imediato sobre a fortuna do empresário. As estimativas mais recentes dos rankings financeiros internacionais apontam que o patrimônio de Musk caiu para algo entre US$ 940 bilhões e US$ 960 bilhões.

Em outras palavras, ele continua sendo a pessoa mais rica do planeta, mas voltou a ficar abaixo da linha que o havia transformado no primeiro trilionário da história moderna.

Analistas observam que movimentos dessa magnitude não são incomuns após grandes ofertas públicas iniciais. Parte da queda é atribuída à realização de lucros por investidores, enquanto outra parte reflete preocupações do mercado com os planos de expansão da empresa e sua recente emissão bilionária de títulos de dívida.

Apesar da correção, a SpaceX continua entre as empresas mais valiosas do mundo e ainda pode ser beneficiada pela futura inclusão em importantes índices do mercado financeiro americano.

E é justamente aí que a história ganha uma dimensão interessante.

Quando se fala em fortunas dessa escala, boa parte do patrimônio existe no papel. Ele sobe e desce diariamente conforme o preço das ações. Um movimento de alguns pontos percentuais para cima ou para baixo pode representar dezenas de bilhões de dólares em poucas horas.

Por isso, a conclusão fica por conta do leitor.

Elon Musk deixou de ser trilionário? Neste momento, sim. Mas também parece evidente que sua fortuna continuará orbitando a marca de US$ 1 trilhão nos próximos meses, avançando ou recuando conforme o humor dos mercados e o desempenho da SpaceX.

Num mundo em que centenas de bilhões de dólares podem desaparecer ou reaparecer em poucos dias, talvez a verdadeira notícia não seja a perda temporária do título de trilionário, mas o fato de que alguém tenha conseguido chegar tão perto dessa marca em primeiro lugar.