Em tempos de polarização permanente, talvez seja hora de olhar para além dos partidos, dos candidatos e das disputas eleitorais e perguntar por que continuamos entregando nossa consciência a quem promete tanto e entrega tão pouco
Existe alguma coisa estranha acontecendo com a política mundial e aqui no Brasil não é diferente. A cada eleição, somos convidados a acreditar novamente. A acreditar que agora vai. Que desta vez será diferente. Que finalmente apareceu alguém capaz de colocar o país nos trilhos, consertar a economia, acabar com a corrupção, melhorar a saúde, resolver a segurança, criar empregos, promover mais programas sociais e liberdades individuais, gente que promete mudar tudo - mas não muda nada.
Mudam os rostos. Mudam as cores. Mudam os slogans. Mas, depois de algum tempo, a vida real volta a bater à porta. E permanece aquela pergunta que quase nunca cabe na propaganda eleitoral: o que realmente mudou na vida das pessoas?
Não é uma pergunta apenas brasileira. Basta observar o mundo para perceber que a crise de confiança na política atravessa fronteiras, ideologias e sistemas de governo. Presidentes entram e saem. Parlamentos mudam. Partidos trocam de discurso. Novos movimentos surgem prometendo romper com tudo o que existia antes.
Mas nós do povo continuamos, assim como servidores públicos que entra governo e sai governo continua trabalhando. E, ainda assim, milhões continuam vivendo sob a mesma velha sensação de abandono. E cada vez mais sentimos que não se trata apenas de sensação, o abandono é real. Esquerda, direita e centro, dois lados e um contrapeso de uma mesma moeda.
Quando a política passou a se parecer com futebol
Talvez uma das coisas mais perigosas da política contemporânea seja justamente a sua transformação em espetáculo. O jogo político está sendo mudado para a sociedade do espetáculo. Eleição passou a parecer competição entre times de futebol. Os grandes players jogam ganhando milhões enquanto nós estamos na posição do gramado, cortado baixo e parede para que está gente jogue sobre as nossas cabeças.
Meu candidato contra o seu. Minha esquerda contra sua direita. Meu grupo contra o seu grupo. Minha verdade contra a sua verdade. Com essa forma tosca e pequena de pensar, o adversário deixa de ser alguém que pensa diferente e passa a ser tratado como inimigo.
É nesse momento que a política perde uma de suas características mais importantes: a capacidade de produzir reflexão e de contribuir para uma democracia realmente saudável.
Uma democracia saudável deveria permitir que alguém dissesse: “Votei em você, mas não concordo com isso”. Hoje, muitas vezes, acontece o contrário. O eleitor passa a defender o político como quem defende um clube de futebol, como o machismo tóxico que encarcera a companheira, agredindo e tolhendo até o direito de ir e vir da mulher.
E o político agradece. Porque um cidadão que pensa pode mudar de opinião. Um torcedor, não. Enquanto os jogadores de futebol mudam de times ganhando milhões, políticos mudam de partido buscando uma prancha para chegar às urnas e se perpetuar no poder, nós do povo vemos os preços, os juros, os impostos subindo de maneira astronômica.
A polarização também virou produto
Existe uma verdadeira indústria da polarização. Ela movimenta campanhas, publicidade, redes sociais, consultorias, canais de comunicação e, principalmente, atenção. Se olharmos um pouco para o passado não muito distante e estudarmos o caso da Cambridge Analytica, do Steve Bannon, podemos perceber muito do que está sendo feito.
Quanto mais indignado o cidadão fica, mais tempo permanece conectado. Quanto mais medo sente, mais compartilha dos seus temores e receios. Quanto mais odeia o adversário, menos disposição encontra para ouvi-lo. Assim acaba a diferença, o contraditório, a opinião própria. É a população se transformando em gado. E quanto menos se escuta o contraditório, mais fácil se torna para políticos hábeis e inescrupulosos conduzir as massas.
Não é preciso imaginar uma conspiração universal para entender o mecanismo, a máquina de moer gente. A política aprendeu algumas das melhores técnicas da publicidade.
Identifica públicos. Mede comportamentos. Descobre inseguranças. Escolhe palavras. Cria personagens. Fabrica inimigos. Produz slogans. E vende esperança. Quando necessário, também vende medo, usando a pior e mais nojenta forma de política que existe hoje no mundo: a necropolítica.
O poder que nunca parece ter fim
Há outra questão que deveria nos incomodar, entretanto assusta ver tão pouca gente ligada nessa questão. Por que a política parece ter desenvolvido uma espécie de carreira permanente? O sujeito entra na política. Depois se reelege. Ocupa outro cargo. Retorna. Apoia alguém. Volta novamente. Muda de posição. Troca de partido. Reaparece. Coloca filhos e parentes como candidatos e candidatas.
As fotografias mudam, mas os personagens continuam circulando dentro da mesma estrutura de poder. E, a cada eleição, somos apresentados à mesma sensação de urgência: precisamos escolher determinado candidato porque o outro é pior.
Somos colocados em cheque por essa gente que na verdade não nos representa, nos obriga a escolher eles como representantes usando toda a espécie de chantagem política e emocional.
É aí que aparece outra pegadinha, o chamado voto útil. O voto útil pode ser uma decisão perfeitamente legítima quando nasce da consciência do eleitor. O problema começa quando o cidadão deixa de perguntar em quem realmente acredita e passa a votar apenas em quem lhe dizem que pode vencer. Quando isso acontece, a eleição deixa de ser escolha e passa a ser cálculo. Se torna eu contra ele e não todos juntos contra o problema.
O cidadão não pergunta mais: “Quem representa melhor aquilo que penso?” Passa a perguntar: “Quem tem chance de ganhar?” E talvez essa diferença seja muito maior do que aparenta. A maior parte do jogo política é feita nos bastidores e nós, reles mortais, não ficamos sabendo do que acontece por trás do que nos é mostrado pela grande mídia.
O perigo de pensar em bloco
Existe uma ideia filosófica antiga, presente em diferentes tradições do pensamento, que continua extremamente atual: o indivíduo pode perder sua própria capacidade de pensar quando se dissolve completamente dentro da multidão. Não se trata de condenar a sociedade, os movimentos coletivos ou a ação política organizada. As grandes transformações humanas quase sempre dependeram de pessoas trabalhando juntas.
O problema começa quando o indivíduo deixa de pensar e passa apenas a repetir. Quando a pessoa não questiona mais o próprio grupo. Quando aceita qualquer coisa porque “o meu lado” fez. Quando passa a enxergar virtudes em tudo que vem dos seus e defeitos em tudo que vem dos outros.
Isso pode acontecer à esquerda. Pode acontecer à direita. Pode acontecer entre liberais, conservadores, progressistas, religiosos, ateus, nacionalistas, revolucionários ou qualquer outro agrupamento humano. O problema não está necessariamente na bandeira. Está na incapacidade de questioná-la.
A pobreza que não aparece nas estatísticas
Existe uma pobreza que não aparece nos indicadores econômicos. É a pobreza de quem perdeu a capacidade de imaginar. De questionar. De criar. De discordar. De inventar. De produzir conhecimento. De enxergar possibilidades onde todo mundo só consegue enxergar obstáculos.
A humanidade avançou porque algumas pessoas tiveram coragem de pensar diferente. Foram artistas. Cientistas. Filósofos. Escritores. Inventores. Trabalhadores. Professores. Pesquisadores. Gente que muitas vezes estava muito distante dos centros tradicionais de poder.
Algumas das maiores transformações culturais, científicas e tecnológicas nasceram justamente nas margens. Foram revoluções culturais, artísticas, científicas e tecnológicas.
Por isso, talvez uma das maiores tragédias do nosso tempo seja confundir conhecimento com informação. Temos informação demais. E, paradoxalmente, podemos estar pensando, filosofando e praticando a ética cada vez menos. Recebemos milhares de opiniões por dia. Poucas delas nos convidam verdadeiramente a pensar.
A velha promessa que volta a cada eleição
O político promete. Promete muito. Promete emprego, segurança, saúde, educação, desenvolvimento, justiça, prosperidade. Promete mudança. Promete continuidade. Promete reconstrução. Promete futuro.
Depois da eleição chega o 'novo governo'. Chega um 'novo parlamento'. E chega também a realidade, assim como as contas e boletos não param de chegar todo final de mês. Assim como o mês após mês os alimentos estão mais caros, o custo de vida mais alto e a qualidade de vida descendo ladeira abaixo.
Algumas promessas são cumpridas. Outras são parcialmente realizadas. Muitas desaparecem no caminho. Elas e eles simplesmente esquecem. Não ligam para a gente.
Quatro anos depois, porém, a máquina começa novamente. Novas imagens ou as mesmas de sempre com um ar de algo diferente. Novos vídeos com antigos projetos que já fazem parte do nosso dia a dia mas pela vaidade, novamente o político precisa atribuir a ele ou a ela a obrigação do trabalho que fez, contratado através do voto direto que depositamos nas urnas.
Tudo é novo velho ao mesmo tempo. Novas pesquisas, mas com cenários muito parecidos aos de corridas eleitorais anteriores. Novos slogans, ou apenas os velhos slogans repaginados. Novas promessas, que às vezes de novas não tem nada porque apenas estão reafirmando promessas antigas que nunca saíram do campo das ideias.
E nós somos novamente hábilmente levados a acreditar em toda essa pantomima. Talvez por isso uma democracia madura precise de algo muito mais importante do que entusiasmo eleitoral: memória.
Memória do que foi prometido. Memória do que foi realizado. Memória de quem estava no poder. Memória de quem votou em quê. Memória de quem apareceu apenas durante a campanha. Memória para não confundir propaganda com realidade. Memória daquele político que arrebanhou cabos eleitorais e fez com que todos trabalhassem de graça para ele.
E se a eleição começasse dentro de nós?
Existe uma velha tentação humana de procurar salvadores. O salvador da pátria aquele que vem para resolver todos os problemas como que não passa de mágica. Esperamos alguém que venha resolver o país. Resolver a economia. Resolver a violência e a segurança pública. Resolver a desigualdade. Resolver a própria política.
Mas nenhuma democracia deveria depender de um salvador. Política inclusive não é religião. Talvez o primeiro exercício democrático seja muito mais simples — e justamente por isso muito mais difícil: pensar por conta própria.
Não votar em fulano, beltrana ou sicrana, porque todo mundo está votando. Não odiar porque mandaram odiar. Não amar porque vídeos produzidos por profissionais mestres da teoria da telegramaturgia fazem você pensar que ama. Ame primeiro a você mesmo, a você mesma e a sua família, ame seu círculo mais íntimo de amigos e amigas, e jamais com quem te ama de verdade por causa dessa gente que só aparece de dois em dois anos.
Não transforme político em ídolo. Não torne seu adversário um inimigo. Seja maduro. Seja madura. Não confunda pesquisa eleitoral com verdade. As pesquisas refletem apenas aquele momento no cenário político e são feitas por amostragem.
Não confunda popularidade com competência, nem discurso com realização. E, principalmente, não entregue jamais sua própria consciência a uma campanha publicitária.
Uma pergunta que vale mais do que qualquer slogan
Antes de qualquer eleição, talvez devêssemos fazer uma pergunta que raramente aparece nos santinhos, nos debates ou nas redes sociais: que tipo de sociedade queremos construir quando as eleições já tiverem passado?
Porque a democracia não termina quando o voto é depositado. Ela continua no dia seguinte. Na fiscalização. Na cobrança. Na imprensa. Nas universidades. Nos sindicatos. Nas empresas. Nas comunidades. Nas famílias. Nas ruas. Na ciência. Na cultura. Na arte.
E, sobretudo, na capacidade de discordar sem transformar o outro em inimigo. A política deveria ser instrumento da sociedade. Quando a sociedade passa a existir em função da política, alguma coisa se inverteu. É como disse o líder da Igreja católica outro dia, o Papa Leão: o mundo está de ponta cabeça.
Talvez seja justamente essa inversão que precisamos começar a questionar. Democracia é muito mais do que apertar um botão a cada dois ou quatro anos. É saber que se esses políticos foram eleitos através do nosso voto direto, ele só podem recuperar ou ganhar a nossa confiança de novo se realmente cumpriram o que prometeram. Porque o voto ou não voto também tem a capacidade e o poder de demitir políticos.
É importante fiscalizar, lembrar, questionar. Se informar e ter opinião própria para poder mudar quando os fatos exigirem. Trata-se de não permitir que ninguém pense por nós.
O povo precisa manter além da consciência coletiva, a consciência individual desperta. E nas vésperas dos pleitos eleitorais desconfiar inclusive daqueles em quem confiamos. Nenhum político merece devoção, nenhum ser humano deve ser objeto de devoção. Ou a gente confia ou não confia. E fazer o quê quando tem a confiança traída?
Nenhum cidadão, nenhuma cidadã, deveria precisar pertencer a uma claque para exercer plenamente sua cidadania. Porque no final das contas, talvez a grande revolução não seja simplesmente trocar um político por outro.
Talvez o que falta seja mudarmos a relação que estabelecemos com o próprio poder. Como acontece no caso desse texto. Porque enquanto continuarmos procurando salvadores da pátria, sempre haverá alguém para se apresentar como tal.
E enquanto aceitarmos ser apenas torcida, sempre haverá alguém disposto a transformar nossa paixão, nossas anseios mais íntimos e hábitos, medidos por algoritmos infalíveis, em voto. A liberdade começa naquele instante silencioso em que o indivíduo decide pensar por si mesmo e consigo mesmo, informado mas com opinião própria como garante o livre pensar.




