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terça-feira, 29 de setembro de 2026

Maricarmen, a Puerta del Sol e o fantasma de 2011: uma nova onda Occupy está para detonar?

Uma mulher de 87 anos foi despejada de sua casa em Madri. Milhares foram às ruas. Barracas voltaram a ocupar a Puerta del Sol. Quinze anos depois do 15-M, a Espanha parece estar ouvindo novamente um velho ruído de insatisfação

 
Uma mulher de 87 anos foi despejada de sua casa em Madri. Milhares foram às ruas. Barracas voltaram a ocupar a Puerta del Sol. Quinze anos depois do 15-M, a Espanha parece estar ouvindo novamente um velho ruído de insatisfação

Há imagens que ultrapassam a tela do celular. A imagem de uma mulher de 87 anos sendo retirada da própria casa, em uma maca, depois de mais de sete décadas vivendo naquele endereço, é uma delas. O nome dela é María del Carmen Abascal, conhecida como Maricarmen.

E talvez o mais importante nessa história não seja apenas o despejo. É o que aconteceu depois. Pessoas foram para as ruas. A Puerta del Sol voltou a receber barracas. Milhares começaram a protestar contra o preço da moradia.

E, de repente, uma história que poderia ter terminado como tantas outras — uma idosa perde a casa, muda-se para algum lugar improvisado e a vida continua — transformou-se em símbolo.

Um símbolo de uma pergunta muito maior:

quem ainda consegue morar nas cidades onde nasceu, trabalhou e envelheceu?

Uma casa que virou símbolo

Maricarmen vivia havia 71 anos no mesmo apartamento, em Madri. O imóvel foi adquirido por um fundo de investimento e o aluguel sofreu aumentos que acabaram tornando impossível para ela continuar pagando. Sua renda mensal girava em torno de € 1.350, enquanto o aluguel chegou a superar sua capacidade de pagamento.

No dia 23 de setembro, o despejo aconteceu. Ela saiu de casa em uma maca. A cena provocou indignação. E a indignação ganhou as ruas.

Milhares de pessoas começaram a protestar em Madri. No fim de semana, cerca de 25 mil manifestantes, segundo números oficiais, participaram de uma manifestação pela moradia.

Depois vieram as barracas. E elas foram montadas justamente na Puerta del Sol. Para quem acompanha a história recente da Espanha, isso é mais do que um detalhe geográfico.

É memória. É 2011. É o 15-M.

Quando a praça virou mundo

Em 15 de maio de 2011, milhares de espanhóis foram às ruas contra a crise econômica, o desemprego, a corrupção, as políticas de austeridade e a sensação de que a política tradicional não conseguia responder à realidade de milhões de pessoas.

Depois das manifestações, um grupo decidiu permanecer na Puerta del Sol. Vieram as barracas. As assembleias. Os debates. Os cartazes. As cozinhas coletivas. As redes sociais.

E veio uma palavra que atravessou fronteiras:

indignação.

Nascia o movimento dos Indignados, o 15-M. O movimento espanhol tornou-se uma das grandes referências dos protestos sociais do início da década passada e ajudou a inspirar outras mobilizações pelo mundo.

Poucos meses depois, o Occupy Wall Street ocuparia um parque em Nova York e daria origem a manifestações semelhantes em dezenas de cidades. Os movimentos não eram iguais. Mas compartilhavam uma sensação.

A de que alguma coisa estava profundamente errada na maneira como a sociedade estava distribuindo riqueza, oportunidades e poder.

Era a época do “nós somos os 99%”. História da qual fiz parte. (Clique aqui veja os vídeos no meu canal do YouTube). Era a época em que a desigualdade deixou de ser apenas assunto acadêmico e passou a ser uma palavra escrita em cartazes nas ruas.

Quinze anos depois, as barracas voltaram

Agora, em 2026, elas estão novamente na Puerta del Sol. E isso é simbólico. Mas também exige cautela. Não estamos, ao menos por enquanto, diante de uma repetição automática de 2011.

O mundo mudou. A economia mudou. As redes sociais mudaram. As formas de organização política mudaram. E as pautas também. Hoje mesmo a Inteligência Artificial foi rebatizada como Superinteligência pelo Governo dos EUA, inclusive a ferramenta usada para edição dessa postagem do Pulso.

Desta vez, a faísca é muito concreta, não são os cassinos globais, é moradia.

Aluguel. Condomínio. Prestação. Despejo. Gentrificação. Fundos de investimento. Criptomoedas. O direito de permanecer na própria casa, sem ser ameaçado porque está empobrecido pela falta de oportunidades, muitas vezes mesmo tendo qualificação mais que suficiente para pagar as próprias contas.

O direito de viver e envelhecer sem ser expulso da sua própria casa. O direito de ter a primeira habitação sem ter a preocupação de que pode ser despejado quando envelhecer. Talvez seja justamente por isso que a história de Maricarmen tenha tocado tanta gente. Porque é fácil compreender o drama. Uma mulher de 87 anos. Uma aposentadoria. Uma casa onde viveu por 71 anos. E um aluguel que se tornou maior do que sua renda. Não é necessário ser economista para entender, basta ser humano.

E então aconteceu algo ainda mais importante

A pressão das ruas produziu uma reviravolta. Nesta terça-feira, foi anunciado um acordo que permite que Maricarmen volte para casa, com um aluguel limitado a aproximadamente 30% de sua renda durante oito anos, após ela ter sido hospitalizada em razão do desgaste provocado pelo despejo.

Ainda há detalhes a serem formalizados. Mas existe algo que não pode ser ignorado:

uma senhora de 87 anos virou o centro de uma mobilização capaz de produzir uma mudança concreta.

E isso muda a natureza da história. Porque uma coisa é protestar. Outra é perceber que o protesto pode alterar a realidade.

O governo espanhol também anunciou novas medidas para enfrentar a crise habitacional, incluindo mecanismos de proteção contra despejos de pessoas vulneráveis e mudanças nas regras de aluguel. Pode ser pouco. Pode ser muito.

Ainda veremos... Mas a rua falou. E o poder público precisou ouvir. E, mesmo assim, o movimento continua ocupando a praça, com possibilidade de novamente ocupar o mundo.

A pergunta que incomoda

É aqui que começa a parte mais interessante. Será que, 14 anos depois, estamos diante de um novo 15-M? Ou será que estamos diante de algo ainda maior?

Uma nova onda Occupy está para detonar?

Não se sabe ao certo se ainda é cedo para responder à esta questão, pois movimentos sociais não obedecem calendários. Eles não nascem porque alguém decide que chegou a hora.

Eles aparecem quando milhões de pequenas frustrações encontram um símbolo capaz de traduzir aquilo que as pessoas estavam sentindo.

Em 2011, aquele símbolo foi a crise econômica e a sensação de abandono político. Em 2026, pode ser uma casa. A casa de Maricarmen. A crise habitacional, a falta de dinheiro para pagar o condomínio, o aluguel ou a prestação da casa.

Talvez a questão seja maior que a Espanha

Existe algo curioso na crise espanhola. O problema da moradia não é exclusivamente espanhol. Em várias partes do mundo, trabalhar deixou de ser garantia de conseguir morar perto do trabalho. Inclusive nos dias de hoje, principalmente após a pandemia, muitas pessoas trabalham em casa, no sistema de teletrabalho.

Os salários subiram menos que determinados custos essenciais. Os aluguéis dispararam em grandes centros urbanos. Os imóveis passaram a ser vistos cada vez mais como ativos financeiros, favorecendo a especulação imobiliária em detrimento do direito fundamental que todos precisam ter: um teto para morar.

E uma pergunta desconfortável começou a aparecer:

se uma pessoa trabalha, por que ela não consegue pagar uma casa?

Talvez essa seja uma das grandes questões sociais do nosso tempo.

E o Brasil?

É impossível observar o que acontece em Madri sem olhar para nós mesmos. No Brasil, a realidade é diferente, mas a pergunta sobre o valor do trabalho continua presente.

Nesta semana, a greve dos empregados da Caixa Econômica Federal chegou ao fim após decisão do Tribunal Superior do Trabalho. O Técnico Bancário Novo, cargo de entrada de nível médio da Caixa, tem salário inicial de R$ 3.762, com jornada de 30 horas semanais.

Enquanto isso, o salário mínimo nacional de 2026 está em R$ 1.621. Entre esses dois valores existe um país inteiro. Um técnico de enfermagem da carreira municipal de Saúde Pública de Curitiba aparece na faixa inicial de aproximadamente R$ 2 mil, para jornada de 30 horas.

Não faz sentido colocar trabalhador contra trabalhador e este não é o objetivo dessa postagem. Mas faz sentido fazer a pergunta.

Quanto vale o trabalho de quem cuida de doentes?

Quanto vale o trabalho de quem ensina?

Quanto vale o trabalho de quem protege?

Quanto vale o trabalho de quem atende a população?

Quanto vale o trabalho de quem movimenta um banco público?

E, principalmente:

quanto uma pessoa precisa receber para conseguir viver?

Não é sobre ganhar mais. É sobre conseguir viver sem preocupação constante com conseguir garantir a própria moradia. Com tranquilidade. Sem a ameaça de despejo por contas atrasadas.

Essa talvez seja a diferença entre uma discussão meramente salarial e uma discussão social. Não precisamos transformar o bancário em inimigo do técnico de enfermagem. Nem o policial em inimigo do professor. Nem o servidor público em inimigo do trabalhador da iniciativa privada. Na verdade todos têm seu trabalho explorado servindo a hierarquias maiores de poder, seja ele privado ou público, a exceção de profissionais liberais.

A verdadeira questão está acima dessas disputas. Importante é saber se o trabalho continua sendo suficiente para garantir uma existência minimamente digna. Porque de nada adianta uma pessoa ter emprego se o salário não paga o aluguel, a prestação, as taxas de condomínio e serviços básicos.

De nada adianta trabalhar oito horas por dia se o dinheiro ganho não permite a vida além das contas, pois depois de todas as contas pagas, as pessoas ainda precisam comer. Isso que parece ser uma inversão de valores. Pois todo mundo deveria poder comer e beber sabendo que ainda vai restar dinheiro para pagar as contas.

De nada adianta chegar à aposentadoria se a renda não permite permanecer na própria casa. Ainda mais com as regras para se aposentar, no caso aqui do Brasil, terem sido mudadas de maneira drástica. Até o ano 2000 as podiam se aposentar com 50 anos de idade. Hoje elas nem sabem se um dia vão conseguir chegar à aposentadoria. E, isso causa instabilidade social.

Foi exatamente isso que aconteceu com Maricarmen. Ela tinha uma história. Tinha uma casa. Tinha uma renda. Mas chegou um momento em que a matemática deixou de fechar.

E quando a matemática da vida deixa de fechar, pouco importa se a pessoa trabalhou durante 20, 40 ou 70 anos.

O mercado não conhece memória. O aluguel, a prestação da casa própria, os impostos territoriais urbanos e taxas condominiais não conhecem biografia. Os boleto não conhecem a dignidade humana.

Talvez o Occupy nunca tenha acabado

Talvez seja essa a pergunta mais interessante de todas. Estamos esperando uma nova onda Occupy? Ou ela nunca terminou? Talvez os movimentos de 2011 tenham apenas mudado de forma.

A indignação continua existindo. Só mudaram seus motivos imediatos. Hoje pode ser a moradia. Amanhã pode ser a inteligência artificial e o emprego. Depois, a aposentadoria.A precarização.A desigualdade. O custo da saúde. A crise climática.

A sensação de que a vida ficou cara demais para quem trabalha e barata demais para quem precisa trabalhar.

Movimentos sociais são assim. Eles não necessariamente desaparecem. Às vezes, entram em silêncio, em estado de espera até que alguma coisa aconteça.

Uma crise. Uma injustiça. Uma imagem. Uma pessoa. Uma história que faça milhares pensarem:

“Isso poderia acontecer comigo.”

Maricarmen talvez seja apenas o começo

Talvez a mobilização na Espanha desapareça daqui a algumas semanas. Talvez as barracas sejam desmontadas. Talvez a Puerta del Sol volte à rotina. Talvez nada parecido com o 15-M aconteça novamente. Também pode acontecer o contrário. Pode surgir uma mobilização maior. Pode nascer uma nova pauta. Pode aparecer uma nova geração de Indignados. Pode surgir um movimento internacional pela moradia.

Ainda não sabemos. E talvez seja justamente esse o ponto. Não estamos diante de uma história encerrada. Estamos diante de um fenômeno acontecendo agora.

Uma multidão foi para a rua. A praça voltou a ser ocupada. O governo reagiu. E uma mulher poderá voltar para casa. Mas a cada dia cresce o movimento na mesma praça onde surgiu o 15-M e o movimento internacional dos indignados.

Quinze anos depois do 15-M, a Puerta del Sol voltou a ter barracas.

Não é coincidência, isso já aconteceu antes. Para quem não tem memória hoje tem internet, tem superinteligência. Talvez esteja mais do que na hora dos indignados no mundo inteiro se reunirem outra vez e protestar, novamente ocupar a capa da Time, do Jornal O Globo, das revistas, das grandes agências internacionais de notícias, de todos os veículos de comunicação do nosso pequeno ponto azul que flutua num raio de sol. 

Talvez seja aquele pequeno tremor que antecede um tsunami. Um efeito borboleta. Por isso mesmo observamos e perguntamos?

Será que uma nova onda de movimentos Ocupa está para surgir?

O futuro parece estar justamente começando em algum lugar onde alguém decidiu não aceitar mais o que parecia inevitável. E ao nosso ver sim, as pessoas vão voltar provavelmente a ocupar as praça, ocupar as ruas, o mundo. Isso deixa as pessoas indignadas. Eu, ao menos, estou indignado. E você não está? Hoje somos todos e todas Maricarmen! Indignados e indignadas, em busca de dignidade. Pois não se pode ameaçar e muito menos se retirar o teto de alguém assim.


Pulso Eletromagnético — o pulso ainda pulsa...