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terça-feira, 7 de agosto de 2018

Ninguém sabe explicar direito o degelo na Antártida




Os mistérios do gelo: Ninguém sabe explicar muito bem o que está acontecendo na Antártida 

- via expresso.sapo.pt*

Três vezes maior do que a União Européia, a Antártida é em muitos aspetos ainda uma incógnita. Ao contrário do que acontecia no Ártico, tem sempre havido um ligeiro aumento da extensão de gelo marinho. Até que 2016 veio e trouxe um fato alarmante, agravado pelo icebergue histórico que  se soltou este ano. 
“A redução drástica agora notada é anômala e pode significar o início do aquecimento da Antártida. Pode ser um sinal de que o gigante está acordando. Mas isso só saberemos daqui a alguns anos”
Manteve-se adormecida durante décadas, enquanto o Ártico sofria um degelo acelerado em consequência das alterações climáticas. Mas a Antártida não parecia dar os mesmos sinais, ou pelo menos não os dava à mesma velocidade. Em finais do ano passado surgiram até notícias de um arrefecimento na região da Península Antártica durante os últimos 15 anos, contrariando a lógica do que tem vindo a ser frequente nessa área, que desde a década de 1950 registava um aumento médio anual das temperaturas na ordem dos 2,5 graus Celsius. 

Foi de uma das plataformas de gelo daquela península, a Larsen C, que há semanas se desprendeu um dos maiores icebergues da História, com quase 6 mil km quadrados. E onde, uma semana depois, foi possível observar uma outra fenda, ainda pequena e tímida, a desenhar-se rumo ao norte.

Embora a grandeza colossal do bloco de gelo agora à deriva no Mar de Wedell faça soar os alarmes quanto à possibilidade de o aquecimento global estar finalmente afetando o pólo sul, os cientistas hesitam em estabelecer uma ligação direta entre a perda de massa gelada da Larsen C e a doença do planeta. “Perguntar se isto está relacionado com o aquecimento global é como perguntar se o estão também uma tempestade ou uma semana inusual de calor. Sendo processos normais, não é possível dizer se sim ou se não”, afirmou Bryn Hubbard, investigador do Midas, projeto que monitoriza as mudanças climáticas na plataforma Larsen C.

“As plataformas têm uma dinâmica própria: é gelo flutuante que flui do continente em direção ao oceano e que, a partir de uma certa extensão, acaba por se fragmentar”, explica ao Expresso Gonçalo Vieira, coordenador do Programa Polar Português, admitindo que o desprendimento de icebergues — e mesmo o colapso de plataformas, como o da Larsen A em 1995 e o da Larsen B em 2002 — faz parte de processos que, apesar de longos, são cíclicos e inerentes ao sistema daquele continente. “O problema”, sublinha, “é saber se, uma vez colapsada a plataforma, nas condições atuais do planeta, haverá condições para esta se formar de novo”. E tal incerteza é a base para outras interrogações.

A principal está documentada: em 2016, a última primavera austral, registou-se uma redução sem precedentes da extensão de gelo marinho. Trata-se de uma camada de gelo fina, formada à volta do continente a partir da água do mar, que atinge a extensão máxima no inverno e a mínima no verão. 

Entre setembro e novembro de 2016, esse derretimento foi “anômalo”, tanto em extensão como em velocidade, chegando a perder 75 mil km quadrados de gelo por dia, 46% mais rápido do que a taxa média anual de fusão desde 1979. 

O fenômeno verificou-se em “todos os setores da Antártida, sendo maior nos mares de Wedell e de Ross”, especificou John Turner, da British Antarctic Survey e líder da equipe que reuniu estes dados.

Para Gonçalo Vieira, os trabalhos de Turner mostram que a anomalia está associada a uma temperatura do ar mais quente do que o normal no último verão austral, a par da baixa pressão atmosférica e consequente mudança no padrão do vento nos mares de Bellingshausen e de Amundsen, na Antártida Ocidental. “Ao contrário do que acontecia no Ártico, na Antártida tem sempre havido um ligeiro aumento da extensão de gelo marinho. A redução drástica agora notada é anómala e pode significar o início do aquecimento da Antártida. Pode ser um sinal de que o gigante está a acordar e a reagir mais rapidamente às mudanças climáticas. Mas isso só o saberemos daqui a uns anos”, reforça o especialista, que já realizou uma dezena de expedições ao continente gelado.

Três vezes maior do que a União Européia, a Antártida é em muitos aspetos ainda uma incógnita. É mais remota do que o Ártico, de acesso mais difícil e não tem população permanente, fora os milhares de cientistas que recebe anualmente. O seu estudo sistematizou-se em meados dos anos 50, tendo dado um salto em 2007 com o grande investimento que o Ano Polar Internacional trouxe à pesquisa. Hoje sabe-se que foi graças às suas características que o gigante tem conseguido proteger-se do impacto brutal das alterações climáticas noutras partes do globo: a latitude elevada, o fato de ser mais frio, de ter mais gelo — os glaciares chegam a ter 4 km de espessura — e de estar rodeado por um oceano enorme com correntes marinhas e ventos poderosos.

Mas por quanto tempo continuará a dormir? A Antártida Ocidental é já considerada um dos setores mais preocupantes. Não só possui menos gelo do que a Antártida Oriental, como a maioria da sua área continental, onde assentam os glaciares, se encontra abaixo do nível do mar. E isto leva a que o gelo fique à mercê dos efeitos do mar, aumentando a perda de massa para o oceano. Os estudos no glaciar da Ilha de Pine e no glaciar Thwaites mostram resultados “muito preocupantes” a esse nível, especifica Gonçalo Vieira. Quando um membro da sua equipe, Marc Oliva, documentou o arrefecimento da Península Antártica, isso não o deixou menos apreensivo. Quinze anos são quase nada em tempo geológico e o passado já demonstrou que, no que à Antártida diz respeito, é sempre preciso esperar para ver.

☞ Veja na postagem original mais gráficos e uma animação que explica a matéria acima, transcrita do jornal português Expresso.
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Fonte: *Expresso/Portugal: Ninguém sabe explicar muito bem o que está a acontecer na Antártida: os mistérios do gelo/Bruno Oliveira (tradução livre para o português do Brasil)

sábado, 24 de março de 2018

Eventos climáticos extremos estão mais frequentes do que nunca



Clima Extremo - Imagem: Furacão Ophelia (NASA)
Com raras exceções (esportes, bandas de rock dos anos 80), “extremo” é algo que você normalmente quer evitar. Considere, por exemplo, eventos climáticos extremos. Inundações, incêndios florestais e ondas de calor causam estragos em nosso planeta e, muitas vezes, em nossa economia.

Agora, um novo relatório, que analisou eventos climáticos extremos chegou a uma conclusão desanimadora (mas não surpreendente): eles estão acontecendo com mais frequência. Mas a notícia não é de todo ruim - podemos estar melhorando em diminuir seus impactos econômicos.

Em 2013, o Conselho Consultivo Científico das Academias Europeias (EASAC), umn grupo de 27 academias nacionais de ciências na Europa, divulgou um estudo intitulado “Tendências em Eventos Climáticos Extremos na Europa”. Esta semana, a EASAC compartilhou uma atualização do estudo que incorpora dados de 2013 a 2017.

Para o relatório original, o grupo examinou os extremos de temperatura, precipitação, seca e outras métricas relacionadas ao clima rastreadas entre 1980 e 2016. Eles descobriram que o número de eventos climatológicos globais (temperaturas extremas, secas e incêndios florestais) tem mais de dobrou desde 1980. No mesmo período, o número de eventos meteorológicos (tempestades) também dobrou, enquanto o número de eventos hidrológicos (inundações e movimentos de massa como avalanches e deslizamentos de terra) quadruplicou desde 1980 e dobrou desde 2004.

Resumindo: eventos climáticos extremos estão ocorrendo com muito mais frequência em todo o mundo. Os dados entre 2013 e 2017 indicam que é provável que eles aumentem e não sejam menos frequentes.

O relatório atualizado também analisou os potenciais propulsores desses eventos climáticos extremos, incluindo a enfraquecida Transição Meridional do Atlântico (AMOC). A AMOC, também conhecida como Corrente do Golfo, desacelerou à medida que o planeta se aqueceu, e alguns cientistas estão preocupados com o fato de que ela poderia parar completamente, o que alteraria de maneira drástica o clima da Europa. Os pesquisadores por trás deste estudo não sabem dizer se ela seria desligada completamente, mas sugerem que é melhor ficar de olho nela e observar.

Os pesquisadores também observaram os crescentes custos econômicos gerados por eventos como esses. Por exemplo, em 1980, a América do Norte perdeu 10 bilhões de dólares para tempestades. Em 2015, esse número chegou a quase US$ 20 bilhões.

Mas na Europa, embora as inundações dos rios tenham se tornado mais freqüentes, essas perdas financeiras estão se mantendo estáveis, e não estão aumentando.

Isso é só um pouco de notícia boa em um mar crescente de notícias ruins. Mas na verdade, os custos estáticos podem mostrar que os países tem implementado mais medidas protetivas, disseram os pesquisadores em um comunicado à imprensa.

Isso significa que pode ser possível "resistir ao clima", em nossas áreas populadas, para limitar o impacto de eventos climáticos extremos. Sim, é caro e está longe de ser infalível. Mas como esses eventos climáticos extremos não se tornarão menos frequentes, isso é uma boa notícia.

Referências: Science Daily, EASAC | Fonte: futurism.com (tradução livre)


segunda-feira, 5 de março de 2018

Anomalia climática sem precedentes é registrada no Ártico




Foto: Ralph Lee Hopkins/National Geographic
Aquecimento no Ártico (Polo Norte): os cientistas estão alarmados com aumento “maluco” da temperatura: Uma onda de calor alarmante e sem precedentes na história, no inverno ártico, está causando tempestades de neve na Europa e forçando os cientistas a reconsiderar até mesmo suas previsões mais pessimistas sobre as mudanças climáticas.

Enquanto a Europa “está tremendo” com uma onda de frio, em que já morreram mais de 40 pessoas, na zona ártica foram registradas temperaturas contínuas superiores a zero graus, o que, segundo os especialistas constitui uma anomalia inédita e sem precedentes.

Embora ainda possa revelar-se um evento isolado, a principal preocupação é que o aquecimento global está corroendo o vórtice polar, os ventos poderosos que uma vez isolaram o norte congelado.

O polo norte não tem luz solar até março, mas um fluxo de ar quente tem pressionado as temperaturas na Sibéria por até 35º C acima das médias históricas deste mês de fevereiro em pleno inverno no hemisfério norte. A Groenlândia já experimentou 61 horas acima do congelamento em 2018 – mais de três vezes mais horas do que em qualquer ano anterior.

Observadores experientes descreveram o que está acontecendo como “muito louco”, “estranho” e “simplesmente chocante”.

“Esta é uma anomalia entre todas as anomalias. É suficientemente distante do alcance histórico que é preocupante – é uma sugestão de que há mais surpresas na prateleira enquanto continuamos a provocar a besta brava que é o nosso clima”, disse Michael Mann, diretor do Earth System Science Center da Universidade Estadual da Pensilvânia. “O Ártico sempre foi considerado como um herdeiro por causa do círculo vicioso que amplifica o aquecimento causado pelo homem na região em questão. E está enviando um aviso claro (de que algo esta acontecendo)”.

Embora a maioria das manchetes da mídia mainstream nos últimos dias tenha se concentrado no clima inusitadamente frio da Europa em um tom alegre, a preocupação é que este não é tanto um retorno reconfortante aos invernos como o normal, mas sim um deslocamento do que deveria estar acontecendo mais ao norte .

Na estação meteorológica mais terrestre do mundo – Cape Morris Jesup na ponta norte da Groenlândia – as temperaturas recentes foram, às vezes, mais quentes do que em Londres e Zurique, em latitudes bem mais ao sul, que estão a milhares de quilômetros ao sul. Embora o recente pico de 6.1º C no domingo não tenha sido um recorde, quando deveria ser de -20º C, mas nas duas ocasiões anteriores (2011 e 2017), as altas duraram apenas algumas horas antes de voltarem mais para perto da média histórica. Na semana passada, houve 10 dias acima do congelamento durante pelo menos parte do dia nesta estação meteorológica de Cape Morris Jesup, apenas a 440 milhas (708 km) do pólo norte.

As temperaturas médias diárias, no Ártico este ano, foram até 20º C maiores do que a média:


“Os picos de temperatura mais elevada fazem parte dos padrões climáticos normais – o que tem sido incomum neste evento é que ele persistiu por tanto tempo e que tem sido tão quente”, disse Ruth Mottram, do Instituto Meteorológico Dinamarquês. “Voltando ao final da década de 1950, pelo menos, nunca vimos temperaturas tão elevadas antes no extremo do Ártico”.

A causa e o significado desse aumento brusco nas temperaturas estão agora sob escrutínio. As temperaturas muitas vezes flutuam no Ártico devido à força ou fraqueza do vórtice polar, o círculo dos ventos – incluindo o fluxo de ar – que ajuda a desviar as massas de ar mais quentes e a manter a região fria. À medida que esse campo de força natural flutua, houve muitos picos de temperatura elevada anteriores, o que faz com que os gráficos históricos do tempo de inverno do Ártico se assemelhem a um eletrocardiograma maluco.

Mas os picos de calor estão se tornando mais freqüentes e duradouros – nunca antes mais do que este ano. “Em 50 anos de reconstruções no Ártico, o evento de aquecimento atual é o mais intenso e um dos eventos de aquecimento mais longos já observados durante o inverno”, disse Robert Rohde, cientista principal da Berkeley Earth, uma organização sem fins lucrativos dedicada ao estudo e às ciências do clima.

A questão agora é se isso sinaliza um enfraquecimento ou colapso do vórtice polar, o círculo de ventos fortes que mantêm o Ártico frio, desviando outras massas de ar. O vórtice depende da diferença de temperatura entre o Ártico e as latitudes médias, mas essa lacuna está diminuindo porque o poste está se aquecendo mais rápido do que em qualquer lugar da Terra. Enquanto as temperaturas médias aumentaram em cerca de 1º C, o aquecimento no pólo – mais próximo de 3º C – está derretendo a massa de gelo. Segundo a Nasa, o gelo marinho do Ártico está agora a diminuir a uma taxa de 13,2% por década, deixando mais águas abertas e as temperaturas mais elevadas.

Alguns cientistas falam de uma hipótese conhecida como “ártico quente, continentes frios”, pois o vórtice polar torna-se menos estável – sugando um ar mais quente e expulsando frentes mais frágeis, como as que estão sendo experientes no Reino Unido e no norte da Europa. Rohde observa que esta teoria continua controversa e não é evidente em todos os modelos climáticos, mas os padrões de temperatura deste ano têm sido consistentes com essa previsão.

A mais longo prazo, Rohde espera mais variação. “Ao aquecer rapidamente o Ártico, podemos esperar que os próximos anos nos tragam ainda mais exemplos de clima sem precedentes”.

Derretimento do gelo no rio Chilkat, perto de Haines, no Alasca, inédito em pleno inverno
Fotografia: Michele Cornelius / Alamy

Jesper Theilgaard, meteorologista com 40 anos de experiência e fundador do website Climate Dissemination, disse que as tendências recentes estão fora de eventos de aquecimento anteriores. “Sem dúvida, esses eventos de aquecimento trazem problemas às pessoas e à natureza. A mudança de chuva e neve – derretimento e a geada tornam a superfície gelada e, portanto, é difícil para os animais encontrarem algo para comer. As condições de vida em tais tipos de clima alternativo são muito difíceis”.

Outros advertem que é prematuro ver isso como uma grande mudança para as previsões. “As mudanças atuais de 20º C ou mais acima da média experimentadas no Ártico quase certamente são principalmente devido à variabilidade natural”, disse Zeke Hausfather, da Berkeley Earth. “Embora tenham sido impulsionados pela tendência do aquecimento subjacente, não temos nenhuma evidência forte de que os fatores que impulsionam a variabilidade do Ártico a curto prazo irão aumentar em um mundo aquecendo-se. Se alguma coisa, os modelos climáticos sugerem o contrário é verdade, esses invernos de alta latitude serão ligeiramente menos variáveis ​​à medida que o mundo se aquecer”.

Embora seja muito cedo para saber se as mudanças globais para o aquecimento do Ártico devem ser alteradas, as recentes temperaturas aumentam a incerteza e aumentam a possibilidade de efeitos adversos acelerando as mudanças climáticas.

“Esta é situação de muito curto prazo para dizer se altera ou não as projeções globais para o aquecimento do Ártico”, diz Mann. “Mas sugere que possamos subestimar a tendência de eventos de aquecimento extremo a curto prazo no Ártico. E aqueles eventos de aquecimento iniciais podem desencadear um aquecimento ainda maior devido aos “laços de feedback” associados ao derretimento do gelo e ao potencial lançamento de metano na atmosfera (um gás de estufa muito forte) retroalimentando todo o processo”.
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Fonte: theguardian.com - Arctic warming: scientists alarmed by 'crazy' temperature rises
Tradução: Thoth3126 - Cientistas registram anomalia climática sem precedentes no Ártico (reprodução)

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Desmistificando o Fim do Mundo: "O Apocalipse Escondido"



Texto de PAULO URBAN, publicado na Revista Planeta, edição nº 339*

...Vivemos o tempo insólito em que a humanidade ousou enfrentar seus deuses, e aprendeu segredos terríveis que, pouco a pouco, foram sendo subtraídos da mãe-natureza. Aonde chegaremos? Há de fato uma data apocalíptica, destinada a interromper a volúpia desenfreada da evolução da espécie humana?

O leitor bem se lembra de que muitos esperavam o fim do mundo para 11 de agosto de 1999. Coitado de Nostradamus, injustamente acusado de charlatanice por conta da frustração geral que se abateu sobre o planeta quando não houve fim algum! Analistas incautos das Profecias puseram na boca do sábio o vaticínio de que nesta data o mundo sofreria profundo abalo. 

Elegeram a fatídica quadra 72 de sua décima centúria como anúncio de inevitável cataclismo; astrólogos frisaram o perigo de certas conjunções para o momento, e toda a civilização ocidental foi instigada a preparar-se para o fim dos tempos. 

Outros intérpretes foram buscar no Apocalipse a confirmação para suas funestas teorias. Por fim, para eximirem-se da responsabilidade de ter sido aquele 11 de agosto menos grave que quaisquer das mais simples sextas-feiras 13, fizeram de Nostradamus bode expiatório para o erro de previsão; afinal, quem mandou ser ele assim tão hermético e complicado ao escrever?

Michel de Notredame (1503-1566)
Verdade é que prever o apocalipse já é tradição na humanidade, não importando época nem lugar para que o medo do fim sobrevenha, geralmente atrelado ao arquétipo das transformações súbitas, da renovação pela morte intempestiva. Nenhum exegeta bíblico, entretanto, por mais que se aprofunde no tema, consegue distinguir a raiz original destes mitos que pregam uma data para o descansar definitivo dos relógios, para o dia do Juízo Final, quando a humanidade será então julgada por suas atitudes.

As fontes bíblicas desta concepção apocalíptica são incertas. Sabe-se que na Antigüidade, quando o Antigo Testamento foi escrito, os profetas eram vistos como personificações do divino, o que lhes conferia poderes, por exemplo o de guiar espiritualmente seus povos e prever os seus desígnios. Suas palavras eram sempre revelações, e suas mensagens, advertências de Deus do gênero “arrependei-vos ou sereis punidos”, o que contribuiu para criar o mito da compensação divina para as injustiças praticadas entre os homens, em caráter individual e coletivo, ocasião em que o joio pode ser separado do trigo e almas puras encontram a salvação.

Há três apocalipses bíblicos. Os dois primeiros encontram-se no Antigo Testamento, são os livros de Ezequiel e Daniel, que respectivamente datam dos séc. VI e II a.C., historicamente situados em época de dominação dos judeus por povos inimigos, razão esta que fundamenta o sentido libertário destes textos, a prometer às almas dos subjugados o advento do messias portador da paz e da justiça que em toda vida nunca puderam experimentar. A passagem em Ezequiel aceita como uma antevisão do Armagedon (a batalha final entre Deus e o demônio, a luta derradeira entre o bem e o mal), possivelmente referia-se à tomada de Israel pelas hordas dos cifemos, considerados ímpios e cruéis, violadores dos mandamentos de Deus, que nunca souberam honrar seus pais nem seus casamentos.

Frontispício do Livro de Ezequiel,
Bíblia de Winchester, 1160-1170
Similarmente, o Apocalipse de João, no Novo Testamento, datado do século I d.C., foi compilado durante o período em que os cristãos da Ásia Menor sofriam torturas impostas pelos romanos. Em nossos dias, praticamente é consenso que o anticristo descrito por João seja uma alusão ao imperador romano Nero (37-68 d.C.), que incendiou Roma aos 27 anos de idade, e que, culpando os cristãos pelo sinistro, iniciou a primeira grande perseguição da história contra os mesmos. Nero terminaria por suicidar-se, aos 31 anos, enlouquecido, atirando-se sobre a lâmina de sua própria espada. Vários são os mitos, entretanto, que narram sua volta, ressurgido do mundo dos mortos com a missão de perseguir seus inimigos.

Cumpre dizer que os primeiros discípulos de Jesus também estavam seguros de que o Mestre voltaria após a ressurreição para a redenção final. Tal expectativa tanto garantiu a sobrevivência dos cristãos em tempos adversos de perseguição romana, como fez gerar toda uma teologia a alimentar a crença na salvação final das almas. Embora o próprio Cristo houvesse dito que ninguém saberia nem o dia nem a hora de seu retorno, nada impediu que a Igreja interpretasse os sinais para prever quando o advento se daria. Com base nisso foi que Montanus, profeta da Frígia, Ásia Menor, em 172 d.C., dizendo-se o Espírito Santo encarnado, anunciou que o Dia do Juízo estava próximo. Hipólito, teólogo romano, na passagem para o terceiro século previu, com base nas medidas da arca de Noé, que Jesus voltaria no ano 500 de nossa era!

Já no século IV, com a conversão de Constantino, a Igreja ficou melhor assentada sobre o Império Romano, e as profecias apocalípticas perderam um pouco sua função. O monge cristão Augustino, desta época, ainda que esperasse ele próprio pela volta do Cristo, advertia contra a fé cega em profecias que vulgarizavam a idéia do fim do mundo. Suas teses foram aceitas pela Igreja no Concílio de Éfeso, em 431, a partir do que as crenças apocalípticas arrefeceram-se um pouco.


Mas no ano de 960, Bernardo da Turíngia, antigo Estado germânico, afirmaria que no ano em que o dia da Anunciação da Virgem coincidisse com a Sexta-feira da Paixão, o mundo acabaria. A profecia perturbou de modo crescente a Europa até o ano de 992, quando ocorreu sem qualquer prejuízo o tal cruzamento. Já a passagem para o ano 1000 não causou maiores temores. Embora livros apócrifos tivessem espalhado a crença de que o Juízo ocorreria mil anos após o nascimento do Cristo, o fato é que a passagem de milênio se deu despercebidamente.

O milésimo ano, representado pelos romanos por um simples M, não parecia guardar qualquer significado cabalístico. Aliás, datas numéricas do calendário eram o que menos importava; a sociedade àquela época era regrada pelos dias santos, ritos e jejuns da Igreja, festas como a Páscoa, Pentecostes, Natal, etc… A idéia de que no 31 de dezembro de 999 a humanidade tenha temido histericamente por seu fim nada mais é que outra lenda, desta vez criada pelos escritores da França iluminista que tudo faziam para criticar a Igreja e seus costumes medievais.

No século XVI, novamente ganharam força algumas profecias fatalistas. Astrólogos ingleses previam a tragédia final para 1o de fevereiro de 1524. Milhares de londrinos abandonaram seus lares, mudando-se em polvorosa para terras mais altas, procurando assim escapar do fim do mundo. Como nada ocorreu, os videntes admitiram ter cometido pequeno erro de cálculo: o fim seria em 1624!

A Europa, dentre tantas profecias, aguardaria ainda pelo fim dos tempos em 1528 por conta de um dilúvio; esperaria pelo Cristo em 1533 conforme crença dos anabatistas; e deveria ter sido destruída por um impacto em 19 de maio de 1719, segundo previsão do francês Jacques Bernoilli em seu Tratado dos Cometas.


Cristóvão Colombo
Cristóvão Colombo (1451- 1506) também acreditava, conforme sua formação cabalista e templária, que o mundo acabaria em 1650. Delirantemente, dizia que a descoberta do Novo Mundo era peça de um plano maior destinado a nos levar às portas do Paraíso: “Deus fez de mim um mensageiro do novo céu e da nova Terra, dos quais Ele falou no Apocalipse de São João”, registrou em seu diário.

Fim dos mais curiosos, entretanto, foi previsto por Mary Bateman, taverneira em Leeds, Inglaterra. Em 1806 mostrou a seus clientes um ovo de galinha cuja casca trazia a inscrição: “Cristo voltará”. Logo sua galinha botou outro ovo com igual inscrição, o que causou rebuliço no local. Mary disse então ter recebido uma revelação de Deus e cobrou 1 penny dos presentes para que pudessem ouvi-la. Todos pagaram. Contou então que tão logo o 12° ovo igual aqueles fosse botado, o mundo acabaria. Até lá, somente os que comprassem por 1 xelim um papel timbrado que ela preparava com as iniciais J.C. entrariam no reino de Deus. De novo pagaram pelo documento, e a notícia se espalhou pela cidade. Mary vendeu centenas de passaportes para o céu. No dia em que o último ovo seria botado, autoridades religiosas a flagraram fraudando previamente a mágica que se repetiria. Mary Bateman acabou sendo presa e enforcada.

Nomes de peso também se entretiveram com o tema do Juízo. O filósofo alquimista John Dee (1527-1608), por exemplo, acreditava piamente que o fim da Europa se daria no ano de 1842. No final do século XIX, intérpretes matemáticos juravam ler as profecias veladas nas medidas da pirâmide de Queóps, e atestaram que o mundo terminaria em 1881. A data foi depois corrigida para 1936, e quando de novo não se deu o vaticínio, o fim do mundo ficou postergado para 1953. Antes disso, em 1910, registrara-se o pandemônio da passagem do cometa de Halley, quando boatos científicos afirmavam que os gases tóxicos da cauda do cometa matariam por asfixia a população do planeta. Tal idéia fora lançada em 1839 pelo escritor norte-americano Edgar Allan Poe (1809-1849) num romance de ficção intitulado Conversa de Eiros com Charmion, que alcançou grande repercussão.

A total destruição da Terra era por muitos temida por ocasião da passagem…


…do Cometa de Halley, em 1910, cuja cauda envolveria nosso planeta com seus gases tóxicos e mortais.


Nosso século igualmente assistiu a inúmeras promessas apocalípticas afiançadas por várias seitas fatalistas. Exemplo ainda recente são os 911 mortos do suicídio em massa ocorrido em novembro de 1978 em Jonestown, Guiana Inglesa, onde o reverendo Jim Jones, 47 anos, suicidou-se com um tiro na testa após servir veneno a seus seguidores, que o sorveram certos de que assim estariam encontrando o Paraíso. Em 1997, a seita Portal do Paraíso promoveu suicídio coletivo semelhante numa mansão da Califórnia. Os fanáticos religiosos propuseram-se a morrer em momento precisamente oportuno, durante a passagem de um cometa pela órbita da Terra, de modo que suas almas pegassem carona na cauda do astro errante, rumo ao Paraíso.

Além do que pregam as seitas apocalípticas, certezas científicas fazem ver que, como tudo no Universo, também nosso sistema solar tem seu ciclo de nascimento, desenvolvimento e envelhecimento, seguido de morte. Ora, o Sol, crêem os cientistas, tem 5 bilhões de anos de existência, e deverá queimar ainda por outro tanto. Muito antes disso, porém, a vida no planeta Terra já não mais será possível, já que o astro-rei, desgastado, não poderá aquecer a Terra a ponto de garantir a vida orgânica em sua superfície. 

Também sabemos que, paradoxalmente, o último bilhão de anos de vida do Sol será o seu período de maiores explosões, gerador de um calor devastador, capaz de cozinhar nosso planeta e evaporar os oceanos. Além disso, pode o Sol a qualquer momento expelir uma protuberância gigante capaz de varrer a Terra com seus raios cósmicos. Uma explosão solar extraordinária poderia ser intensa a ponto de produzir radiações nocivas à vida, e induzir a mutações genéticas capazes de decretar o fim de nossa espécie.

Terra sendo atingida por meteoro / Getty Images
Chances de colisão com algum bólido que penetre em nossa órbita também existem. Embora remota esta chance, acredita-se que fenômeno semelhante tenha extinguido os dinossauros há 65 milhões de anos, já que o impacto teria levantado por anos a fio uma nuvem de poeira em torno da Terra, obstruindo a luz do Sol e resfriando o planeta. Ainda que a possibilidade de isso se repetir seja a de uma em 400 milhões, a NASA prefere manter um programa com astrônomos amadores distribuídos pelo mundo todo na tarefa de patrulhar o céu. Nossa tecnologia já permite explodir tais corpos a uma distância segura.

Mas se estas teorias parecem remotas demais para trazer à tona a realidade de nossa breve existência, por que não falarmos um pouco acerca das possibilidades reais, que estão ao nosso alcance, capazes de acabar com a vida no planeta? É por estupidez de nossa parte que a Terra corre seus maiores riscos! Isto porque o planeta sobre o qual vivemos é também efêmero. Da mesma forma que tudo no Universo se transforma, tudo no sistema solar é finito. E vivemos nos esquecendo de que a Terra ela própria não passa de friável grão de poeira galáctica, um pontinho virtual do Universo, que durante bilhões de anos se esfriou a ponto de permitir agasalhar a vida orgânica...


Entretanto, quanto mais segue inconsciente de si mesma, menos a humanidade presume que seu fim possa estar próximo, e comete atos impensados, vergonhosos, capazes de comprometer as gerações vindouras. Citemos três dados de relevância: (2000)

1°. A região Ártica tem recebido violentos golpes devido ao processo de degelo. Barreiras polares vêm se soltando e produzindo novos icebergs. Tais plataformas polares são imprescindíveis, servem como sorvedouro do calor terrestre, e colaboram para o equilíbrio térmico atmosférico.

. O salmão está morrendo no Pacífico Norte. Na Baía de Bristol, uma de suas maiores áreas pesqueiras, sua pesca foi metade do esperado em 1998, a menor nos últimos 20 anos.

. Os recifes de coral do Oceano Índico estão se desfazendo; 90% deles já foram branqueados devido à morte das algas que lhes servem de alimento e lhes conferem sua cor.

O que está por trás de tudo isso? Evidentemente é o processo de aquecimento gradativo de nossa temperatura, o chamado efeito estufa. O 1° trimestre de 1998 foi o mais quente já registrado no mundo, confirma o Centro Hadley de Londres, que desde 1860 faz estas medições. Conclui que desde 1983 ocorreram nove dos dez anos mais quentes, e que a temperatura média do planeta tende a subir mais 1,5°C até 2050.

Em 1997 realizou-se a Conferência Mundial do Clima de Kyoto, Japão, para que os 169 países participantes se comprometessem a controlar suas emissões de CO2, gás implicado no aquecimento da atmosfera. Paradoxalmente, o mesmo carbono que se constitui em matéria-prima para a vida orgânica é o elemento capaz de se comportar feito cavaleiro do apocalipse, já que traz em si o potencial para o extermínio completo da vida no planeta, bastando para tanto que se rompa seu equilíbrio em proporção aos demais gases existentes em nossa atmosfera. 

Isto quer dizer: somos habitantes de um grãozinho de areia, e vivemos protegidos por fina redoma de gases, tão resistente em termos astronômicos quanto uma bolha de sabão! Para mantermos o CO2 em níveis aceitáveis na atmosfera, sem prejuízo para o planeta, seria preciso diminuir imediatamente sua emissão em 60%! 

Mas as nações não estão dando ouvidos a isso. Com o aquecimento da atmosfera e o degelo daí decorrente, vários países litorâneos correm risco de invasão pelas águas do mar, alguns dos quais, deverão desaparecer, submersos. Espera-se ainda que ocorra a salinização de grande parte da água do planeta, contaminando-a, tornando este recurso vital ainda mais escasso do que já é.

Fiquemos por aqui! Poderíamos citar inúmeros outros riscos que nos assombram nesta virada de milênio, mas o desequilíbrio ecológico decorrente do efeito estufa é o melhor exemplo de como a humanidade segue levianamente seu caminho, não pensando no amanhã. Tecnologicamente, vamos avançando brilhantemente a cada dia, mas insistimos em esquecer o mais simples, que é cuidar da própria casa.

A propósito, a palavra apocalipse vem do grego e significa “revelar, descobrir”. Algo bem distante da idéia de fim dos tempos ou fatalidade. Por isso o Apocalipse é também chamado de “Livro das Revelações”. Fica uma lição: caso não aprendamos a nos conhecer melhor e mais profundamente a cada dia, corremos o risco de manter nosso apocalipse escondido, guardado feito potência não aproveitada. 

Não deveríamos estar responsabilizando Nostradamus pelos excessos de nosso comportamento. Se há salvação, ela é fruto de uma conscientização ecológica associada à busca por uma espiritualidade compromissada com os destinos do planeta. E se as futuras gerações pudessem ser incluídas em nossos pensamentos tudo seria bem melhor. A pequenez humana, porém, não está acostumada a pensar no tempo que ultrapasse a brevidade de uma existência.

É possível sobreviver em meio a tantos sinais concretos de fins dos tempos? Tudo depende; afinal, de nossa harmonia pessoal resulta a harmonia ecológica do planeta. Decerto há um apocalipse escondido dentro de nós mesmos. Nossa missão é desvendá-lo!

Fonte: * Amigo da Alma / O APOCALIPSE ESCONDIDO (reprodução)

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quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Ciência :: América Latina pode passar por dilúvio em 35 anos



Ciência afirma: América Latina passará por grande dilúvio em menos de 35 anos


Dentro dos próximos 35 anos, os territórios mais povoados do mundo poderão acabar inundados pelo aumento do nível do mar, segundo advertem cientistas russos. O vice-diretor do Instituto de Pesquisa Científica do Ártico e da Antártida, Alexánder Danílov, afirma que o problema mais grave é determinado pela mudança drástica da temperatura mundial. 

“Os cálculos sugerem que a temperatura se estabilizará rapidamente, mas que o nível do oceano mundial continuará crescendo por vários séculos”, acrescenta Danílov. 

Os territórios afetados serão a América Latina, Europa, Estados Unidos e Canadá, onde vive a maior parte da população mundial, mobilizando cerca de 150 milhões de pessoas em busca de refúgio. 

Até 2050, o nível dos oceanos poderá aumentar cinco metros, trazendo consequências catastróficas. “Esses cinco metros de crescimento do oceano são um sinal muito sério. Na realidade, os grandes territórios baixos, onde vive a maior parte da população do planeta, estarão em zonas de inundação”, afirma Natalia Riazánova, a responsável pelo Laboratório de Geoecologia do Instituto Estadual de Relações Internacionais de Moscou. 

Enquanto isso, o último relatório da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos EUA afirma que o ano de 2014 registrou recordes de temperaturas na superfície terrestre. Em pelo menos 20 países, foi o ano mais quente da história já registrado, chegando às mais altas concentrações de gases do efeito estufa. 

Fonte: RT   |  Crédito da foto: Nomad_Soul/Shutterstock  |  Reprodução de: History