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terça-feira, 15 de agosto de 2017

Maconha pode deter Alzheimer



Composto ativo da maconha remove proteína tóxica do Alzheimer no cérebro, diz estudo - via Merelyn Cerqueira - jornalciencia.com


Um composto ativo presente na maconha, chamado tetra-hidrocanabinol (THC), tem sido associado a remoção de aglomerados tóxicos da proteína beta-amiloide no cérebro, pensada como responsável pelo surgimento e progressão da doença de Alzheimer.

O resultado, publicado na revista Aging and Mechanisms of Disease, é compatível com estudos anteriores que encontraram evidências de que os efeitos positivos dos canabinoides, incluindo o THC, em pacientes com doenças neurodegenerativas.

“Embora outros estudos tenham oferecido provas de que os canabinoides podem agir como neuroprotetores contra os sintomas da doença de Alzheimer, acreditamos que nosso estudo é o primeiro a demonstrar que eles podem afetar tanto a inflamação, bem como a acumulação de beta-amiloide em células nervosas”, disse um dos membros da equipe, David Schubert, do Instituto Salk para Estudos Biológicos, na Califórnia. Shubert e sua equipe testaram os efeitos do THC em neurônios humanos cultivados em laboratório, simulando os efeitos da doença de Alzheimer.

O composto THC, em especial, não é apenas responsável pela maioria dos efeitos psicológicos causados pelo uso da maconha. Graças as suas propriedades naturais para aliviar dores, ele também tem sido apontado como tratamento eficaz para os sintomas do AIDS, quimioterapia, dores crônicas, estresse pós-traumático e Acidente Vascular Cerebral – derrame.

Logo, ao que tudo indica, o composto parece agir com um verdadeiro fármaco. Agora, os cientistas estão trabalhando para reproduzir uma levedura (fungo) geneticamente modificada que poderá agir de forma mais eficiente na produção de THC do que as versões da molécula sintetizada em laboratório.


Molécula do THC – tetrahidrocanabinol
O THC funciona por meio dos pulmões e através da corrente sanguínea, onde se liga a dois tipos de receptores, o receptor canabinoide (CB) 1 e 2, encontrados na superfície das células de todo o corpo. 

No caso do cérebro, eles se concentram nos neurônios associados ao prazer, memória, pensamento, coordenação e percepção do tempo, e geralmente se ligam a uma classe de moléculas lipídicas, chamadas endocanabinoides, que são produzidas pelo corpo durante as atividades físicas, para promover a sinalização celular no cérebro.

Ao longo dos anos, pesquisadores tem sugerido que ao se ligar com esses receptores, o THC pode ter outros efeitos sobre o envelhecimento do cérebro, porque, aparentemente, ele ajuda o corpo a limpar os acúmulos tóxicos – ou “placas” de beta-amiloides.

Até o momento, ninguém sabe ao certo o que causa a doença de Alzheimer, no entanto, há um consenso de que ela possa ser resultante de uma acumulação de dois tipos de lesões: placas amiloides e emaranhados neurofibrilares. Não está claro como e quando essas lesões aparecem no cérebro, mas estudos recentes têm associado essas inflamações com proliferação delas no tecido cerebral. Então, ao encontrar algo que alivie essa inflamação, e ao mesmo tempo estimula o corpo a limpá-las, poderíamos estar a caminho do primeiro tratamento eficaz para a doença de Alzheimer.

Entretanto, conforme afirmado anteriormente, os testes só foram realizados em neurônios cultivados em laboratórios. O próximo passo, segundo Schubert e sua equipe, é que esses resultados possam ser observados em ensaios clínicos. E eles já alegaram ter encontrado em uma droga experimental, chamada J147, efeitos semelhantes ao THC, de modo que esses testes poderão ser feitos sem os impasses governamentais devido ao uso de uma planta considerada droga ilícita.

[ Science Alert ] [ Foto: Reprodução / Pixabay ]

terça-feira, 22 de abril de 2014

Drogas :: Não, a Maconha não vai apodrecer seu cérebro!




THE DAILY BEAST - 17/04/2014
Por Maia Szalavitz, jornalista especializada em neurociências


Por toda a Internet, as manchetes estão vociferando que maconha prejudica o cérebro. Mas o novo estudo, publicado no Journal of Neuroscience, não prova que o uso ocasional de maconha é ruim para o cérebro.

Para entender por que, tudo o que você precisa fazer é realmente ler a pesquisa e ser capaz de pensar criticamente. Você não precisa saber nada especial sobre fMRI ou quaisquer outras siglas assustadoras, e você não precisa ser um conhecedor das estruturas cerebrais. Você nem precisa entender todas as estatísticas.

Aqui está o primeiro grande problema. Os 20 usuários de maconha participantes, que usaram a droga pelo menos uma vez por semana, foram propositalmente escolhidos por ser saudáveis. Os que apresentaram algum problema relacionado à maconha ou problemas psiquiátricos ou outras questões foram excluídos do estudo.

Você está começando a ver o que está errado? Embora os participantes usuários de maconha tenham mostrado diferenças cerebrais, em comparação com os controles, não usuários, ambos os grupos apresentaram-se normais! Em primeiro lugar, se usuários apresentaram quaisquer problemas relacionados à maconha ou qualquer outro tipo de deficiência, eles não foram incluídos na pesquisa. Portanto, o cérebro diferente que os pesquisadores descobriram foi, por definição, não associado a problemas cognitivos, emocionais, mentais ou outros problemas.

"Estou desapontado que os cientistas ainda são capazes de publicar artigos de alto nível que só olham para neuroimagem, sem uma discussão sobre o comportamento", diz Carl Hart, professor associado de psicologia na Universidade de Columbia, que não participou da pesquisa. Hart lembra sobre as diferenças cerebrais naturalmente encontradas entre os sexos. "Há diferenças estruturais entre homens e mulheres em determinadas áreas", diz ele, mas elas não preveem diferenças na capacidade. "Nós não dizemos que isso significa que as mulheres são prejudicadas", acrescenta.

Os autores afirmam que as diferenças que eles viram poderiam significar que estes participantes estão em risco de futuros problemas, mas sabemos que 35 por cento dos jovens adultos entre 18 e 20 anos fumaram maconha no ano passado, com um total de 1 em cada 5 tendo fumado pelo menos uma vez no mês passado.


Uma vez que eles atinjam 26 anos de idade, no entanto, menos de 1 por cento têm problemas sérios com a maconha, suficientes para serem classificados como dependência. O que isto significa é que as mudanças cerebrais, seja qual forem, são vistas em usuários casuais, mas elas não significam dependência, caso contrário, todos os usuários casuais se tornariam viciados, ou pelo menos, uma proporção muito maior do que realmente acontece. 

Nós já tivemos várias gerações de adultos norte-americanos que sobreviveram a taxas muito mais altas de uso de maconha do que vemos agora sem encontrar uma grande epidemia de comprometimento cognitivo, esquizofrenia ou falta de motivação.

Infelizmente, este não é o único problema do estudo. "Somente o uso casual parece criar mudanças no cérebro em áreas que você não gostaria de ver alteração", disse o autor, Hans Breiter, professor de psiquiatria da Northwestern Feinberg School of Medicine. Mas note que Breiter diz "parece criar," em vez de "cria". 

Isso porque este tipo de estudo não pode determinar causa e efeito: ao mesmo tempo que mostrou que os usuários mais pesados pareciam apresentar mudanças mais extremas do que o usuários mais leves, isso não prova que doses mais elevadas causam maiores alterações cerebrais. Isso porque as diferenças pré-existentes no cérebro das pessoas pode levá-los a usar mais ou menos a maconha e os exames podem estar simplesmente detectando essas diferenças.

Será que isso implica que a maconha é completamente benigna e todos devem fumar o dia todo, todos os dias? Claro que não! Mas o que isso significa é que, à medida que consideramos mudanças políticas como a legalização, precisamos de uma imprensa muito mais cética e inteligente. A maconha em si pode ou não prejudicar a cognição, mas discussões superficiais sobre políticas de maconha, claramente, prejudicam a cognição, de uma forma que é prejudicial para a nossa saúde política.

The Daily Breast: http://www.thedailybeast.com/articles/2014/04/17/no-weed-won-t-rot-your-brain.html

Artigo científico: http://jn.sfn.org/press/April-16-2014-Issue/zns01614005529.pdf