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sexta-feira, 14 de junho de 2013

Tem muito mais por traz da revolta das passagens!




Perguntem aos jovens que estão terminando seus cursos ou que terminaram suas faculdades. Eles dirão que - “ estão revoltados com tudo que tem que aceitar, “ - principalmente com o que é imposto pelo estado e pela sociedade mercadológica.

O jovem de hoje quer uma sociedade mais solidaria.

E eles sabem que não podem fazer nada para arrumar o que gostariam de modificar. "Tirar uma beiradinha" - em revolta contra o aumento de R$.0,20, dos transportes, - passa ser um ponto de satisfação ou de marcação de posição. 

Vejam (!?) quem são os jovens que estão sendo presos, em São Paulo , eles não são de partido politico, eles não são jovens abandonados pelos pais, são jovens abandonados pelo sistema. São jovens descrentes no sistema.

Estão revoltados, com os políticos, com os governantes, com sistema bancário, com o sistema educacional, com o sistema de saúde, com o custo do transporte, com a segurança e muito mais com a policia e seus policiais.

Falam em sobra de emprego, quase pleno emprego, mas não falam que esta sobra é do sub-emprego. 

De cada 5 jovens que se formam em cursos superior quatro ficam desempregados – para o mercado que estudaram – sendo que são obrigados a se submeterem a empregos de pequena remuneração, distante do que sonharam e para o que estudaram.

Em parte é o mesmo fenómeno que já experimentou os EUA , quando sobravam vagas para o sub-emprego , “deixaram entrar”, os jovens dos países subdesenvolvidos.

O que está acontecendo é o começo de um movimento revolucionário para mudar tudo e não é só aqui no Brasil é agora também no Brazil, com Z.

O quadro é difícil e essa transição vai acabar ocorrendo, porque são poucas a possibilidades que os nossos governante, tem para construir uma sociedade menos violenta, mais solidária e mais responsável. 

Os jovens de hoje, em todo o mundo, querem o reconhecimento pela sociedade da “sua condição básica”, que elege em primeiro lugar o item DIGNIDADE. Eles não pretendem só a cidadania com o mero direito ao consumo e seus deveres de obrigações para com as leis.

Está em marcha uma grande mudança, só que a cegueira do ser humano e de principalmente daqueles que ainda rezam, para um “ser invisível”, vai mais uma vez deixar passar tudo seguindo mais uma vez pela contra mão. 

(Guilhobel)

sábado, 7 de abril de 2012

Tropicalismo, antropofagia, mito, ideograma



por Glauber Rocha - via Tropicalia (reprodução)
Extraído de Revolução do Cinema Novo. Rio de Janeiro: Alhambra, 1981

"Consideramos como início de uma revolução cultural no Brasil o 1922. Naquele ano existiu forte movimento cultural de reação à cultura acadêmica e oficial. Deste período o expoente principal foi Oswald de Andrade. Seu trabalho cultural, sua obra, que é verdadeiramente genial, ele definiu como antropofágica, referindo-se à tradição dos índios canibais. Como esses comiam os homens brancos, assim ele dizia de haver comido toda a cultura brasileira e aquela colonial. Morreu com pouquíssimos textos publicados.

José Celso Martinez, que dirige o grupo Teatro Oficina, o mais importante grupo de vanguarda teatral, descobriu o texto do Rei da Vela, e montou o espetáculo. Foi uma verdadeira revolução: a antropofagia (ou o Tropicalismo, também chamado assim) apresentada pela primeira vez ao público brasileiro provocou grande abertura cultural em todos setores.

O Tropicalismo, a antropofagia e seu desenvolvimento são a coisa mais importante hoje na cultura brasileira.

A história do Brasil é pequena, reduzida. Temos uma tradição nacional-fascista, que depois se transformou em nacional-democrática, mas quando o país descobriu o subdesenvolvimento, o nacionalismo utópico entrou em crise e caiu. Primeiro se descobriu, sem bem que em forma bastante esquemática, por que no Brasil as Ciências Sociais são primitivas, o subdesenvolvimento econômico; depois veio a descoberta de que o subdesenvolvimento era integral.

O cinema brasileiro partiu da constatação desta totalidade, de seu conhecimento e da consciência da necessidade de superá-la de maneira também total, em sentido estético, filosófico, econômico: superar o subdesenvolvimento com os meios do subdesenvolvimento. O Tropicalismo, a descoberta antropofágica, foi uma revelação: provocou consciência, uma atitude diante da cultura colonial que não é uma rejeição à cultura ocidental como era no início (e era loucura, porque não temos uma metodologia): aceitamos a ricezione integral, a ingestão dos métodos fundamentais de uma cultura completa e complexa, mas também a transformação mediante os nostros succhi e através da utilização e elaboração da política correta. É a partir deste momento que nasce uma procura estética nova, e é um fato recente.

Agora, “Tropicalismo” é um nome que não significa nada, como “Cinema Novo”. Aquilo que é significante é o apporto dos artistas nesta direção.

Tropicalismo é aceitação, ascensão do subdesenvolvimento; por isto existe um cinema antes e depois do Tropicalismo. Agora nós não temos mais medo de afrontar a realidade brasileira, a nossa realidade, em todos os sentidos e a todas as profundidades. Eis por que em Antônio das Mortes existe uma relação antropofágica entre os personagens: o professor come Antônio, Antônio come o cangaceiro, Laura como o comissário, o professor come Cláudia, os assassinos comem o povo, o professor come o cangaceiro.

Esta relação antropofágica é de liberdade.

Já antes eu devia ter feito assim, já em Deus e o Diabo, mas o relacionamento entre os personagens era um relacionamento fechado, com censuras entre eles; eram mais burgueses porque eu era mais burguês. Ao invés em Antônio das Mortes houve uma abertura total, assim para os filmes dos outros autores: esta liberdade, nova para nós, criou a possibilidade de uma relação nova com o público.

Ultimamente não temos feito nem filmes americanos, nem filmes populistas: eu acho que um cinema assim é menos conceitual (e por isto mesmo, esquemático) e penetra mais profundo em um público colonizado, como o nosso. Com o sistema imperialista não se pode fazer concorrência, mas se se faz um filme que chega diretamente ao inconsciente coletivo, à disposição mais verdadeiramente profunda de um povo, então se pode até vencer.

Por outro lado, não foi um fato programado este, chegar a vencer, foi um fato de crescimento. E ainda faremos filmes feios. Mas aquilo que conta é o público, e o público é diferenciado.

É uma procura estética política que se move debaixo do signo da individualização do inconsciente coletivo, e para isto existe o aproveitamento de elementos típicos da cultura popular utilizados criticamente.

Nos dias passados falei com Godard sobre a colocação do cinema político. Godard sustenta que nós no Brasil estamos na situação ideal para fazer um cinema revolucionário, e ao invés disso, fazemos ainda um cinema revisionista, isto é, dando importância ao drama, ao desenvolvimento do espetáculo, em suma.

Na sua concepção, existe hoje um cinema para quatro mil pessoas, de militante a militante. Eu entendo Godard. Um cineasta europeu, francês, é lógico que se ponha o problema de destruir o cinema. Mas nós não podemos destruir aquilo que não existe. E colocar nestes termos o problema sectário é, portanto, errado. Nós estamos em uma fase de liberação nacional que passa também pelo cinema, e o relacionamento com o público popular é fundamental. Nós não temos o que destruir, mas construir. Cinemas, Casas, Estradas, Escolas etc.

De resto, por fim Godard compreendeu também, e cheguei a filmar como ator, um plano para seu filme, no qual tenho muita fé. Uma inversão estrutural do gênero western pode ser muito interessante e útil para nós diretamente. É importante o western, não somente para mim. Nós somos um povo ligado historicamente à saga, à épica. Nós temos uma grande tradição filosófica; e é um mal. Mas seria um mal maior uma filosofia de importação que não corresponde à história. Por isto a antropofagia é mais importante.

Podemos criar as tradições de uma indústria na qual o produtor é o autor. Hoje, entre nós a figura do produtor é de um técnico que estuda o mercado para encontrar formas e soluções objetivamente econômicas, até chegar a tipos de planificação.

Existe o cinema brasileiro que antes não existia, e no seu interior existem muitas diferenças.

Tínhamos de construir as estruturas e descobrir os cineastas. Isto foi feito. Agora existe uma mudança de tática, com um trabalho enorme (mas planificado, organizado) para difundir as possibilidades do cinema.

Falar de mito e linguagem é fundamental. É o centro do nosso problema. Se tendemos para uma revolução global, total, a linguagem deve ser compreendida no sentido marxista, como expressão da consciência.

Para nós o problema é de mais imediata compreensão, porque o analfabetismo leva a um tipo de percepção complexa e nós queremos desenvolver nosso cinema em uma dialética histórica permanente com a situação em movimento.

Existiram várias fases. O momento da denúncia social, influenciado pelo neo-realismo e pelo cinema social americano. O momento da euforia revolucionária, que tinha já limitadas e esquemáticas características populares. O momento, finalmente, da reflexão, da meditação, da procura em profundidade.

Nestes três momentos se encontram grandes diferenças de linguagem, mesmo em um só autor. Eu por exemplo neste momento estou menos influenciado. Antônio das Mortes tem menos detritos. As influências são mais subjetivas, mais íntimas.

O cinema do futuro é ideogramático. É uma difícil pesquisa sobre os signos (símbolos). Para isto não basta uma ciência, mas é necessário um processo de conhecimento e de autoconhecimento que investe toda a existência e sua integração com a realidade.

O mito é o ideograma primário e nos serve, temos necessidade dele para conhecermo-nos e conhecer. A mitologia, qualquer mitologia, é ideogramática e as formas fundamentais de expressão cultural e artística a elas se referem continuamente. Depois poderemos desenvolver outras coisas, mas, este é um passo fundamental. O surrealismo para os povos latino-americanos é o Tropicalismo.

Existe um surrealismo francês e um outro que não o é. Entre Breton e Salvador Dali tem um abismo. E o surrealismo é coisa latina. Lautreaumont era uruguaio e o primeiro surrealista foi Cervantes. Neruda fala de surrealismo concreto. É o discurso das relações entre fome e misticismo. O nosso não é o surrealismo do sonho, mas a realidade. Buñuel é um surrealista e seus filmes mexicanos são os primeiros filmes do Tropicalismo e da antropofagia.

A função histórica do surrealismo no mundo hispano-americano oprimido foi aquela de ser instrumento para o pensamento em direção de uma liberação anárquica, a única possível. Hoje utilizada dialeticamente, em sentido profundamente político, em direção do esclarecimento e da agitação.

O Cinema Ideogramático quer dizer isto: forma desenvolvida e aprofundada da consciência, a própria consciência, em relação direta com a construção das condições revolucionárias. A inteligência da crítica francesa, se bem que esnobe e por vezes acadêmica, tem salvo o cinema de uma mediocridade maior. O que esculhambou o cinema italiano foi a crítica pseudomarxista. Bazin é muito mais inteligente do que Aristarco, embora Rosselini, Visconti, Fellini, Antonioni sejam italianos. A excelente crítica de Bazin formou apenas Godard – embora Truffaut pudesse ser um grande cineasta se fizesse psicoanálise. Dois cineastas franceses que acompanho com atenção: Resnais e Rivette. Mas enquanto o cinema francês permanecer no domínio da razão ele estará limitado. E o pior é que esta razão é antidialética. Godard é suíço – um subdesenvolvido esmagado pelo país vizinho. E é protestante – um moralista tímido que se auto-explode para não morrer de medo."

Texto gentilmente cedido pelo Tempo Glauber

sexta-feira, 16 de março de 2012

Eric Hobsbawm, sociólogo do milenarismo campesino



Eric Hobsbawm, sociologist of peasant millenarianism
por Michael Löwy ~ traduzido por Gilberto Pinheiro Passos. o original em francês – “eric Hobsbawm (1917-), sociologue du millénarisme paysan” – encontra-se à disposição do leitor no Iea-USP para eventual consulta.

RESUMO

Graças à problemática do milenarismo, a historiografia de Eric Hobsbawm integra toda a riqueza da subjetividade sociocultural, a profundidade das crenças, sentimentos e emoções em sua análise dos acontecimentos históricos, que não são mais, nessa perspectiva, percebidos simplesmente como produtos do jogo "objetivo" das forças econômicas ou políticas. Ainda distinguindo cuidadosamente os milenarismos primitivos dos revolucionários modernos, não deixa de mostrar sua afinidade eletiva. Isso não quer dizer que todos os movimentos revolucionários sejam milenaristas em sentido estrito ou, pior todavia, que respondam a um quiliasmo de tipo primitivo. Isso não impede afirmar que a afinidade entre os dois seja um fato fundamental na história das revoltas camponesas contra a modernização capitalista. Trata-se de uma das hipóteses de investigação mais interessantes esquematizadas em seus trabalhos desta época. Hobs-bawm ilustra seus propósitos com dois estudos de caso apaixonantes: o anarquismo rural na Andaluzia e as ligas camponesas da Sicília, os dois surgidos em fins do século XIX com prolongamentos no XX.

Palavras-chave: Milenarismo, Quiliasmo, Camponeses, Revoluções, Capitalismo.

ABSTRACT

Thanks to the problematic of millenarianism, Eric Hobsbawm's historiography incorporates all the richness of socio-cultural subjectivity - the depth of beliefs, feelings and emotions - into his analysis of historical events, which, from this viewpoint, are no longer perceived simply as products of the "objective" interplay of economic or political forces. Although he makes a careful distinction between primitive millenarianisms and modern revolutionary movements, Hobsbawm nevertheless shows their elective affinity between them. This does not mean that all revolutionary movements are millenarian in the strict sense or - which is even worse - that they are connected to a primitive type of chiliasm. All the same, the affinity between them is a basic fact in the history of peasant revolts against capitalist modernization. This is one of the most interesting research hypotheses outlined by Hobsbawm in his work of that period. He illustrated his idea in two fascinating case studies: rural anarchism in Andalusia and the Sicilian peasant leagues, both arising at the end of the nineteenth century and continuing into the twentieth.

Keywords: Millenarism, Chiliasm, Peasantry, Revolutions, Capitalism.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Não seja ordinári@, seja revolucionári@!

Misture seus relacionamentos pessoais e sua política, saia pra tomar um café com alguém e converse sobre a causa.

Fale sobre o conluio entre governantes e corporações, explique como o patrimônio público e a riqueza comum estão sendo postos a leilão e usurpados pelos ricos e poderosos.

Não desperdice seu tempo apoiando um partido político público, inicie logo o seu próprio grupo ativista.

Promova ações inteligentes e pacíficas para mostrar às pessoas o que está errado e como é fácil fazer a coisa certa. Deixe claro os objetivos humanitários de liberdade, justiça social e o direito a consumir apenas aquilo que lhe provém, e não o que te empurram através de propagandas que usam seu emocional para lhe fazer comprar bens supérfluos.

Nós todos devemos alimentar-nos e aos nossos filhos, manter nosso emprego, mas temos a obrigação de encontrar, a partir de dentro, formas para resistir à opressão corporativa. Trabalho não é escravidão moderna, todos temos direito a ter nosso negócio próprio, fortalecendo a economia popular ao invés de deixar mais ricos os que já estão muito ricos.

Muitos conservadores são mantidos no ignorantismo para o fato de que as corporações recebem trilhões das mãos de governos, torne-os conscientes. Mostre os fatos, fale sobre o lucro absurdo das grandes corporações e questione se isso é justo em um mundo onde ainda existe tanta miséria, desemprego e falta de perspectiva para as novas gerações. Estude, informe-se e coloque o capital em xeque.

Participe de protestos que atendam o interesse comum das pessoas. Em vez de perder seu tempo em discotecas industriais, que bombam musicas irracionais na mente de seus frequentadores, crie entretenimento com musicas que clarifiquem e despertem as pessoas ao invés de jogá-las em um mundo de fantasia utópica. Mostre que ser é muito mais importante e valioso que ter. Trabalhe com sagacidade para tornar o interesse público interesse do público.

Diga: "EU SOU A REVOLUÇÃO!", e ACREDITE, muit@s são iguais a você, não seja mais um ordinário, transforme-se e transforme, seja revolucionári@!

Notas:

- Significado de Ordinário: adj. Que se faz comumente; habitual, useiro, vulgar; comum. | Frequente; que ocorre a cada instante; que se vê muitas vezes. | Fig. Medíocre; que não ultrapassa o nível comum. | De qualidade média ou inferior. | Reles; sem caráter.

- Significado de Revolucionário: adj. Referente a revolução: período revolucionário. | Adj. e s.m. Que, ou aquele que provoca revoluções; favorável a transformações radicais; progressista, inovador.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

3 Dicas pra ser um Revolucionário de Cuca Fresca

Para ser um revolucionário, você deve antes aprender a se acalmar. Você não pode deixar que o sangue lhe suba à cabeça muito rapidamente ou você não pode se tornar demasiadamente impulsivo. Aqui estão 3 dicas pra você manter a cuca fresca!

1) Nunca reaja a pessoas que estão tentando atacar você e sua visão de mundo. Tais reações fazem de você um reacionário, elas acabam apenas lhe trazendo incômodos e distraindo-o. Faça sua agenda de acordo com o seu próprio programa de ação.

2) Não fique obcecado com realizações materiais de seus sonhos revolucionários. Trabalhe duro, dedique sua vida à causa, mas não fique obcecado por antecipar e verificar os resultados de suas ações. Caso contrário, a decepção pode começar a rastejar em sua mente.

3) Não deixe-se tornar excessivamente sentimental com relação à revolução. Claro, a revolução é uma coisa maravilhosa, mas você não deve deixar que seus sentimentos perturbem a clareza e coerência de sua lógica revolucionária.

sábado, 1 de outubro de 2011

A filosofia por trás do movimento 'Ocupar Wall Street'

Os que clamam por austeridade são agentes financistas, para os quais é pecado ver diminuir a própria riqueza; os que pedem estímulos são eticamente corretos, mas não fazem um ataque direto aos financistas. A única solução real para a crise é, como receitou Keynes, “a eutanásia do rentista”. É esse impulso para desafiar diretamente Wall Street que mostra o quanto é razoável e necessário o movimento Ocupar Wall Street. O artigo é de Vijay Prashad.

Vijay Prashad - Counterpunch


É possível que os especuladores não façam tanto mal quanto as bolhas. Mas a posição é séria quando a empresa vira uma bolha, no redemoinho da especulação. Quando o desenvolvimento das atividades de um país vira subproduto das atividades de um cassino, o trabalho provavelmente será mal-feito. (John Maynard Keynes, 1936)

As análises do Relatório sobre Estabilidade Financeira Global do Fundo Monetário Internacional (REFG-FMI) são sempre muito sóbrias. O Relatório distribuído dia 21/9 passado avisa que a economia mundial está entrando em “uma zona de perigo”. O FMI rebaixa o crescimento estimado global, de patamar já baixo de 4,3%, para 4%, com o crescimento dos EUA cortado, de 2,7% para 1,8%. “Pela primeira vez desde outubro de 2008, no REFG-FMI, aumentaram os riscos para a estabilidade financeira global, o que assinala reversão parcial no progresso alcançado nos três anos anteriores.” [1] Em outras palavras, todas as medidas tomadas para estancar a hemorragia provocada pela crise do crédito global de 2008 em diante já deram o que podiam dar. E estamos de volta ao dia em que se fecharam as cortinas do Lehman (Brothers).

O FMI não podia ignorar a continuada crise política e econômica que sacode sem parar a eurozona, nem fingir que o crédito dos EUA não foi rebaixado. Nem, de fato, poderia fazer-se de cego para a turbulência dos mercados financeiros (...). Três processos obrigaram o FMI a ser mais atento: primeiro, os EUA terem-se mostrado incapazes de dar conta do trauma agudo no mercado imobiliário de moradias; segundo, os bancos europeus, que estão em curva de retroalimentação adversa entre as obrigações a pagar no “Club Med” (de Portugal à Grécia) e as próprias reservas; e, terceiro, as baixas taxas de juros que espantaram a finança privada, da luz do dia, para os calabouços sombrios e furtivos do sistema bancário (fundos hedge e tal).

Ambos, Olivier Blanchard, economista-chefe do FMI, e José Viñals, conselheiro financeiro do Departamento de Mercados Financeiros e Monetários do FMI, pareciam mais nervosos que o usual. Viñals sabe dos riscos na eurozona. Foi vice-presidente do Banco da Espanha, cujas reservas financeiras estão em estado tão lamentável quanto as reservas de água da Cidade da Sujeira do filme Rango (2011)[2].

O mantra do mundo atlântico tem sido “austeridade”. Assume-se que, se os orçamentos dos governos forem purgados dos gastos de interesse social para preservar o equilíbrio, daí advirá o crescimento. Estranha economia. Problema crônico é a falta de demanda efetiva (“confiança do consumidor”), que é indexada, nos EUA a salários rebaixados com transfusões eventuais de “confiança” produzida por crédito barato que criou, como bolha que ainda não explodiu, o endividamento pessoal; em maio de 2011, chegava a $2,4 trilhões. Os cortes massivos no gasto do governo só farão encolher a demanda ainda mais, e não produzirão qualquer esperança de crescimento no curto prazo. Programas de austeridade nem sempre fazem aumentar a confiança dos consumidores, mas sempre fazem aumentar a confiança entre os financistas que amam a ideia de “finanças sólidas”.

O FMI identifica o problema com uma mão e, em seguida, enfia a outra mão no moedor de carne: a atual crise não pode ser resolvida, até que se administrem as dificuldades políticas. Os “líderes políticos nessas economias avançadas ainda não conseguiram mobilizar suficiente apoio político para implantar políticas suficientemente fortes de estabilização macrofinanceira.” As ferramentas financeiras e monetárias estão pressionadas. Faz falta estratégia de comunicação mais efetiva, para convencer o público a alinhar-se a favor de medidas de austeridade para dar solidez à finança; para isso, é preciso fazer baixar a retórica ideológica que afasta as pessoas do que o FMI entende que seja uma Razão apolítica. Mas a massa ignara não conhece a razão.

O que nem o FMI nem os governos do mundo Atlântico conseguem perceber, por razões políticas, é o poder de classe do capital financeiro, que controla os mercados monetários aos quais os governos e o FMI têm de recorrer para tomar empréstimos, se querem estimular gastos ou emprestar a países em dificuldades. A confiança dos financistas é emoção muito mais importante que a confiança dos consumidores.

Em tempo de crise, a abordagem humana deveria ser ampliar os estímulos ao consumo até o momento em que milhões de pessoas consigam sair da condição de vida nua. Para fazê-lo, os governos devem desejar, nas palavras do economista Prabhat Patnaik, “exercer adequado controle sobre o sistema financeiro para garantir que os empréstimos às pessoas sejam sempre financiados, de modo a que o Estado não se torne prisioneiro dos caprichos dos financistas.”

O debate entre austeridade e estímulos é conduzido como se se travasse entre dois conjuntos racionais de pessoas. Os que clamam por austeridade são agentes dos grupos financistas, para os quais é pecado ver diminuir a própria riqueza; os que clamam por estímulos são eticamente corretos, mas não movem ataque de classe direto aos financistas, deixando-se navegar em ilusões. A única solução real para a crise do Atlântico Norte é, como receitou John Maynard Keynes, fazer “a eutanásia do rentista”.

É esse impulso para desafiar diretamente Wall Street que mostra o quanto é razoável e necessário o movimento “Occupy Wall Street” , protesto que agita lower Manhattan (bem perto de onde George Washington foi empossado presidente).

Os cidadãos que decidiram acampar permanentemente e não deixar suas tendas, e que estão sendo brutalmente atacados e agredidos pela Polícia de NY, encontraram instintivamente solução muito melhor para o país, que (1) os que insistem em exigir “mais austeridade” (como os Republicanos mais conservadores – e, no Brasil, todos os jornais e jornalistas e especialistas de todos os canais de televisão, sem faltar um); e (2) muito melhor, também que os que clamam por “estímulos” sem jamais desafiar os mandarins das finanças, os quais mais facilmente mandarão a economia dos EUA p’rô brejo, do que admitirão perder o poder que têm sobre o sistema econômico mundial (Obama, dentre outros).

Sem luta contra o capital financeiro, ordenar “austeridade” é ato de crueldade; e ordenar estímulos é ilusão.

O FMI e os políticos norte-americanos não querem desafiar a classe financeira. De fato, o FMI até alerta contra qualquer “repressão financeira” (“Com os estados sob estresse financeiro e as economias lutando para se desalavancar, os políticos podem ser tentados a suprimir ou tentar escapar aos processos e informações do mercado financeiro.”) Deve-se evitar tudo isso, diz o FMI. Querem que a salvação lhes venha de países do Sul Global, os quais, diz o FMI, “estão em fase mais avançada do ciclo de crédito”. O FMI adoraria que China e Índia entregassem seus superávits ao Norte, como estímulo... Seria via excelente para que aqueles países passassem a exportar menos e a importar mais.

O mais estranho nisso tudo é que o FMI também agia como espada do capital internacional quando advogou que Índia e China se tornassem economias orientadas para exportar e dessem as costas às políticas nacional-desenvolvimentistas. Agora, a China está pronta para exportar bens de baixo custo para as economias atlânticas... E então, em vez de recomendar que China e Índia usem seus superávits como estímulos para criar demanda em seus próprios países (para arrancar suas populações mais rapidamente da miséria, investindo em infraestrutura, criando meios para prevenir catástrofes ecológicas)... O FMI prescreve que China e Índia resolvam “os desequilíbrios financeiros” mandando seus superávits para o Norte! Por que o FMI não recomendou que o Norte tomasse essas medidas, nos anos 1980s e 1990s, quando as flechas financeiras estavam miradas na direção do Sul?

Os chineses dizem agora que podem ajudar a resgatar a eurozona, se a Europa atender a algumas “condições” que os chineses imporão (na linguagem do FMI, na era dos “ajustes estruturais”, essas condições chamavam-se “condicionalidades”, como cortar todos os investimentos de caráter humano e social, nos anos 1980s, como precondição para receber empréstimos).

Os chineses querem que os europeus acabem com processos por desobediência a leis de mercado – que é outro modo de dizer que os chineses querem morder fundo na carne do regime de propriedade intelectual – um dos últimos mecanismos ainda restantes que garantem o crescimento sem empregos que ainda mantém os EUA à tona. Mas por que, agora, a China não estaria fazendo certo? Diz o FMI que a China, agora, não está fazendo certo, por causa de seu “boom de empréstimos induzidos pela política”, também chamado de “plano de estímulos de 2009-10” – e que foi construído e aplicado sem qualquer influência dominante do capital financeiro.

É muito mais fácil mostrar os chineses como agentes do mal, do que apontar o dedo aos financistas. Toda a conversa sobre revalorização da moeda e barreira ao livre comércio não passa de conversa fiada, de quem não tem argumento a oferecer.

Lá, em Wall Street, Manhattan, norte-americanos comuns decidiram enfrentar, de vez, o capital financeiro. Não precisam recorrer à xenofobia ‘econômica’, nem se escravizar a ilusões de que os Buffets do mundo seriam a vanguarda da luta por justiça social. Querem é tirar, do pescoço dos povos do mundo, a botina-tacão das finanças.

NOTAS

[2] Para uma visita virtual, ver Wall Street Journal, 26/9/2011

Fonte original:

Tradução: Vila Vudu


Fonte: Carta Maior: Postagem original em: http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=18566, 01/10/11