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quarta-feira, 30 de setembro de 2020

'Convicção e Fanatismo', texto de Delia Steinberg Guzman

Significado de Fanatismo substantivo masculino Sentimento de cuidado excessivo que pode levar a intolerância religiosa: fanatismo religioso. [Por Extensão] Excesso de admiração (cega e veemente) demonstrada por algo ou por alguém (sistema, doutrina, partido político, religião, ídolos etc.). Etimologia (origem da palavra fanatismo). Do francês fanatisme.

"A nossa intenção é de clarificar a diferença que vemos entre convicção e fanatismo para que, postas as coisas no seu devido lugar, cada qual possa ajuizar sobre si mesmo e sobre os outros com um pouco mais de precisão.


A convicção é um alto compromisso psicológico, intelectual e moral que surge de uma adesão progressiva e fundada em boas razões, em provas, em experiências, em modelos e bases sólidas.


Uma pessoa com convicções demonstra uma saúde integral, uma segurança interior invejável, sabe de onde vem e para onde vai, que lhe permite mover-se com equilíbrio e sensatez. As convicções nascem de exercício constante das nossas capacidades interiores e da transformação paulatina de opiniões mutáveis em juízos estáveis. Não se trata de anquilosamento nem de estagnação; pelo contrário, quem tem convicções vive ao ritmo das Ideias, pois estas têm uma energia própria e um ritmo natural de desenvolvimento.


Uma pessoa com convicções é tolerante. É firme no que lhe diz respeito, mas dá lugar aos outros. Sempre disposta a ouvir, não despreza os que pensam de outro modo. Possui uma tolerância ativa: ouve os outros, expõe e defende os seus próprios pensamentos sem ferir, sem insultar. Sabe criar espaço para si mesma e para os demais. Abre espaço, gera espaço, reconhece o seu espaço, não invade o espaço alheio, não importuna, não inquieta nem maltrata os que estão à sua volta. Não se impõe de forma tirânica nem se considera o cume da perfeição. É a sua convicção que a ajuda a avançar, a ser cada vez um pouco melhor.


Uma pessoa fanática pensa pouco ou nada. Admite como bom o que os outros lhe dão e desenvolve, em vez de sentimentos, paixões incontroláveis que a arrastam para ações inconscientes das quais nem sequer se arrepende porque não pode avaliá-las.


O fanático só conhece uma ideia, se é que a conhece. Digamos antes que só aceita uma ideia, e que chegou a essa ideia não por uma adesão pessoal, mas sob o efeito de uma coação habilmente dissimulada na maioria dos casos.


O fanático é, por definição, intolerante. Nem sequer aceita a existência dos que possam sentir e pensar de outro modo; por isso, procura eliminá-los a qualquer preço, sendo a morte e a tortura algumas das terríveis manifestações desta atitude. O fanático não ouve, é incapaz de dialogar. Só sabe gritar alto e em bom som os seus princípios para ficar atordoado com a sua própria voz e não deixar espaço a nenhuma outra opinião. Contenta-se amplamente com o que tem e despreza tudo o resto que para ele não existe ou deveria deixar de existir. O fanatismo é raiz da tirania.


É certo que devemos conviver com muitos – demasiados – fanáticos, mas não podemos cair na cópia inconsciente desta aberração por muito que o absurdo que nos rege faça com que esta aberração ocupe mais tempo e espaço que as obras nobres e produtivas para a Humanidade. Devemos manter a nossa integridade moral e convertermo-nos em seres humanos cabais e com autênticas convicções."


Delia Steinberg Guzman, presidente honorária de Nova Acrópole


Para mais publicações, livros e obras relacionadas, acesse este link...


Fonte: site da Organização Internacional Nova Acrópole no Brasil, reprodução de texto de Delia Steinberg Guzman, acessado em 30 de setembro de 2020 (Organização Nova Acrópole Brasil © 2020 - Todos direitos reservados) - Imagem: card com a definição de fanatismo segundo o dicionário.

domingo, 23 de março de 2014

Ter ou ser, eis a questão


Atualíssima, por sinal, apesar da idade do texto, escrito em 1976*.

Ter ou Ser?

No sentido e com o objetivo em mente de abordar e ampliar temas humanísticos de caráter filosófico e holístico vou fazer um resumo de uma obra sobre dois conceitos tão fundamentais que estamos em permanente imersão com eles diariamente. Tais conceitos expressam-se tão simplesmente por TER e SER .

O principal objetivo deste resumo é introduzir a análise de dois modos básicos de estar no mundo : o modo TER e o modo SER.

Somos uma sociedade de gente visivelmente infeliz: sós, ansiosos, deprimidos, destrutivos, dependentes – gente que se alegra quando matou o tempo que tão desesperadamente tentamos poupar.


A nossa experiência social é a maior alguma vez feita no sentido de resolver a questão de se o prazer poderá ou não ser uma resposta satisfatória para o problema da existência humana.

Pela primeira vez na História, a satisfação do prazer não constitui apenas o privilégio de uma minoria. Tornou-se acessível a mais de metade da população. Ser egoísta não se relaciona apenas com o meu comportamento mas com o meu caráter. Ou seja: que quero tudo para mim; que me dá prazer possuir e não partilhar; que devo tornar-me ávido, porque, se o meu objetivo é ter, eu sou tanto mais quanto mais tiver; que devo sentir todos os outros como meus adversários: os meus clientes a quem devo iludir, os meus concorrentes a quem devo destruir, os meus trabalhadores que pretendo explorar. Nunca poderei estar satisfeito, porque não existe fim para os meus desejos; devo sentir inveja daqueles que têm mais e receio daqueles que têm menos. Mas tenho de reprimir todos estes sentimentos para poder revelar-me (aos outros e a mim próprio) como o ser humano sorridente, racional, sincero e amável que toda a gente pretende ser.

A paixão pelo ter conduzirá a uma interminável luta de classes.

Na sociedade medieval, como em muitas outras altamente desenvolvidas e também nas sociedades primitivas, o comportamento econômico era determinado pelos princípios éticos. O capitalismo do século XVIII foi sujeito a uma mudança radical: o comportamento econômico foi separado dos valores éticos e humanos. Com efeito, a máquina econômica devia ser uma entidade autônoma, independente das necessidades e desejos do Homem. Foi um sistema que decorreu naturalmente e de acordo com as suas próprias leis. O sofrimento dos trabalhadores, assim como a destruição de um número sempre crescente de pequenas empresas em nome do crescimento de corporações cada vez maiores, foi uma necessidade que, ainda que pudesse ser lamentada, havia que aceitar como o resultado de uma lei natural.

O desenvolvimento deste sistema econômico não era já determinado pela pergunta: O que é bom para o Homem? Mas por uma outra: O que é bom para o crescimento do sistema?

Não é de considerar menos importante um outro fator: a relação das pessoas com a Natureza tornou-se profundamente hostil. Sendo, como somos, «fenômenos da Natureza», existindo dentro dela pelas próprias condições do nosso ser e transcendendo-a pela dádiva da razão, tentamos resolver o problema existencial desistindo da visão messiânica da harmonia entre a Natureza e a Humanidade, optando por conquistá-la, transformá-la, de acordo com os nossos interesses, até que essa conquista se tornou cada vez mais semelhante à destruição. O nosso espírito de conquista e a nossa hostilidade cegaram-nos para os fatos de que as fontes naturais têm os seus limites e podem eventualmente esgotar-se, e de que a Natureza pode voltar-se contra a violação humana.

A Sociedade Industrial despreza a Natureza. Uma nova sociedade só é possível se ao longo do processo do seu desenvolvimento surgir um novo ser humano, ou, em termos mais simples, se uma mudança fundamental ocorrer na estrutura do caráter do Homem Contemporâneo. Pela primeira vez na história a sobrevivência física da raça humana depende de uma alteração profunda do coração do Homem. Todavia, essa mudança terá de acompanhar a dimensão das alterações econômicas e sociais ocorridas, capazes de dar ao coração humano uma hipótese de mudar e coragem para o conseguir."

Numa cultura em que o objetivo supremo é o TER e ter cada vez mais até parece uma função normal da vida que para viver necessitemos de ter coisas.

TER e SER são dois modos fundamentais de experiência , a energia específica de cada um determina as diferenças entre o caráter dos indivíduos e os vários tipos de caráter social.

A grande diferença entre ser e ter é a que se estabelece entre uma sociedade centrada sobre as pessoas e uma sociedade centrada sobre as coisas. Imaginemos um indivíduo que procura a ajuda de um psicanalista e que começa assim o seu discurso: « Doutor, tenho um problema; tenho insônias e apesar de ter uma boa casa, uns filhos adoráveis e um bom casamento, tenho muitas preocupações.» O estilo do discurso mais recente indica o predominante grau de alienação. Ao afirmar «Eu tenho um problema» em vez de « Estou preocupado» a experiência subjetiva é eliminada: o eu ligado à experiência passa a ligar-se à posse. Transformei o meu sentimento em qualquer coisa que possuo: o problema. Mas «problema» é um termo abstrato para todos os tipos de dificuldades. Eu não posso ter um problema porque ele não é uma coisa que eu possua; todavia, ele pode possuir-me. Ou seja, eu transformei-me num «problema» e estou agora à mercê daquilo que criei. Este tipo de linguagem denuncia uma alienação inconsciente.

Um exemplo simples do modo de existência ser ou estar é referir uma outra manifestação do estar – a da incorporação. Incorporar uma coisa, por exemplo, comendo-a ou bebendo-a, é uma forma arcaica de possuir. Até certo ponto, durante a seu desenvolvimento, todas as crianças têm tendência a levar à boca aquilo que desejam. Esta é a forma infantil de tomar posse, quando o desenvolvimento físico não lhes permite ter outras formas de controlar os seus haveres. Consumir é uma forma de ter e talvez a mais importante de todas na atual sociedade industrial da abundância. Consumir tem características ambíguas: liberta a ansiedade, dado que aquilo que se tem não nos pode ser retirado; mas ao mesmo tempo exige que se consuma cada vez mais, porque tudo o que se consumiu depressa perde o seu caráter satisfatório. Os modernos consumidores podem identificar-se pela seguinte fórmula: Eu sou igual ao que tenho e ao que consumo.

O principal motivo pelo qual raramente vemos sinais do modo ser de existência, resulta do fato de vivermos numa sociedade voltada para a aquisição de bens e obtenção de lucros.

Os estudantes que se incluem no modo ter de existência, ouvem uma lição, escutando as palavras e entendendo a sua estrutura lógica e o seu significado. Mas o conteúdo não passou a fazer parte do seu sistema individual de pensamento, enriquecendo-o e ampliando-o.


A memória confiada ao papel é outra forma de alienar a lembrança. O escrever tudo aquilo de que queremos lembrar-nos dá-nos a certeza de ter essa informação e não tentamos gravá-la no cérebro. Estamos seguros da nossa posse; só que, quando acontece perdermos as nossas notas, perdemos igualmente a nossa memória de informações. A capacidade de lembrar abandonou-nos, quando o nosso banco de memórias se tornou uma parte exterior a nós, sob a forma de apontamentos.

Se considerarmos a multidão de informações que na sociedade contemporânea é necessário reter, teremos de considerar que uma certa dose de apontamentos e referências depositadas em livros é inevitável. Curiosamente alguns indivíduos analfabetos, ou que escrevem pouco, têm memórias, de longe, superiores, aos habitantes instruídos dos países industrializados. Entre outros fatos, isto sugere-nos que a instrução não constitui de forma alguma a tão alardeada benção, principalmente quando é utilizada na leitura de matérias que empobrecem a capacidade de experimentar e de imaginar.

Durante um diálogo enquanto as pessoas do ter confiam no que possuem , as do ser confiam no que são , de que estão vivas e de que algo de novo irá nascer, se tiverem coragem de se soltar e responder. Tornam-se totalmente vivos durante a conversa, porque não são sufocados pela preocupação ansiosa daquilo que têm. A sua vivacidade é contagiosa e muitas vezes ajuda a outra pessoa a ultrapassar o seu egocentrismo. O que é verdade para o diálogo é igualmente verdade para a leitura, que é – ou deveria ser – uma conversa entre o autor e o leitor. É claro que na leitura (do mesmo modo que na conversa) é importante quem estamos a ler (ou com quem estamos a falar). Outra diferença entre os modos de ter e ser encontra-se na forma como é exercida a autoridade. Antes de entendermos a autoridade nos dois modos, há que reconhecer que «autoridade» é um termo com dois sentidos totalmente diferentes: tanto pode ser «racional», como «irracional». A autoridade «racional» baseia-se na competência e ajuda a pessoa , que com ela aprende, a crescer. A autoridade «irracional» assenta no poder e serve para explorar o indivíduo que a ela está sujeito.

A autoridade segundo o modo ser, assenta, não apenas na competência que o indivíduo possui para executar determinadas tarefas, mas em igual medida, na própria essência de uma personalidade que atingiu um elevado grau de evolução e integração. Tais seres irradiam autoridade e não necessitam de dar ordens, ameaçar ou subornar. São indivíduos altamente desenvolvidos que demonstram, através do que são- e não pelo que dizem ou fazem – tudo o que os seres humanos podem vir a ser."

Ter conhecimento e saber

A diferença entre os modos de ter e ser na área do conhecimento é formulada em duas expressões: «eu tenho conhecimento» e «eu sei».Ter conhecimento é tomar posse e manter o conhecimento disponível (informação); Saber é fundamental e serve apenas como um meio durante o processo de pensamento criativo.

O Amor

O amor tem igualmente dois significados, que dependem de nos referirmos ao modo ter ou ser.
Pode ter-se amor? Para que tal fosse possível, ele teria de ser uma coisa, uma substância passível de ser possuída. A verdade é que não existe essa coisa chamada «amor». «Amor» é uma abstração, talvez uma deusa ou um ser de natureza diferente, embora nunca ninguém o tenha visto. Na verdade existe apenas o ato de amor. Amar é uma atividade criadora. Supõe preocupação com o outro, conhecimento, resposta, afirmação, gosto pela pessoa, a árvore, o quadro ou a idéia que se ama. Implica trazer à vida, aumentar a alegria, dele ou dela. É um processo de auto-renovação e autocrescimento.

As normas pelas quais a sociedade se rege, moldam também os traços de caráter social dos seus membros. Numa sociedade industrial eles são: o desejo de adquirir propriedades, de as manter e de as aumentar, ou seja, de extrair delas o lucro, e os proprietários são admirados e invejados como seres superiores. Mas a grande maioria das pessoas não tem qualquer propriedade no sentido de capital e de bens capitais e uma questão intrigante se coloca: como podem tais pessoas satisfazer ou mesmo enfrentar a sua ânsia de aquisição e posse de propriedade, ou como se podem sentir possuidores quando não têm absolutamente nada que lhes permita, neste contexto, referenciarem-se.

É claro que a resposta óbvia é que mesmo os indivíduos pobres em propriedades possuem qualquer coisa, e prendem-se às suas pequenas posses do mesmo modo que os donos do capital se prendem às suas. E tal como eles, os pobres vivem obcecados pelo desejo de preservar o que têm e de o ver aumentado, ainda que uma quantia ínfima poupando um escudo aqui, um escudo ali).

Talvez a maior satisfação não resida tanto na posse de bens materiais quanto na de seres vivos. Numa sociedade patriarcal, até o mais pobre dos homens da classe mais miserável pode ser proprietário, no seu relacionamento com a mulher, os filhos, os animais, em relação aos quais se sente dono absoluto.
Quer o objeto que se adquire seja um automóvel, um vestido ou um acessório, após algum tempo de uso, as pessoas cansam-se dele e é mais atraente desfazer-se do «antigo» e comprar o «último modelo». Aquisição posse e uso transitório deitar fora (ou, se possível, troca vantajosa por um modelo melhor) nova aquisição, constituem o ciclo vicioso da compra consumista, e o lema de hoje, poderia ser:«O novo é belo».

Talvez o exemplo mais gritante do fenômeno do consumismo seja o automóvel privado. O nosso tempo merece ser apelidado de «Idade do Automóvel», pois toda a sua economia tem sido construída à volta da sua produção, e toda a nossa vida é, em grande parte, determinada pela subida e descida do mercado de consumo automóvel.

O sentimento de propriedade manifesta-se, igualmente, noutros tipos de relação, por exemplo, para os médicos, dentistas, advogados, patrões, trabalhadores. As pessoas no seu discurso referem-se a eles como «o meu médico», «o meu dentista», «os meus empregados», etc., mas para além da sua atitude de posse em relação aos outros seres humanos, experimentam, igualmente, esta atitude com um número infindável de objetos. Vejamos, por exemplo, a saúde e a doença. Cada um fala da sua saúde com um absoluto sentimento de propriedade, referindo-se às suas doenças, às suas operações, aos seus tratamentos, aos seus medicamentos, às suas dietas. Consideram claramente a saúde e a doença como propriedades.

Ainda que me pareça ter tudo, eu não tenho – na realidade – nada, dado que as minhas posses e o meu controlo sobre um objeto não passam de um momento transitório durante o processo de viver.

Em resumo, a frequência e intensidade do desejo de partilhar, dar e sacrificar não devem surpreender-nos se levarmos em conta as condições de existência da espécie humana. O que é surpreendente é o fato de esta necessidade ter podido ser reprimida ao ponto de fazer dos atos de egoísmo a regra, nas sociedades industriais e de fatos de solidariedade a exceção. Mas, paradoxalmente, este mesmo fenômeno é causado pela necessidade de união.

Uma sociedade cujos princípios são a aquisição, o lucro e a propriedade, produz um caráter social orientado para o ter e, uma vez estabelecido o padrão dominante, ninguém quer um marginal ou um proscrito; a fim de evitar este risco, todos se adaptam à maioria, que tem apenas em comum o antagonismo mútuo.

Como consequência desta atitude preponderante de egoísmo, os dirigentes da nossa sociedade acreditam que as pessoas podem ser motivadas apenas pelo incentivo de vantagens materiais, ou seja, através de recompensas e que não reagirão aos apelos da solidariedade e do sacrifício. Portanto, com exceções dos tempos de guerra, estes apelos raramente são feitos, e as hipóteses de observar os possíveis resultados perdem-se por completo.

Apenas uma estrutura socioeconômica e um quadro da natureza humana radicalmente diferentes poderiam mostrar outra maneira de influenciar positivamente as pessoas.

* Erich Fromm

fonte, com algumas correções: http://www.dhnet.org.br/direitos/filosofia/erich_fromm_ter_ser.pdf

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

'José', de Drummond de Andrade, com crônica de Saramago



E agora, José?

A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou, e agora, José ? e agora, você ? você que é sem nome, que zomba dos outros, você que faz versos, que ama protesta, e agora, José ?

Está sem mulher, está sem discurso, está sem carinho, já não pode beber, já não pode fumar, cuspir já não pode, a noite esfriou, o dia não veio, o bonde não veio, o riso não veio, não veio a utopia e tudo acabou e tudo fugiu e tudo mofou, e agora, José ?

E agora, José ?

Sua doce palavra, seu instante de febre, sua gula e jejum, sua biblioteca, sua lavra de ouro, seu terno de vidro, sua incoerência, seu ódio - e agora ?

Com a chave na mão quer abrir a porta, não existe porta; quer morrer no mar, mas o mar secou; quer ir para Minas, Minas não há mais.

José, e agora ?

Se você gritasse, se você gemesse, se você tocasse a valsa vienense, se você dormisse, se você cansasse, se você morresse…

Mas você não morre, você é duro, José !

Sozinho no escuro qual bicho-do-mato, sem teogonia, sem parede nua para se encostar, sem cavalo preto que fuja a galope, você marcha, José !

José, pra onde ?

Carlos Drummond de Andrade (Itabira, 31 de outubro de 1902 — Rio de Janeiro, 17 de agosto de 1987) foi um poeta, contista e cronista brasileiro.

"E agora, José?"
crônica de José Saramago

Há versos célebres que se transmitem através das idades do homem, como roteiros, bandeiras, cartas de marear, sinais de trânsito, bússolas – ou segredos. Este, que veio ao mundo muito depois de mim, pelas mãos de Carlos Drumonnd de Andrade, acompanha-me desde que nasci, por um desses misteriosos acasos que fazem do que viveu já, do que vive e do que ainda não vive, um mesmo nó apertado e vertiginoso do tempo sem medida.

Considero privilégio meu dispor deste verso, porque me chamo José e muitas vezes na vida me tenho interrogado: “E agora José?” Foram aquelas horas em que o mundo escureceu, em que o desânimo se fez muralha, fosso de víboras, em que as mãos ficaram vazias e atônitas. “E agora José?” Grande, porém, é o poder da poesia para que aconteça, como juro que acontece, que esta pergunta simples aja como um tónico, um golpe de espora, e não seja, como poderia ser, tentação, o começo de interminável ladainha que é piedade por nós próprios.

Em todo caso, há situações de tal modo absurdas (ou que pareceriam vinte e quatro horas antes), que não se pode censurar a ninguém um instante de desconforto total, um segundo em que tudo dentro de nós pede socorro, ainda que saibamos que logo a seguir a mola pisada, violentada, se vai distender vibrante e verticalmente afirmar. Nesse momento veloz tocara-se o fundo do poço.


Mas outros Josés andam pelo mundo, não o esqueçamos nunca. A eles também sucedem casos, desencontros, acidentes, agressões, de que saem às vezes vencedores, às vezes vencidos. Alguns não têm nada nem ninguém a seu favor, e esses são, afinal, os que tornam insignificantes e fúteis as nossas penas. A esses, que chegaram ao limite das forças, acuados a um canto pela matilha, sem coragem para o último ainda que mortal arranco, é que a pergunta de Carlos Drumonnd de Andrade deve ser feita, como um derradeiro apelo ao orgulho de ser homem. “E agora José?”

Precisamente um desses casos me mostra que já falei demasiado de mim. Um outro José está diante da mesa onde escrevo. Não tem rosto, é um vulto apenas, uma superfície que trem como uma dor contínua. Sei que se chama José Junior, mas mais riquezas de apelido e genealogias, e vive em São Jorge da Beira. È novo, embriaga-se, e tratam-no como se fosse uma espécie de bobo. Divertem-se à sua custa alguns adultos, e as crianças fazem-lhe assuadas, talvez o apedrejem de longe. E se isto não fizeram, empurraram-no com aquela súbita crueldade das crianças, ao mesmo tempo feroz e cobarde, e o José Junior, perdido de bêbado, caiu e partiu uma perna, ou talvez não, e foi para o hospital. Mísero corpo, alma pobre, orgulho ausente - “E agora José?”

Afasto para o lado meus próprios pesares e raivas diante deste quadro desolado de uma degradação, do gozo infinito que é para os homens esmagarem outros homens, afogá-los deliberadamente, avilta-los,fazer deles objecto de troça, de irrisão, de chacota-matando sem matar,sob a asa da lei ou perante sua indiferença.Tudo isto porque o pobre José Júnior é um José Júnior pobre. Tivesse ele bens avultados na terra ,conta forte no banco, automóvel a porta-e todos os vícios lhe seriam perdoados. Mas assim, pobre, fraco e bêbedo, que grande fortuna para São Jorge da Beira.Nem todas as terras de Portugal se podem gabar de dispor de um alvo humano para darem livre expansão a ferocidades ocultas.

Escrevo estas palavras a muitos quilômetros de distância, não sei quem é José Júnior, e teria dificuldade em encontrar no mapa São Jorge da Beira. Mas estes nomes apenas designam casos particulares de um fenômeno geral:o desprezo pelo próximo, quando não o ódio, tão constantes ali como aqui mesmo, em toda parte, uma espécie de loucura epidêmica que prefere as vítimas fáceis. 

Escrevo estas palavras num fim de tarde cor de madrugada com espumas no céu, tendo diante dos olhos uma nesga do Tejo, onde há barcos vagarosos que vão de margem a margem levando pessoas e recados. E tudo isto parece pacífico e harmonioso como os dois pombos que pousam na varanda e sussurram confidencialmente. Ah, esta vida preciosa que vai fugindo, tarde mansa que não será igual amanhã, que não serás, sobretudo o que agora és.

Entretanto, José Júnior está no hospital, ou saiu já e arrasta a perna coxa pelas ruas frias de São Jorge da Beira. Há uma taberna, o vinho ardente e exterminador, o esquecimento de tudo no fundo da garrafa, como um diamante, a embriaguez vitoriosa enquanto dura. A vida vai voltar ao princípio. Será possível que a vida volte ao princípio? Será possível que os homens matem José Júnior? Será possível?

Cheguei ao fim da crônica, fiz o meu dever. “E agora, José?”

José de Sousa Saramago GCol SE (Azinhaga, Golegã, 16 de Novembro de 1922 — Tías, Lanzarote, 18 de Junho de 2010) foi um escritor, argumentista, jornalista, dramaturgo, contista, romancista e poeta português.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Concentração é mesmo o X da questão?


Hoje estive lendo um artigo do Sérgio Rodrigues na edição online da revista Veja: 'Concentração dividirá o mundo entre senhores e escravos'. Lá ele afirma que o poder de concentração é que vai definir quem serão os senhores e quem serão os escravos digitais. 

Escrevi meu comentário mas não sei por que não foi aceito, deu erro de postagem através do Facebook - #VejaFail + #FacebookFail - após tentar algumas vezes acabei optando por deixar meu comentário aqui, em forma de postagem, afinal hoje o site da Veja, o seu site, ou o meu, o blog deste ou daquele, todos concorrem em pé de igualdade.

Se em um passado não muito distante a informação valia mais que dinheiro, acredito que hoje vale a mesma coisa. O que vale sim é o capital do conhecimento, este valorizou muito. Desde a Grécia antiga até os dias atuais, assistimos à oscilação da ciência caracterizada por momentos de estabilização e de rupturas. Participamos dessas mudanças quando discorremos sobre questões do racionalismo versus empirismo versus construtivismo ou quando confrontamos ciência antiga com a ciência moderna.

Sinto muito por ainda haver este conceito de hierarquia social, na qual necessariamente precisa haver os que mandam e os que obedecem. Acredito muito mais no trabalho em equipe, onde pode haver alguém pra organizar, mas hierarquicamente falando, todos estão na mesma posição. Não há ninguém melhor ou pior, não há senhores ou escravos.

Acredito sim que a capacidade de concentração é relevante, entretanto, tal qual os suportes de acesso à rede devemos ser multitarefa. Existem estudos que relacionam a hiperatividade com o sucesso online. Se há 10 anos crianças hiperativas eram consideradas problemáticas, hoje se sabe que estas pessoas têm melhor desempenho na internet e na lida com as tecnologias da informação.


Não vejo vantagem em mergulhar na primeira página de um livro e continuar imerso nele até terminar. Vejo sim um diferencial nas pessoas capazes de ler 10 livros ao mesmo tempo, de forma dinâmica. Assimilar conhecimento sem perder tempo e sem ‘criar gordura’. Nossa capacidade de concentração, quando conectados, exige estarmos ligados em vários temas distintos ao mesmo tempo, a várias plataformas e aplicativos simultaneamente.

O escravo digital é o mesmo escravo de sempre, apenas a caverna foi ganhando novas tecnologias, entretanto os cativos continuam os mesmos, desde que Platão os definiu. Qualquer um que fica olhando para uma parede o dia inteiro não pode produzir nada de valor indispensável à humanidade, pode sim produzir para outros cativos, como ele.

Olhar pela janela da vida real e saber processar as informações é tão importante quanto quando falamos da janela virtual, do universo digital. Como a informação está ao alcance de quase todos, precisamos saber usá-la fora do ciberespaço, a informação e o conhecimento tem grande poder de transformação. Estou desde 1995 na Internet e vejo claramente as mudanças que o virtual já provocou no material. A rede mundial está transformando a sociedade em uma velocidade jamais antes registrada. Viramos uma aldeia global.

Hoje todos somos prossumidores, consumimos, mas também produzimos. Se a revolução industrial escravizou, a revolução tecnológica está libertando as pessoas. Vivemos uma revolução (social) dentro de outra revolução (tecnológica), e tudo isto está transformando o mundo e a forma como o vemos.


A verdade, penso, é que nos dias de hoje só é ou se torna escravo quem quer. Ingressamos em uma era na qual, dentro em breve, não mais irão existir senhores nem escravos. Na Era da Informação e do Conhecimento, a tendência é equalização. 

Conectar é ligar e não separar. A sociedade conectada caminha para a consciência coletiva e quem quiser continuar sendo 'senhor de escravos' arrisca ficar no caminho, ser isolado, deixado para trás. Lembre-se que todo input gera um output.

Havendo senhores e escravos o fluxo de informação não flui de maneira natural, não há interatividade plena, isto é lógica. Se é tempo de evoluir, passa da hora de despertar! Na aldeia global não há mais lugar para caciques autoritários, o poder está nas mãos dos índios e de alguns pajés que desejam libertar seus semelhantes da subserviencia e da escravidão mental. 

No mundo conectado em rede o que vale é o conceito de interatividade, um todos e todos um. É UMA aldeia, não várias. Quanto a informação, ela parte de você, do seu vizinho, dos seus contatos nas redes sociais. As barreiras culturais, religiosas e linguísticas estão caindo. Se existe mesmo um Deus, acredito que sim, Ele é o mesmo para todos, independente da religião somos todos irmãos e irmãs, e com certeza foi Ele quem permitiu ao homem criar a internet.

Concordo que concentração é deveras importante, mas precisamos nos concentrar de forma multitarefa, sem perder o foco. O foco você encontra através do conhecimento, e este sim é indispensável. Concentre-se nisso, na busca do conhecimento, coloque no seu alvo o que lhe for útil, que for útil aos que estão próximos de você e estes por sua vez hão de seguir o exemplo.


Crie e não seja egoísta, compartilhe, divulgue. Esta coisa de senhores e escravos, esqueça, deixa para os anos de trevas que a humanidade viveu nos séculos passados. A lógica deve ser usada para o bem pensar direcionado ao que é comum, não para satisfazer desejos de uns poucos. 

O Planeta, e os recursos que ele nos oferece, pertence de forma igual a todos. Deixe os velhos conceitos de poder para os poderosos; que hoje estão tentando se equilibrar numa corda bamba, esticada sobre o abismo da coletividade, isto não é problema nosso e sim deles. 

É hora de romper com paradigmas ultrapassados, preconceitos, tabus e qualquer forma de pensamento reacionário. Desprograme-se, liberte sua mente! Conectados somos UM, juntos podemos tudo, sim, se eles podem nós também podemos! 




quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Tesla e o fenômeno O.V.N.I.



Nikola Tesla (Nicola Tesla ou Никола Тесла), nasceu em Smiljan, Império Austríaco, território da atual Croácia, em 10 de Julho de 1856. Era um inventor nos campos da engenharia mecânica e electrotécnica e tornou-se cidadão norte-americano, fazendo sua passagem para o além em Nova Iorque, no dia 7 de Janeiro de 1943.

Tesla foi um importante cientista e inventor da idade moderna, um homem que "espalhou luz sobre a face da Terra". É mais conhecido pela suas muitas contribuições revolucionárias no campo do electromagnetismo no fim do século XIX e início do século XX. As patentes de Tesla e o seu trabalho teórico formam as bases dos modernos sistemas de potência eléctrica em corrente alterna (AC), incluindo os sistemas de distribuição de energia multifásicos e o motor AC, com os quais ajudou na introdução da Segunda Revolução Industrial.

OVNI é a sigla para Objeto Voador Não Identificado, também conhecido por UFO (Unidentified Flying Object) em inglês.

Aparentemente Tesla também teve seus projetos revolucionários envolvidos com canalizações baseadas no ocultismo e espionagem entre o governo americano. Antes da Segunda Guerra Mundial seus projetos e patentes foram roubadas e copiados pelos nazistas, e serviram para os Aliados e grandes empresários, até estes próprios definitivamente o desacreditarem e levarem Tesla ao ostracismo. Isso aconteceu por não acreditarem em seus projetos comunitários, e acreditarem que estivesse repassando informações aos laboratórios alemães de armas de guerra, especificamente o poderoso "Raio da Morte".


Suas ligações com entidades cósmicas são até hoje objeto de livros e revelações surpreendentes, como suas ligações sobre OVNIs, relatados no livro Countdown to Space Fleet Landing or George Adamski Speaks Again from Planet Venus (Contagem regressiva para o Pouso da Frota Estelar ou Falando Novamente do Planeta Vênus) (Tesla Speaks Series, Vol 7).

Tesla envolveu-se com canalizações e ocultismo, tendo sua vida descrita por Orson Welles, um mágico amador e um agente Lantern, como Tesla recrutado pelo Spymaster Maskmelin ¹ da organização secreta The Seven Circle. Em 1979, Welles teve uma participação no filme "The Secret Life of Nikola Tesla", e muitas das revelações apresentadas são relatadas em detalhes.

No filme "O Ilusionista" (The Illusionist, 2006), David Bowie interpretou Nikola Tesla, porém ocultando no longa-metragem que Tesla morreu em um hospício, onde fazia vários desenhos nas paredes de sua cela, como OVNIs e alienigenas. Tesla morreu sozinho e esquecido porque sua forma de energia limpa e barata podia derrubar todos os lucros de grandes empresas, que investiram bilhões em construções de hidroéletricas e termeléticas movidas a combustíveis fósseis.

Tesla e o Vegetarianismo

Em entrevista para o "Century Illustrated Magazine", publicada em Junho de 1900 sob o título "The Problem of Increasing Human Energy", Nikola Tesla declarou ter se tornado vegetariano por:

Considerar errado consumir carne animal, criada a um "custo mais alto que o necessário para o cultivo de vegetais, quando grande parte da população passa fome";

Considerar os alimentos de origem vegetal "superiores a carne tanto quanto à performance mecânica quanto à mental";

Perceber "o abate dos animais como uma crueldade".

Visite o site da Tesla Memorial Society of New York: http://www.teslasociety.com (em inglês)

terça-feira, 22 de junho de 2010

Uma Interpretação do Desenho de um Laboratório de Alquimia

O conhecimento é a base para tudo, inclusive para a Alquimia. Estudando sobre o tema encontrei a imagem do laboratório do alquimista Heinrich Khunrath¹, a gravura, retratada no livro Sapientiae Amphitheatrum aeternae², escrito por Heirich em 1595, mostra o local e, o que achei mais interessante, frases 'mágicas' em Latim. A seguir compartilho a planta humanizada do laboratório e a tradução dos dizeres, feita por John Read³:


Na imagem podemos ver as seguintes frases (do latim).

Arquitrave:
SINE AFFLATU DIVINO, NEMO VNQUAM VIR MAGNUS. SINE DIVINO AFFLATU, VNQUAM MAGNUS VIR NEMO.
"Sem inspiração divina, não há homem que é grande." (De Cícero, De natura deorum)

Lema na fita acima da plataforma de produtos químicos, a direita:
NEC TEMERE, NEC TIMIDE Temere NEC, a NEC timide "Nem precipitadamente, nem timidamente"

Placa superior da plataforma de produtos químicos:
LABORATORIVM "Laboratory"

Garrafas de químicos:
(linha superior) CELI ROS = orvalho do céu, AZOTH = mercúrio / SOPHIC POTAB AURUM = Ouro potável / (Linha inferior) • HYLE. • SANG • ☉ POTA? • ??ER?. ☿ • HYLE. SANG • • ☉ ? •? Er?. ☿ (?) HYLE = matéria primordial; cantava. ♌ = SANGUIS DRACONIS = sangue de dragão, ☿
Lareira acima do forno:
SAPIENTER RETENTATVM, SVCCEDET ALIQVANDO. SAPIENTER RETENTATVM, ALIQVANDO SVCCEDET.
"O que é sabiamente tentar sabiamente conseguirei algum dia."

Bases de colunas à direita:
RA/TIO • EXPE/RIEN/TIA.
"Razão" • "Experiência."

Cesta de carvão:
pudeat NO /? rbonű
"(?) De carvão"

Topo do fogão no meio:
FESTINA/LENTE
"Apresse-se lentamente"

A direita do fogão (banho-maria):
Matúrandúm
(?)

Equipo de destilação:
ama?
(?)

Equipo de Condensação
Spt?
(?)

Toalha de instrumentos musicais abaixo:
MUSICA tristib Sancta? spirituum? mali /? uarum fuga gvili... / ...gaudio pio perfuso.
"O musical sagrado (coisas)" triste?, Respiração, vida, inspiração, orgulho?, Pessoas com más intenções (más)? ... voo (por avião) ... com alegria Eu venero o vazamento por cima (com um fluido)?

Topo da tenda verde:
ORATORIVM / FELIX / CVI יהוה / A CONSILIS.
"Oratório (local de oração)" / "Feliz é o homem" / "Deus" (em hebraico) / "por um plano." (Pelo conselho)

Do lado esquerdo da tenda verde:
HOC HOC AGENTIBVS / nobis devs ADERIT IPSE.
"Quando atendemos estritamente para o nosso trabalho, o próprio Deus nos ajudará".

Placa suspensa sob a tenda:
NE LOQUA / RIS DE DEO / ABSQ. LV. minas /.
"Não falar de Deus na escuridão" (literalmente, sem luz) (Ne loquaris de Deo absque lumine)

Pernas da mesa sob a tenda:
DISCE BENE MORI
"Aprender a morrer bem" (?)

Acima do arco da entrada:
Dormiens Vigila.
"Durante o sono, ser vigilante."
_____________________
Referências:
1- Heinrich Khunrath, (☆ Dresden ou Leipzig, † 1560-Dresden ou Leipzig, 9 de setembro de 1605), foi um médico, filósofo hermético e alquimista da Alemanha.
2- Sapientiae Amphitheatrum aeternae




3- http://www.alchemylab.com/khunrath.htm - acessado em 22 de junho de 2010 - Tradução Livre



terça-feira, 12 de janeiro de 2010

O novo artista - The new artist




“It is less a question of the artist interpreting the world then of allowing existing or hypothetical biological processes, mathematical structures, social or collective dynamics to speak directly. In this sense art no longer involves the composition of a ‘message’ but the creation of a mechanism.. A new type of artist appears, one who no longer relates the course of historical events. This new artist is an architect of the space of events, an engineer of worlds for billions of future histories, a sculptor of the virtual.”


"A arte não consiste mais, aqui, em compor uma "mensagem", mas em maquinar um dispositivo que permita à parte ainda muda da criatividade cósmica fazer ouvir seu próprio canto. Um novo tipo de artista aparece, que não conta mais história. É um arquiteto do espaço dos acontecimentos, um engenheiro de mundos para bilhões de histórias por vir. Ele esculpe o virtual."

Fonte: LÉVY, Pierre. O que é o virtual? São Paulo: Ed. 34, 1996. - pág 149.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Estamos todos conectados

"We Are All Connected", é uma edição feita a partir de episódios do programa Cosmos, de Carl Sagan, veiculado pelo The History Channel na década passada. É uma homenagem aos grandes mentes da ciência, destina-se a difusão do conhecimento científico e da filosofia por meio da música.


Tyson:

Estamos todos conectados
uns aos outros, biologicamente
com a Terra, quimicamente
e com o resto do universo atomicamente.

Feynman:

Acho que a imaginação da natureza
é muito maior que o do homem.
Ela nunca vai nos deixar
Relaxar!

Sagan:

Vivemos entre um universo
onde as coisas certamente mudam todos,
mas de acordo com padrões, normas,
ou como nós chamamos
leis da natureza.

Nye:

Eu sou apenas este ponto, situando-se em um planeta
realmente eu sou apenas como uma partícula.
Eu sou só um pedacinho!
Comparado com uma estrela
o planeta é apenas um pontinho.
Para pensar sobre tudo isso
a pensar no imenso vazio do espaço
Há bilhões e bilhões de estrelas
bilhões e bilhões de partículas!

Sagan:

A beleza de uma coisa viva não são os
átomos que estão nela
mas a maneira como esses átomos estão juntos.
O cosmos também está dentro de nós
nós somos feitos de matéria de estrela.
Nós somos uma maneira
nós somos um caminho para o cosmos para se renovar.
Através do mar do espaço
as estrelas e os outros sóis.
Nós já viajamos nesta estrada antes
e há muito a ser aprendido.

Tyson:

Estamos todos conectados
uns aos outros, biologicamente
com a Terra, quimicamente
e com o resto do universo atomicamente.

Sagan:

Eu acho que é fascinante e emocionante
descobrir que vivemos em um universo
que permite a evolução das máquinas moleculares
tão complicadas e sutis
como nós.

Pegue ele...

Tyson:

Eu sei que as moléculas do meu corpo
são rastreáveis aos fenômenos do cosmos.
Isso me faz querer pegar as pessoas na rua
e dizer: "você já ouviu isso?"

Sagan:

A beleza de uma coisa viva não são os
átomos que estão nela
mas a maneira como os átomos estão juntos.
O cosmos também está dentro de nós
nós somos feitos de matéria de estrela.
Nós somos uma maneira
para o cosmos para se conhecer.

Feynman:

Existe essa confusão tremenda
de ondas em todo o espaço
que é a luz que saltando ao redor da sala
e indo de um lado para o outro.
E tudo isso realmente existe
realmente, há realmente...
Mas você tem que parar e pensar sobre isso
sobre a complexidade, realmente, ter o prazer.
E isso tudo realmente existe
realmente, realmente há.
A natureza inconcebível
da natureza!

Nye:

Para pensar sobre tudo isso
a pensar no imenso vazio do espaço
Há bilhões e bilhões de estrelas
bilhões e bilhões de partículas!

Sagan:

A beleza de uma coisa viva não são os
átomos que estão nela
mas a maneira como esses átomos estão juntos.
O cosmos também está dentro de nós
nós somos feitos de matéria de estrela.
Nós somos uma maneira
para o cosmos para se conhecer.
Através do mar do espaço
as estrelas e os outros sóis.
Nós viajamos por essa estrada antes
e há muito mais a ser aprendido.

Fonte: lcrodrigues - http://www.youtube.com/watch?v=vm6ye1F9XsI

terça-feira, 12 de maio de 2009

'Caminhos da Morte'

Fiquei abismado quando conferi o blog de Edir Macedo, dirigente da 'Igreja Universal'. Na postagem do 7 de maio passado, o bispo mostra uma fotomontagem que diz ter recebido de um fiel; na apresentação de imagens aparecem cenas fortes, que teriam sido captadas na Índia. O título da postagem é: 'Caminhos da Morte', fazendo uma triste e clara alusão ao folhetim 'Caminho das Índias'. Já no primeiro quadro de imagens aparece a frase: 'A Índia que a TV Global não vai mostrar'. As fotos são chocantes, nojentas mesmo; mostram ruas cheias de lixo, muita miséria, gado comendo lixo e vários corpos em decomposição. Isso como se aqui mesmo em nosso país não existissem favelas e miséria equiparável.

A Índia, como o Brasil tem suas belezas também. Por quê mostrar este lado lúgubre? Será que na Índia também não circulam imagens com corpos mutilados por traficantes e milicianos aqui na América Latina? E os 'microondas' no alto dos morros, também não queimam gente? Claro que a Globo mostra as belezas da terra de Buda e não suas misérias. A novela não quer chocar mas entreter. A nós bastam as misérias que vemos em nossas ruas quando saimos de casa ou ligamos a TV na hora do jornal. O que realmente existe é pobreza, na Índia e em outros países. Com certeza as águas do Ganges não são potáveis, mas a do Rio Pinheiros são? Nós enterramos nossos mortos, ao passo que eles os incineram a céu aberto, quem já não viu um defunto ou ossada a céu aberto dentro do cemitério?

O problema de 'saúde pública', ao qual atentam as imagens exibidas no blog do bispo Macedo, parece graves, mas vivsivelmente estão atrelados a ignorância e a miséria; mesmos fatores que atravancam o desenvolvimento aqui em nosso país. 'Caminho das Índias' é um produto de entretenimento, o caminho antagônico é o da intolerância e exploração da ignorância. Tudo deixa de ser alegre, como na Índia mostrada pela líder de audiência, e passa a estar triste, com o julgamento impreciso que alguns fazem de culturas estrangeiras.

Na era em que vivemos toda informação é compartilhada, cabe as pessoas de bem fazerem bom uso delas. Que proveito há em atirar pedras no telhado do vizinho? Os conflitos internacionais que persistem neste mundo globalizado são derivados, em sua maioria, da intolerância religiosa, do preconceito contra qualquer espécie ou género humano. Temos que cuidar é para que costumes e dogmas ultrapassados não nos desviem da senda do progresso.

Vivemos numa aldeia global, conectada na qual, com certeza, num futuro próximo, a ignorância irá se dissipar. Neste dia o gado deixará de comer lixo e se alimentará de relva fresca, beberá água pura. Tentar denegrir a imagem de um país e de uma cultura, na desesperada luta por audiência, parece condenável. O conhecimento tácito é limitado, quando explicitado não pode servir como argumento para julgamentos, ou se valer do sensacionalismo para arrebanhar adeptos.

Todos temos livre harbitrio para escolhermos nosso caminho, por que não escolher o das índias? Além de estarmos todos lá em casa adorando a novela, nos veio a curiosidade em conhecer mais daquele país e daquela cultura, nossa curiosidade ficou mais aguçada com a postagem do Sr. Edir. Assim funcionam as coisas na Nova Era em que vivemos. Como declamou o poeta Paulo Leminski: "Prazer da pura percepção, sejam os sentidos a crítica da razão.".